Estado de São Paulo,  https://www.estadao.com.br/infograficos/cidades,na-fronteira-pelo-diploma-medico,1028800, 29/09/2019

A FRONTEIRA PELO DIPLOMA MÉDICO

Em busca do sonho de cursar Medicina, 65 mil brasileiros se aventuram em universidades de países vizinhos, algumas sem habilitação ou com estrutura precária de ensino

REPORTAGEM ESPECIAL: Texto: Fabiana Cambricoli / Fotos e vídeos: Werther Santana /Enviados especiais / Pedro Juan Caballero

Internacionalmente conhecida por integrar um dos principais corredores de tráfico de drogas na América do Sul, a cidade paraguaia Pedro Juan Caballero vem passando por uma importante transformação nos últimos dois anos. Não que a atividade criminosa tenha cessado no local. Longe disso. A diferença é que se somaram ao cotidiano local, marcado por seguranças armados em cada esquina e crimes bárbaros associados ao crime organizado, milhares de estudantes brasileiros vindos de diferentes regiões do Brasil em busca de um sonho: o diploma de Medicina.

Basta andar algumas horas pela cidade, que faz fronteira com Ponta Porã, no Mato Grosso do Sul, e pelos corredores das faculdades para notar que esse movimento migratório é expressivo. Na maioria das instituições de ensino, só se ouve o português. As turmas são formadas quase que totalmente por brasileiros. No entorno das universidades, é comum ver a oferta de quitutes típicos da nossa culinária, como coxinha e pastel, com preços fixados em reais, embora a moeda oficial paraguaia seja o guarani. Crescem ainda a construção de edifícios para abrigar repúblicas de estudantes que migraram em busca da formação médica.

Habitada por aproximadamente 116 mil pessoas, Pedro Juan Caballero tem nove faculdades de Medicina, nas quais estudam pelo menos 12 mil brasileiros. O número é superior, por exemplo, ao de vagas ofertadas por ano por todas as universidades públicas do Brasil (10,6 mil)

Com ‘invasão’ brasileira, cidade de Pedro Juan Caballero tem cada vez mais faculdades de Medicina e registra boom imobiliário e abertura de restaurantes brasileiros

TV ESTADÃO

A migração em massa em busca do sonho do diploma médico não é exclusiva de Pedro Juan nem do Paraguai. Universidades da Argentina e da Bolívia também vêm recebendo nos últimos anos um contingente de estudantes de fora. Números inéditos do Ministério das Relações Exteriores (MRE) obtidos pelo Estado mostram que as faculdades de Medicina desses três países sul-americanos já reúnem cerca de 65 mil brasileiros. O número equivale a mais de um terço do total de alunos de Medicina de todo o Brasil. Contando universidades públicas e privadas nacionais, são 167 mil estudantes no curso, segundo o último Censo da Educação Superior, com dados de 2018.

A situação chamou a atenção do Ministério da Educação (MEC), que, no ano passado, solicitou aos consulados localizados nesses três países informações sobre a situação dos alunos. O Itamaraty preparou um relatório para o MEC com as respostas das representações consulares. No documento, ao qual o Estado teve acesso, os cônsules detalham uma série de dificuldades vividas pelos brasileiros e relatam falhas no sistema de ensino de algumas dessas escolas médicas.

BolíviaParaguaiArgentina

Alguns dos cursos começam a funcionar sem sequer ter a habilitação do governo local. Outros até têm credenciamento, mas sofrem com estrutura precária, como falta de laboratórios e bibliotecas adequadas.

Dificuldades econômicas e com o idioma espanhol, cobranças irregulares por parte das universidades e até denúncias de abuso sexual de professores também são mencionados no relatório. “O meu relatório não foi muito positivo porque não posso esconder do governo brasileiro o que os alunos enfrentam todos os dias aqui. Os alunos sofrem muito com as cobranças. Aqui tudo é pago. O aluno pede uma revisão de prova, tem que pagar. E a maioria tem que se virar para pagar essa cota mínima. Muitos deles vivem mal, têm que vender bombom na rua para seguir adiante no curso. Abrir faculdade de medicina na fronteira virou galinha dos ovos de ouro”, relatou ao Estado o cônsul do Brasil em Pedro Juan Caballero, Vitor Hugo de Souza Irigaray.

