Portal G1, https://g1.globo.com/economia/concursos-e-emprego/noticia/2019/09/10/negros-na-lideranca-eu-me-sinto-adequada-exatamente-onde-eu-estou-diz-roberta-anchieta-do-itau.ghtml, 10/09/2019

Negros na liderança: ‘Eu me sinto adequada exatamente onde eu estou’, diz Roberta Anchieta, do Itaú

Superintendente do banco conta que ser mulher e negra para ela é ‘desafio diário’, mas comemora o crescimento das discussões sobre diversidade nas empresas; entrevista faz parte de série sobre negros em cargos de destaque.

Por Karina Trevizan e Gabriella Bridi, G1 e Globonews

Negros na Liderança: Roberta Anchieta

“Esse lugar é para mim. Se eu causei um desconfortou ou estranheza, alguém vai ter que se acostumar com aquilo, porque eu estou bem, eu estou acostumada.” É assim que Roberta Anchieta pensa quando percebe algum tipo de constrangimento de alguém ao se deparar com uma superintendente de banco mulher e negra.

Roberta entrou no Itaú Unibanco como trainee há 19 anos e hoje atua na área de administração fiduciária, liderando um time de mais de 50 pessoas. Além disso, também se dedica a ações voltadas à diversidade, como participação em fóruns de discussão sobre o tema.

Nessas atividades, ela percebe que hoje as empresas estão mais comprometidas com a questão da igualdade racial – tanto por uma preocupação com a retenção de talentos quanto com a transformação da sociedade de uma forma mais geral. Isso torna o ambiente “muito melhor” na comparação com a época de seu começo de carreira. Mesmo assim, ela conta que ainda há muitos desafios a serem enfrentados.

 “Ser mulher e negra é um desafio diário para mim, independente do ambiente de trabalho. Eu sempre falo que, se eu for com você a uma loja, você pode ter certeza que você vai ser atendida, não vou ser eu, mesmo que eu tenha ido com dinheiro para comprar”, diz ela.

No ambiente profissional, ela conta que chega a perceber algum estranhamento em situações em que ela representa a empresa. “Eu não sou exatamente o estereótipo que as pessoas esperam encontrar de um superintendente do Itaú Unibanco.”

Em entrevista ao G1 e à GloboNews, ela contou sobre sua trajetória e discutiu também a questão da diversidade racial nos cargos de liderança das grandes empresas.

Veja abaixo os principais trechos da conversa:

Como foi a trajetória entre ser aprovada como trainee no banco e se tornar superintendente?

Eu me formei em matemática aplicada computacional, e eu queria entrar por um programa de trainee. Meu pai sempre trabalhou no mercado financeiro. Eu tinha um “pai herói” e eu queria ir para o mercado financeiro também. Eu entrei como trainee, rapidamente tive uma promoção para um cargo sênior e cinco anos depois eu me tornei gestora de pessoas. Depois disso, a minha área foi aumentando o escopo, e aí houve finalmente uma avaliação de vários candidatos para uma determinada posição. Eu fui aprovada nesse comitê e cheguei nessa posição que eu estou hoje.

Como foi o incentivo da sua família para a sua preparação profissional?

O meu pai ele tinha 3 graduações, mestrado e doutorado. Então, na minha família, estudar não era uma opção. Tinha que estudar. Meu pai era um homem pobre, morava no Rio de Janeiro, perto do morro, e conseguiu mudar a realidade dele e da minha família através dos estudos. O estudo para gente sempre foi a nossa mola propulsora para qualquer salto que a gente quisesse dar diferente.

O mercado financeiro costuma ser visto como um ambiente predominantemente masculino e branco. Os cargos de liderança em grandes empresas também são ocupados majoritariamente por brancos. Como você se enxerga nesse cenário?

O que eu vejo é que eu tive uma série de privilégios que a maioria dos negros não têm. Eu não tive uma vida financeira difícil na minha infância, estudei em escolas particulares, o que me deu condições de ter acesso a uma universidade pública. Eu fui fazer intercâmbio, voltei falando em inglês fluente. Eu tive uma série de oportunidades e privilégios diferentes da maioria da população.

A gente tem uma sociedade em que a maioria é negra, entre pretos e pardos, mas é a minoria em oportunidades. Meus filhos estudam em escola particular e eles estão entre as poucas crianças negras da escola. Assim como eu era a única criança negra na escola. O ambiente onde a educação é mais privilegiada, onde você tem acesso a uma educação mais de ponta, ainda tem muito poucos negros. Essa é a sociedade, e isso acaba refletido nas organizações.

