Estado de São Paulo,  https://economia.estadao.com.br/blogs/radar-do-emprego/empresa-junior-impulsiona-universitario-alem-do-estagio/, 25/08/2019

Empresa júnior impulsiona universitário além do estágio

As mais de 900 EJs do País faturaram R$ 29 milhões em 2018; aluno não ganha salário, mas mira ponte com o mercado

Mateus Apud, O Estado de S. Paulo

Terminar a faculdade e ter um emprego com salário é a meta de grande parte dos estudantes de curso superior. Para conseguir uma vaga no mercado, além de tentar inserção via estágio, cresce o número de universitários que buscam impulsionar a carreira por meio da empresa júnior (EJ) da sua universidade. Nela, os alunos só não ganham salário, mas prestam consultorias para clientes reais, incluindo grandes empresas – o faturamento é destinado à manutenção da entidade.

Após um crescimento de 16% no número de empresas em 2018, hoje elas são mais de 900 distribuídas em mais de 170 universidades do País, que faturaram R$ 29 milhões no ano passado. No Estado de São Paulo, são mais de 120 EJs em 15 instituições superiores espalhadas por 15 cidades.

Nas empresas, a ideia é que os alunos realizem, dentro de sua área de formação, todas as etapas de um projeto sem o auxílio de professores. “O principal ponto de uma EJ é o aprendizado pela prática, pois ela leva a vivência de um ambiente empresarial ainda no começo da faculdade”, diz Renan Nashimoto, presidente da Brasil Júnior, confederação que congrega as EJs do País e que espera chegar a 1.100 entidades ainda neste ano.

Estudante do 8º semestre de engenharia civil da Unesp e ex-funcionário da empresa júnior da mesma faculdade, ele conta que são três os pilares de aprendizado: capacitação em gestão, projetos e liderança. “Muitos comparam com um estágio, mas é mais do que isso, pois ele desenvolve competências que muitas vezes não seriam desenvolvidas no estágio. A vivência empresarial na EJ transforma o aluno em um profissional comprometido.”

Segundo a Pesquisa de Carreiras do Movimento Empresa Júnior 2018, da Brasil Júnior, com mais de 6 mil estudantes membros de EJ, 36,18% dizem querer atuar no setor privado depois de formados, 28,5% dizem que pretendem empreender de médio a longo prazo, e 8,13% apostam na atuação no setor público.

Pioneira no País

Primeira empresa júnior fundada no Brasil, em 1988, a EJFGV (da Fundação Getúlio Vargas) conta com alunos do 1º ao 6º semestres dos cursos de administração, administração pública, direito e economia. Com essas habilidades, presta consultorias financeiras, mercadológicas, estratégicas e operacionais a empresas.

O foco são as PMEs (pequenas e médias empresas), e a entidade cobra de R$ 10 mil a R$ 15 mil por projeto. Mas também presta consultoria a gigantes do mercado, como Rappi e Ambev.

“O aluno faz projetos de verdade para clientes de verdade. Muda 100% o sentimento de responsabilidade, pois você ainda é aluno e já tem um cliente real. Não é igual a um trabalho de faculdade”, enfatiza o presidente da EJFGV e estudante de administração, Leo Pasqualin. “A galera que faz EJ tem zero dificuldade de entrar no mercado, pois aprendemos a trabalhar em grupo e como é uma dinâmica de empresa.”

Segundo Pasqualin, diversos ex-membros da EJFGV têm hoje cargos em empresas de destaque no mercado. Um deles é Adriano Corrêa, sócio da BDO, rede mundial de contabilidade e consultoria. Presente em mais de 160 países, a empresa atua com auditoria, tax, advisory e controladoria nos setores de agronegócio, energia e recursos naturais, entre outros.

Formado em administração na FGV em 2007, Corrêa fez parte de EJFGV de 2004 a 2006 e conta que a experiência foi fundamental para o seu desenvolvimento como profissional. “O aluno é jogado em uma exposição muito bacana, na qual ele aprende muito. É uma experiência enriquecedora, que o faz um profissional mais completo e preparado para o mercado.”

Trabalhando como consultor na parte de planejamento estratégico, atendimento técnico e na área de finanças da entidade, Corrêa afirma que os recrutadores veem com bons olhos os alunos que trabalham numa EJ. “Como esses alunos já passaram por experiências reais, isso dá um selo de qualidade. Num momento em que ninguém tem nada no currículo, é legal ter uma experiência empresarial real para se diferenciar.”

Vasta clientela

Também em São Paulo, a Poli Júnior foi fundada em 1989 como a primeira EJ de engenharia do Brasil. Hoje, é uma das mais de 30 EJs da USP e presta consultoria em cinco áreas da engenharia, com clientes que vão de multinacionais a pessoas físicas.

Segundo o presidente da empresa, Pedro Mauro, todo o trabalho é dos alunos, que apenas precisam da assinatura de um engenheiro civil parceiro no caso de projetos que envolvem uma planta. “Aqui, 90% dos membros estão alocados na área de projeto, para colocar a mão na massa. O resto fica com o foco na gestão, mas todos têm a oportunidade de realizar as duas funções durante sua passagem.”

Aluno de engenharia de produção, Mauro conta que, ali também, a vivência empresarial resulta numa empregabilidade “absurda”. “Recebemos o tempo todo propostas de empresas que querem fazer processos seletivos dentro da entidade, para contratar os alunos. Temos essa vivência de mundo corporativo.”

Na seção Carreira dos Sonhos da pesquisa da Brasil Júnior, a Ambev ocupa a 1ª posição de empresa mais desejada para se trabalhar após formado. Sendo parceira da entidade, a cervejaria conta com um quadro grande de trainees e estagiários que foram de uma EJ e já realizou diversos processos seletivos dentro de muitas delas.

“Fomentamos a experiência prática e valorizamos perfis de estudantes que buscam absorver conhecimento além da teoria em sala. Um estagiário que passou por uma empresa júnior tende a ter mais conhecimentos sobre a rotina de trabalho em uma empresa e pode estar mais familiarizado a participar de trabalhos em equipe e conduzir projetos com autonomia, o que vemos como um diferencial”, diz o especialista de Recrutamento e Seleção da Ambev, Rodrigo Bianchini.

* Estagiário sob a supervisão do editor de Suplementos, Daniel Fernandes

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