É justamente a limitação econômica que tem levado tantos estudantes a optarem por estudar Medicina fora do País. Atraídos por mensalidades que variam de R$ 700 a R$ 2 mil e pela facilidade de ingresso no curso (quase nenhuma das instituições realiza vestibular), os brasileiros vêem na graduação no exterior a única forma de seguir a carreira médica e, assim, ter a chance de um futuro mais próspero ao regressarem ao Brasil, onde o valor mensal cobrado pelas faculdades de Medicina fica entre R$ 6 mil e R$ 10 mil.

Para além dos preços e facilidades no ingresso, o que provocou o boom de estudantes nos últimos anos foi, segundo alunos e diretores de faculdades, a possibilidade de trabalho no Brasil pelo programa Mais Médicos sem a necessidade de revalidação do diploma somada ao aumento exponencial do número de vagas de Medicina nesses países.

“É um reflexo de políticas públicas como o Mais Médicos, que começou a criar um sonho de que esses estudantes conseguiriam voltar ao Brasil e trabalhar sem revalidar o diploma. Por conta dessa demanda gigantesca, muitas faculdades ruins começaram a ser abertas nesses países”, diz Diogo Leite Sampaio, vice-presidente da Associação Médica Brasileira (AMB).

Em apenas uma das faculdades visitadas pela reportagem em Pedro Juan, o número de vagas passou de 45 em 2017, quando o câmpus foi aberto, às atuais 4.500. “Quando cheguei aqui, em 2016, eram cerca de 8 mil brasileiros estudando Medicina. Hoje, são de 12 mil a 13 mil. Só que nas faculdades mais novas, que ampliam as vagas indiscriminadamente, o ensino deixa muito a desejar”, disse o cônsul.

PRECARIEDADE
NAS FACULDADES MAIS BARATAS, SITUAÇÃO IRREGULAR E LABORATÓRIO SEM CADÁVER

Laboratório de anatomia da UPAP em Pedro Juan Caballero não possuía cadáveres para estudo em junho, quando o Estado esteve no local

Em algumas universidades, a situação precária citada pelo cônsul é notável até por leigos na área de formação médica. Em Pedro Juan Caballero, a reportagem visitou seis das nove faculdades médicas e falou com alunos de todas elas. Pelo menos uma das instituições, a Universidade Privada del Guaira (UPG), está funcionando de maneira irregular, sem a habilitação do Conselho Nacional de Educação Superior (Cones) do governo paraguaio. Mesmo em situação irregular, a universidade já acumulava, em junho, quando o Estado esteve no local, 200 alunos – mais de 90% deles brasileiros.

O câmpus da faculdade foi improvisado em um galpão de metal numa rua de terra. Embora a UPG já tenha estudantes desde outubro do ano passado e cursando até o 3.º ano do curso (transferidos de outras instituições), os laboratórios ainda estão sendo montados.

Em junho, não havia, por exemplo, laboratório para estudo de anatomia (necrotério), disciplina básica nos primeiros anos da carreira.

Apesar disso, a faculdade tem apostado no marketing para atrair mais estudantes brasileiros. Na porta da entrada do escritório da unidade, um cartaz, em português, oferece desconto aos alunos que trouxerem amigos para estudar na faculdade. A UPG é uma das mais baratas da região, com mensalidades a partir de R$ 700.

Universidades dão incentivos financeiros para alunos que trazem outros estudantes

A segunda faculdade mais econômica da cidade, embora conte com a habilitação do Cones e venha tentando modernizar sua estrutura nos últimos anos, também tem problemas em sua estrutura. Com mensalidade de cerca de R$ 700, a Universidade Politécnica e Artística do Paraguai (UPAP) até reúne laboratórios, mas no necrotério, por exemplo, não há cadáver disponível para as aulas de anatomia.