Você sente que houve melhora nos últimos anos?

Acho que houve muita melhora, sim. Acho que há abertura ao diálogo, à discussão. Eu consigo dizer para os meus filhos que na aula de história eu ficava constrangida porque eu era a única criança negra da classe, e os meus antepassados eram escravos… Porque, afinal, quando perguntavam “você tem passaporte do quê?”, eu não tinha passaporte português, italiano, porque minha família não tem essa origem. E, sim, que meus antepassados eram todos escravos, hoje eu consigo falar para os meus filhos.

Eles são pequenos, um tem 7 e o outro tem 3. Para o de 7 eu consigo falar que, sim, os antepassados dele foram escravizados, no entanto ele eram reis, rainhas, príncipes e princesas na África, e que de lá eles foram sequestrados e trazidos para um trabalho escravo no Brasil. Que ele não precisa se envergonhar dessa aula, mas que ele precisa ajudar os amiguinhos dele para que eles saibam de uma realidade.

Eu acho que hoje a gente tem muito mais abertura para essa discussão, tanto nos ambientes escolares quanto na vida privada, quanto nas organizações, que eu enquanto criança não tinha isso. Eu não consigo afirmar que é assim no Brasil inteiro, que todo mundo é aberto à discussão, mas da minha vivência, onde eu consigo proporcionar essa abertura à discussão, eu vejo diferença.

Você sente que esse espaço maior para discussão sobre o tema também se reflete nas empresas?

Nossa, gente, eu vejo muito melhor. Na época que eu entrei no banco, o tema da moda era meritocracia. Não se falava sobre diversidade, sobre diferença de oportunidades. O fato de a gente estar aqui falando sobre isso, e eu aqui, como uma representante, uma superintendente do Itaú Unibanco, olha o espaço que a gente tem para o tema. Fóruns, eu não sei quantos fóruns eu já participei esse ano, esses últimos anos, para falar sobre isso.

Dentro das empresas eu vejo um movimento, as organizações têm se empenhado demais, buscado fazer diferente. Isso se tornou urgente. Primeiro porque a nova geração é aberta à diversidade, para eles isso não mais um isso não é mais uma questão. Então, se você não conseguir ser inclusivo, você não consegue atrair talentos.

Outro motivo é que as empresas perceberam que a sociedade brasileira é composta por perfis diferentes que são consumidores. Se a gente não tiver representatividade dessa população nas empresas, a gente não consegue fazer o melhor produto para todos. É uma discussão muito diferente.

Você lidera uma equipe grande. Como você faz para incluir essa questão da diversidade dentro do seu dia a dia como gestora?

A diversidade é realmente presente no dia a dia, nas menores coisas. Tem coisas maiores, como reunir o time inteiro e trazer o time de diversidade para fazer uma palestra, trocar opiniões. E tem as coisas do próprio dia a dia, que é falar a respeito, valorizar os temas.

Na liderança, a questão da diversidade eu estimulo bastante, pela riqueza que a gente tem com vivências e experiências diferentes. É mais desafiador, porque as pessoas são menos iguais, vão ter opiniões mais diferentes e a gente vai ter mais discussão. No entanto, é muito mais rico.

Não só enquanto profissional, do que a gente pode trazer para os resultados do banco, mas rico enquanto pessoa, porque você aprende a ver de perspectivas diferentes, com olhar diferente para um tema que você está acostumado a ver só do seu.

Ser uma mulher negra já chegou a ser um desafio para você na carreira?

Olha, ser mulher e negra é um desafio diário para mim, independente do ambiente de trabalho. Eu sempre falo que se eu for com você a uma loja, você pode ter certeza que você vai ser atendida, não vou ser eu, mesmo que eu tenha ido com dinheiro para comprar. Eu morei em Alphaville a minha vida inteira, e eu já tive no elevador do prédio onde eu morava e perguntarem em que casa eu trabalhava. Tem problema você ser doméstica? Nenhum! O problema é acharem que o único emprego que a mulher negra pode ter é de empregada doméstica.

É um desafio diário. Quantas vezes eu já estive com o meu marido, que também é negro, e a gente chega num bom restaurante, ou num bom hotel, e acharem que ele é o manobrista, ou pedirem para gente comprovar que é hóspede para subir.

