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O Estado de São Paulo, Domingo, 22 julho de 2007



VIDA&



Cuidar deles, mas também de si mesmo



Especialistas recomendam aos filhos pedir ajuda, dividir tarefas e contratar
serviços de cuidadores profissionais

Simone Iwasso

Dedicação, sacrifício, doação,
responsabilidade, gratidão, cansaço. A bancária aposentada Milza Duaneto
Roca, de 65 anos, se identifica com cada um desses conceitos desde que se
tornou uma cuidadora, há cerca de dez anos. Primeiro por causa do pai, que
tinha Parkinson (doença neurológica que afeta os movimentos) e ficou três
anos e meio na cama antes de morrer. Agora, seus cuidados são com a mãe, que
está com 90 anos e tem a saúde fragilizada.

 

“Quando você entende o que está
acontecendo, enxerga que eles envelheceram e você também”, diz. Experiente
como cuidadora, ela conta que a grande dificuldade e desafio é manter a vida
pessoal. “Não vou dizer que é fácil, tem horas que você fica irritada, dá
raiva, acaba a paciência. É um desgaste. Mas é uma satisfação pessoal, e
acima de tudo uma questão de respeito, de gratidão com a pessoa que criou
você”, diz. É ela quem mora com a mãe, mas conta que a irmã, que mora em uma
casa próxima, divide com ela os cuidados e as responsabilidades.

 

A divisão na casa de Milza não é o mais
comum nesses casos, diz Rosilene Alves de Souza Lima, diretora e
coordenadora do grupo de apoio psicológico da Associação Brasileira de
Alzheimer de São Paulo. Ela coordena um dos grupos de encontro de cuidadores
familiares, que uma vez por semana sentam frente a frente e desabafam,
livres de culpa pelo o que estão sentindo. “As pessoas sofrem muito
sozinhas, guardam para elas. Em grupo se sentem mais compreendidas,
esclarecem dúvidas, aliviam um peso. Também damos muita informação,
recomendações. O cuidador precisa cuidar dele também”, diz.

 

CUIDADOS

 

“É comum observar aquela filha que
começa a vir com o paciente para a consulta mais irritada, com menos
paciência, mais cansada, com olhar diferente”, conta a oncologista Nise
Yamaguchi, presidente da Associação Brasileira de Cuidados Paliativos. “Por
isso, uma das coisas que sempre recomendo ao cuidador é que mantenha sua
vida privada, não deixe de viver sua vida para viver só de quem ele está
cuidando.”

 

Outro erro bastante freqüente, segundo
a médica, é o cuidador achar que ninguém mais sabe cuidar de sua mãe, ou seu
pai, como ela. Com isso, não consegue dividir tarefas, pedir ajuda, deixar
que outros façam parte do trabalho. “Por isso, por mais que o paciente
resista, quem tem condições financeiras, deve contratar uma ajuda
profissional”, diz.

 

É o caso de Thaisa Maria Savery, que
começou cuidando da mãe sozinha, e depois de sete anos, contratou uma
cuidadora profissional para ajudar. “A gente cuida, se dedica e fica
ansiosa, quer ver melhora, mas isso não acontece. É preciso aceitar esse
fato”, diz. “Além disso, ela precisa de muita atenção, se sente muito só,
restaram poucos amigos, então vi que seria bom procurar ajuda, eu estava
começando a ficar doente”, conta.

 

Agora, ela diz que sobra tempo para
distrair a mãe, conversar, dar carinho e, ao mesmo tempo, se dedicar à sua
própria vida. “É difícil encontrar o equilíbrio, mas a gente fica buscando.”


Cursos se especializam em formar
cuidadores

De um lado,
idosos com idade avançada ou portadores de alguma doença grave. Do outro,
famílias pequenas, com configurações novas, onde todos os membros trabalham,
têm pouco tempo para eles mesmos ou moram em outras cidades.

 

Mesmo assim,
não basta abrigar em casa, conciliar o aspecto emocional. É preciso também
saber cuidar de quem precisa de cuidados. Para isso, muitos hospitais,
universidades e clínicas oferecem cursos para formação de cuidadores, tanto
profissionais como familiares, como são chamadas as pessoas que se dedicam a
cuidar de algum parente em casa.

 

“Uma das
principais coisas que ensinamos é não subestimar o idoso, não tratá-lo como
criança, respeitar a experiência de vida e os desejos dele”, explica a
psicóloga Maria Olímpia Bottura, professora da Com Viver Com, empresa que
oferece cursos na área.

 

Geralmente,
os cursos envolvem a parte prática, que inclui como dar banho, trocar a
roupa de cama com a pessoa deitada, trocar curativos, levantar da cadeira
com mais facilidade, recomendações de alimentação e preparo de alimentos.

 

Além disso,
há a parte mais teórica, que inclui discussões sobre o envolvimento, as
emoções que a relação desperta, o sentimento de frustração que muitos
cuidadores experimentam, insistência em não abandonarem a própria vida. “Há
pessoas de todo tipo de procuram, desde auxiliares de enfermagem que querem
se especializar na área, para trabalhar profissionalmente, até pessoas que,
de repente, se viram com alguém doente na família e precisa de ajuda”, diz a
psicóloga.

 

Em São Paulo,
o Hospital das Clínicas da Universidade de São Paulo (USP) é um dos locais
que oferecem cursos do tipo. No Rio, a Universidade Estadual do Rio de
Janeiro (Uerj) e a Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) têm aulas
sobre o tema. Em vários Estados, há cursos oferecidos pela Sociedade
Brasileira de Gerontologia.

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