“No meu primeiro ano, fiz anatomia sem ver um corpo, sem ver músculos de verdade, só vi ossos. Aos poucos, com a chegada de mais alunos, a faculdade está melhorando. Devagar, mas melhorando”, conta Géssica Santos, de 29 anos, estudante do 3.º ano da UPAP.

“Um dos problemas que os alunos vêm aqui nos contar é que eles não têm uma um morgue (necrotério) adequado, que estão estudando anatomia por meio de atlas. Como você pode estudar Medicina por atlas?”, questiona o cônsul.

Outro problema de quase todas as faculdade visitadas é a biblioteca, geralmente restrita a quatro ou cinco prateleiras, com poucos exemplares.

No documento elaborado pelos consulados ao MEC, há relatos ainda de falhas na organização da grade curricular, com aulas vagas e matérias incompletas. “Um dos problemas é essa desorganização mesmo. Como os mesmos professores dão aula em várias faculdades, às vezes acontece de eles não conseguirem terminar a disciplina”, conta o estudante Vitor Lima, de 23 anos, natural de Goiânia e estudante do 2.º ano de uma faculdade em Pedro Juan.

DOCUMENTO DO ITAMARATY COM PROBLEMAS NAS FACULDADES RELATADOS PELOS CONSULADOS:

Mesmo algumas faculdades que hoje contam com a habilitação para funcionar abriram as portas em situação irregular. A situação é comum na região da fronteira. “A minha faculdade mesmo não estava regular quando eu entrei, e eu não sabia. Mas, ao longo dos anos, ela foi atrás dos documentos e hoje está tudo certinho”, conta Vanessa Sibely Veronica Santos da Silva, de 20 anos, que está no 4.º ano da graduação na Universidade Sudamericana. “Aqui no Paraguai acontece de a faculdade primeiro abrir as portas, colocar alunos, ver se dá certo e depois ir correr atrás da documentação”, conta.

A jovem é da cidade de Rolim de Moura, em Rondônia, e decidiu migrar para o Paraguai para estudar por causa dos altos preços das faculdades de Medicina brasileiras. “As que eu pesquisei na minha região estavam entre R$ 7 mil e R$ 10 mil. Quando eu vim para cá, a mensalidade era R$ 600. Contando aluguel aqui, mensalidade e minhas despesas, não dá nem metade do que gastaria com uma faculdade brasileira”, diz ela. “No começo, eu tinha um pouco de preconceito em estudar fora, mas a gente vem atrás de um sonho. Algumas coisas são precárias, mas acho que o empenho do aluno também faz diferença”, opina.

Dentro da cidade, com tantas instituições, nem todas acumulam os mesmos problemas. Das nove instituições de Pedro Juan, duas delas têm melhor reputação e conseguiram o selo da Agência Nacional de Avaliação e Acreditação da Educação Superior (Aneaes), espécie de certificação de qualidade dada pelo governo paraguaio. Nestas instituições, as mensalidades variam entre R$ 1.400 e R$ 1.800.

Uma delas, a Universidade del Norte (Uninorte), tem tentado modernizar sua estrutura. “No morgue, temos dez cadáveres para estudo. Temos também uma sala de simulação com um sistema de som que reproduz sons cardíacos e pulmonares para a prática dos alunos”, disse Rubén Gorgonio Medina Franco, coordenador da carreira de Medicina da Uninorte em Pedro Juan Caballero, enquanto mostrava a estrutura da faculdade ao Estado.

A Universidade Pacífico (UP), outra com certificação da Aneaes, está finalizando a construção de um moderno prédio na entrada da cidade. A expectativa é de que a faculdade tenha nesse espaço, de 15 mil metros quadrados, seu próprio hospital universitário para as práticas dos alunos. “Teremos alas para urgência e emergência, clínica médica, ginecologia, cirurgia. A primeira parte será aberta em 2020”, relata Natalia Vega, diretora de marketing da UP.

Outra que pretende construir no futuro um hospital próprio é a Universidade Central do Paraguai (UCP). A instituição é uma das mais novas da região, mas já lidera em número de alunos. Inaugurada em 2017, ela possui 4,5 mil estudantes, mais de 90% brasileiros. Para atrair todos os perfis de estudantes, a instituição implantou até uma creche para receber filhos de alunos.