Meu filho já me perguntou por que justo ele tinha que ser negro. Eu perguntei para ele: “mas por que isso te incomoda?” E ele: “porque eu não quero ser o único”. É muito desafiador enquanto mãe de uma criança negra, num mundo onde as referências são brancas, onde a menina bonita da escola é branca, onde o amigo é branco, você explicar para ele que ele também é bonito, que a mulher negra também pode ser bonita.

No mercado financeiro, esse desafio já se fez presente para você?

Eu nunca me senti discriminada dentro do Itaú. Eu represento o Itaú em vários fóruns, e também nunca me senti discriminada nesses fóruns. Mas eu causo uma estranheza. Eu não sou exatamente o estereótipo que as pessoas esperam encontrar de um superintendente do Itaú Unibanco. Quando eu chego representando o banco em algum fórum, às vezes fica um desconforto, às vezes eu vejo um certo ruído de “mas cadê ela?”, fica um pouco desconfortável.

Mas eu estou acostumada a lidar com isso, eu lidei com isso a vida inteira. Quando eu era criança, era a única da escola, era um sentimento do não pertencer ali, parecia que eu não estava no lugar adequado. Hoje em dia, eu me sinto adequada exatamente onde eu estou.

Esse lugar é para mim também, por que não? Na época eu não entendia isso, mas acho que o amadurecimento tem essas vantagens. Esse lugar é para mim. Se eu causei um desconforto ou estranheza, alguém vai ter que se acostumar com aquilo, porque eu estou bem, eu estou acostumada. Mas é um desafio quando eu estou num lugar sendo a superintendente do Itaú Unibanco, nem sempre as pessoas agem naturalmente quando eu chego. Eu percebo isso.

Você começou a conversa falando de quanto o seu pai te inspirou. Como ele te vê hoje?

O meu pai faleceu quando eu tinha 6 meses de banco. Mas ele tinha uma certeza: que eu seria bem-sucedida. Ele tinha muito mais certeza do que eu. E a gente fala da necessidade e importância do mentor, e não entende o quanto isso é importante quando se é uma minoria.

Eu nunca acreditei que a minha raça ia definir o meu local de trabalho, as minhas oportunidades ou as minhas escolhas. Mas porque eu tinha alguém que era bem-sucedido, que era minha referência e que desde sempre me fez acreditar nisso.

Eu acredito nisso, que eu posso ser o que eu quiser ser. Como os meus filhos têm que acreditar nisso também.

O que você diria para as jovens negras que estão começando a carreira?

Vai ser mais difícil. O fato de ser uma mulher negra vai ser mais difícil. A sociedade define lugares para você, os lugares óbvios e os lugares onde estão mais acostumados a ver pessoas como eu. Eu diria é: não se limite por isso, acredite que você pode ser o que quiser ser e invista nisso. Você vai precisar se preparar.

Eu sei que eu tive privilégios que não é a maioria que tem. Pode ser mais difícil sem esses privilégios, mas pode ser real. Se prepare da forma que for possível, invista na sua educação. Mantenha-se informado, conectado, mostre onde você sabe buscar informação e se manter informado, e seja você mesma. Não represente um papel, porque não é sustentável representar um papel. Seja você mesma.

As suas experiências vão ser muito ricas para contribuir com a diversidade da onde você está indo trabalhar. Mostre o quanto você pode ser importante com a sua perspectiva e o seu olhar. Lute para aquilo que você almeja, por aquilo que você deseja. Isso eu sempre trouxe em mim, e isso que eu diria para pessoas que como eu estão procurando um lugar de liderança, um lugar que talvez você tenha menos referências, que pareça menos possível, mas que sim é possível.

Como as pessoas que não são negras podem ajudar nessa melhora?

Desde que eu comecei a falar mais sobre o assunto publicamente, eu tenho recebido muitas pessoas para falar sobre diversos temas. Entre as pessoas brancas que são aliadas da causa (e são muitas), algumas têm medo de comer “gafes”, de não saber que tipo de palavra pode usar. Porque elas têm medo de, ao contrário de parecerem aliadas da causa, parecerem que são contra. Isso, às vezes, impede as pessoas de tomar iniciativas mais expansivas no tema.

Para nós, negros, é mais importante que você se alie, e tudo bem se você não tem educação no tema, e que você fale que quer fazer diferente, que você quer uma sociedade diferente. É mais importante do que você ficar na sua para não mostrar que você não é educado no tema