CONCORRÊNCIA
COM SUPERPOPULAÇÃO DE ALUNOS, PACIENTES SÃO DISPUTADOS

Hospital Regional de Pedro Juan Caballero tem mais estudantes realizando aulas práticas do que pacientes

A busca das universidades por uma unidade hospitalar própria para as práticas dos alunos não é apenas uma comodidade, mas uma necessidade cada vez mais urgente. Isso porque, com a explosão de estudantes de Medicina em Pedro Juan Caballero, o principal hospital da região não tem suprido a demanda das universidades.

Com apenas 90 leitos e estrutura precária, o Hospital Regional de Pedro Juan Caballero recebe todos os dias centenas de alunos. Em visita à unidade, a reportagem encontrou praticamente em todos os setores, da maternidade à psiquiatria, grupos de estudantes brasileiros.

“Como são muitos alunos, a gente tem de ficar ‘brigando’ pelo paciente”, conta Vanessa Sibely Veronica Santos da Silva, de 20 anos. Ela também reclama da estrutura dos hospitais da região. “Aqui é tudo mais simples, não tem muita tecnologia”, diz.

De fato, até a estrutura física do prédio chama a atenção pela simplicidade. O teto é de telha, sem forro, e há sujeira e bolor acumulado. Não há ar-condicionado nos espaços, no máximo um ventilador de teto, e muitos dos móveis, como armários e camas, estão quebrados ou mal conservados.

No dia da visita do Estado à unidade, um bebê de 28 dias internado com bronquiolite era atendido em um leito comum, em um dos quartos com os problemas citados acima, pois não há na unidade uma estrutura de atendimento neonatal.

As limitações fazem Vanessa e outros estudantes planejarem realizar o internato (período durante o 6.º ano da graduação em que o aluno faz uma espécie de estágio em um hospital) em algum centro médico do Brasil. Algumas faculdades paraguaias conseguiram firmar um acordo com hospitais brasileiros para tornar essa prática possível.

Se, por um lado, a estrutura física atrapalha o processo de aprendizado dos estudantes, eles elogiam a abordagem humanizada que são incentivados a adotar. “A maioria das pessoas que atendemos é muito humilde. Algumas são indígenas, não falam nem espanhol. Então temos de ter muita paciência, exercer o tempo todo a humildade”, comenta Marcos Cesar Ferreira dos Santos, de 42 anos, estudante do 4.º ano.

MARKETING

PARA ATRAIR MAIS BRASILEIROS, CALL CENTER EM PORTUGUÊS, ‘INFLUENCERS’ E CURSO NOTURNO

Alunos criam perfis nas redes sociais para divulgar faculdades de Medicina e ganham remuneração pelos novos estudantes trazidos

Mesmo com o hospital da cidade sem condições de receber mais alunos, parte das faculdades de Pedro Juan Caballero e de outras cidades tem investido em estratégias de marketing pesadas voltadas ao público brasileiro.

“Criamos um call center em português e contamos com captadores, que são alunos que firmam um contrato com a faculdade para ganhar uma remuneração se trouxer mais alunos. Mas não pode ser pouco, tem de ser pelo menos uns 20, segundo o contrato”, afirma Diego Hermosilla, coordenador administrativo da UPAP em Pedro Juan Caballero, que já conta com 1,4 mil estudantes de Medicina, dos quais 96% são brasileiros.

Para conseguir bater a meta do número de alunos atraídos, os captadores usam principalmente as redes sociais, como é o caso de Andiara Barros, de 29 anos, aluna do quinto ano da UPAP que mantém nas redes o perfil Medicina Informa, no Instagram, com posts e vídeos sobre o dia a dia dos alunos do curso no Paraguai. Ela também possui site, número de whatsapp, canal no Youtube, página no Facebook e outros recursos para dar consultoria e atrair novos estudantes. “O máximo que já consegui captar por semestre foi 150 alunos, mas em épocas mais fracas são de 40 a 60”, conta ela, que, com o valor obtido com as novas matrículas, consegue arcar com os custos das mensalidades do curso.

Outra universidade que trabalha com captadores é a UCP. O próprio diretor de marketing da faculdade, Renato Michel, é aluno do 3.º ano de Medicina e também realiza ações de captação de novos estudantes.

Neste semestre, a UPAP fez outra aposta na tentativa de atrair mais brasileiros: passará a oferecer o curso noturno, e não só o de período integral, como a maioria das faculdades. “É para dar a oportunidade de estudar a quem precisa trabalhar”, justifica Hermosilla. Ele afirma que a carga horária será a mesma.

No período noturno, os alunos terão aulas de seis horas, todos os dias. No integral, explica ele, a diferença é que o aluno tem aulas pela manhã e à tarde, mas nem todos os dias e com muitas janelas entre as diferentes aulas. “No curso noturno, as aulas serão mais concentradas”, afirma.

PERFIL
BRASILEIROS JÁ GRADUADOS E ATÉ IRMÃOS MIGRAM EM BUSCA DO DIPLOMA

Classe de medicina cheia só com alunos brasileiros ou dos irmãos Luciana e Lucio Mourão

Se nas faculdades brasileiras o perfil predominante de alunos de Medicina é de jovens recém-saídos da adolescência e de classe alta, nas escolas médicas do Paraguai o grupo é mais diverso. Embora os jovens também sejam maioria por lá, há muitos casos de pessoas mais velhas, já formadas em outra área, que abandonaram emprego e casa no Brasil para cursar Medicina no exterior. A maioria toma a decisão depois de algum conhecido se aventurar e conseguir o diploma.

Tem um colega da minha cidade que se formou aqui, passou no Revalida e hoje atende em clínicas próprias, está muito bem”

  “Inicialmente meus pais me pediram para vir com ele porque ele era muito jovem e achávamos que a região era perigosa. Então eu pensei que já que eu ia morar aqui, eu poderia fazer Medicina também”, conta ela. Formada em Economia e Design de Interiores, ela tinha uma franquia em Rondonópolis. Vendeu o negócio e viajou com o irmão. “Hoje eu peguei gosto pela profissão”, conta Luciana, que está no 4º ano.

Assim como Luciana e Lucio, muitos dos estudantes no Paraguai são de Estados do centro-oeste brasileiro. Há também muitos nascidos no Norte. A justificativa se dá pelo acesso facilitado à região da fronteira e ao baixo número de vagas de Medicina nessas regiões.

Em todo o País, o número de vagas disponíveis é muito menor do que o de interessados. Segundo o último Censo da Educação Superior, com dados de 2018, as universidades brasileiras públicas e privadas ofereceram no ano passado 35,6 mil vagas para novos alunos de Medicina, mas o número de inscritos para vestibulares da carreira passou de 1 milhão, uma média de 28 candidatos por vaga. Entre as instituições de ensino públicas, a concorrência é ainda maior: 65 candidatos por vaga.

HISTÓRIAS DE BRASILEIROS QUE MIGRARAM EM BUSCA DO SONHO DE SER MÉDICO

Luciana, de 36 anos, e Lucio Mourão, de 21 anos

Naturais de Rondonópolis (MT), os dois são irmãos e estudam Medicina na mesma sala. Ela já era formada em Economia e Design de Interiores, mas, a pedido dos pais, se mudou para Ponta Porã, na fronteira com Pedro Juan, para “cuidar do irmão” e acabou fazendo Medicina também

Lilian Batista de Oliveira, de 25 anos

De família religiosa missionária, ela quer se formar em Medicina para servir em trabalhos no Oriente Médio

Gessica Santos, de 27 anos

Nascida em Minas Gerais, foi modelo por alguns anos e chegou a participar de desfiles internacionais, mas optou pela Medicina por avaliar que a carreira nas passarelas era curta

Thiago Bracks Oliveira, de 32 anos

Após fazer dois anos de cursinho no Brasil e não passar no vestibular, Thiago decidiu sair do interior de São Paulo rumo ao Paraguai para realizar o sonho de formar-se médico. Hoje está no 5.º ano da graduação

Alex de Jesus Guimarães, de 38 anos

De Belém, Alex é biomédico, mas migrou para o Paraguai para cursar Medicina. Para conseguir pagar o curso, trabalha de madrugada como técnico de enfermagem em dois hospitais do MS

ESFORÇO
COLEGAS DE CLASSE, PAI E FILHO VENDEM ESPETINHO PARA PAGAR CURSO

Marcos e o filho Gustavo migraram de Rondônia para o Paraguai

Eles vendem espetinhos à noite para arcar com os custos das mensalidades

Marcos Cesar Ferreira dos Santos sempre teve o sonho de ser médico, mas, por causa das altas mensalidades e do vestibular concorrido, nunca pensou que poderia concretizá-lo. Depois de se casar e ter dois filhos, passou por uma situação que o fez reviver sua intenção de adolescente: o sogro foi diagnosticado com câncer e ele foi um dos que acompanhou de perto a batalha contra a doença. “Foi algo muito agressivo. Eu o via daquele jeito e queria ajudar, mas não sabia o que fazer”, conta.

O sogro não resistiu à doença e morreu em 2014. Logo em seguida, o filho mais velho de Marcos, Gustavo, de 21 anos, no último ano do ensino médio, começava a pensar no vestibular. “Perguntei o que ele ia fazer da vida e ele não estava muito certo, então sugeri essa possibilidade de fazermos Medicina juntos. Seria uma oportunidade boa para ele e, ao mesmo tempo, a retomada do meu sonho”, conta Marcos. A família tinha um primo que já havia migrado para o Paraguai para fazer o curso, o que deu alguma segurança na tomada de decisão.

Em 2016, Marcos se mudou, com a família inteira, da cidade de Cacoal, em Rondônia, para Ponta Porã, na divisa com Pedro Juan Caballero para iniciar o curso de Medicina. Hoje, pai e filho estudam na mesma sala e estão no 4.º ano da faculdade.

Sem poder trabalhar em horário comercial por causa do curso integral e com duas mensalidades para pagar, Marcos resolveu abrir um churrasquinho na garagem de casa em Ponta Porã. No pequeno negócio, trabalham a mulher, na preparação dos espetinhos; Marcos, na churrasqueira; e Gustavo, no atendimento aos clientes. Até o caçula da família, de 14 anos, dá uma mão quando o movimento é grande. “A gente recebe pedidos pelo Whatsapp também. Tem noite que atendemos até 80 pessoas”, comemora Marcos.

A clientela é como se fosse da família. Quando pai e filho estão em semana de provas, eles avisam os clientes por mensagem que o serviço não vai funcionar. “Eles entendem porque sabem que, acima de tudo, somos estudantes”, diz Gustavo.

TV ESTADÃO

FORMADOS
BUSCA POR REVALIDA CRESCE 1.336%, MAS TAXA DE APROVAÇÃO É DE 19%

Sem conseguir prestar o exame Revalida, Emil Sleiman Tibcherani dá aulas na mesma faculdade em que se formou no Paraguai

A situação documental e estrutural das faculdades novatas e as incertezas quanto ao futuro do programa Mais Médicos e do processo de revalidação do diploma no Brasil trazem angústia aos brasileiros que estudam no exterior e aos já formados. Alguns não sabem se conseguirão o diploma. Mesmo os que estudam em faculdades com situação totalmente regular não têm garantia de que poderão trabalhar no Brasil.

A maioria dos estudantes ouvidos pelo Estado diz que pretende revalidar o diploma para poder trabalhar no Brasil, mas as estatísticas do MEC mostram que poucos têm conseguido. Nas sete edições do exame Revalida realizadas desde 2011, somente 19,9% dos candidatos brasileiros foram aprovados.

O número de inscritos no exame só aumenta. Em 2011, apenas 297 estudantes brasileiros tentaram revalidar o diploma por meio da prova. Em 2017, o número saltou para 4.267, um crescimento de 1.336%.

Além da dificuldade do exame, os estudantes estão agora angustiados com a falta de definição por parte do MEC quanto ao próximo Revalida. A última edição foi a de 2017, que teve sucessivos atrasos em suas duas fases, o que comprometeu as edições dos anos seguintes.

Formado em 2016, Rafael Lindolfo Carreteiro, de 26 anos, foi um dos últimos brasileiros formados no Paraguai que conseguiram se inscrever no exame e ter o diploma revalidado. Para isso, porém, passou por uma angústia de mais de dois anos. “A segunda fase do Revalida era para ser em março de 2018 e foi acontecer só em novembro. O resultado final e meu diploma saíram só em maio de 2019. Foi um desespero. Cheguei a ficar com sintomas de depressão, porque foram tantos anos de luta e sacrifício para conseguir estudar fora e vinha aquele medo de não saber se eu conseguiria trabalhar”, conta o médico.

Após a revalidação, ele emitiu seu registro no Conselho Regional de Medicina de Mato Grosso do Sul e logo começou a trabalhar em um hospital de Ponta Porã como plantonista no pronto-socorro. “No meu tempo livre, estou estudando para a prova de residência. Quero fazer cirurgia geral”, conta.

Sidnei Henrique Silva, de 28 anos, graduado também em 2016, não conseguiu passar no Revalida 2017 e, sem ter outra chance de fazer a prova até hoje, trabalha como assistente administrativo de um hospital da cidade de Rio Pardo (MS).

“O governo não está preocupado com os brasileiros formados fora. Parece que eles estão mais preocupados com os cubanos do que com a gente. Não queremos nenhum privilégio, apenas o direito de fazer a prova”, diz Silva. “Não me arrependo de ter estudado fora porque era a única forma de eu realizar meu sonho. Mas se alguém me perguntar hoje se deve ir, eu aconselho a não ir”, diz.

Formado em 2017, Emil Sleiman Tibcherani, de 30 anos, optou por trabalhar no Paraguai enquanto não consegue a revalidação do diploma no Brasil. Ele é professor de histologia e primeiros auxílios da Uninorte, mesma universidade que se formou, e atua como médico na cidade paraguaia de Rio Verde. “Para mim fica mais fácil trabalhar no Paraguai porque sou natural de Ponta Porã, então vivo perto da fronteira. Mas há colegas das regiões Norte e Nordeste que se formaram aqui, voltaram para suas cidades e estão sem trabalhar”, conta.

O cenário de incerteza fez um grupo de estudantes de Pedro Juan Caballero montar, em fevereiro deste ano, uma associação para representar os brasileiros que estão na região em busca do diploma médico. A Associação de Medicina do Exterior (Ameex) já possui 2.100 associados.

O principal objetivo é lutar pela questão do Revalida, cobrando governo e políticos”

 Lucas Barros, de 30 anos, presidente da Ameex

Questionado sobre o Revalida, o Ministério da Educação afirmou que as provas e a divulgação dos resultados do exame de 2017 sofreram atraso por causa da grande quantidade de recursos movidos por candidatos no processo. “Nesse momento, a atual gestão vem buscando sanar o lapso temporal do Revalida com medidas de ajustes para atender a demanda dos médicos formados no exterior, como uma pauta prioritária”, declarou o órgão, em nota. Quanto a uma possível data de realização do próximo exame, o ministério informou apenas que será “o mais breve possível”.

A pasta disse ainda que prorrogou a portaria que criou um grupo de trabalho para discutir mudanças no Revalida e que as propostas do grupo devem ser concluídas até o final de outubro.

Para o cônsul do Brasil em Pedro Juan Caballero, Vitor Hugo de Souza Irigaray, a migração em massa de estudantes brasileiros à região da fronteira para estudar Medicina precisa de maior atenção do governo federal. Ele defende que seja formada uma missão com representantes dos ministérios da Educação e da Saúde para verificar a realidade dos alunos e das faculdades. “Precisamos de médicos bem formados. Quem está em jogo não é o médico, é o paciente.