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UOL EDUCAÇÃO – 26/03/2018 – SÃO PAULO, SP

Em aula noite afora, universitários exploram a madrugada paulistana

PAULO SALDAÑA

Uma noitada de universitários costuma envolver balada e open bar. Mas, na última semana, um grupo de estudantes da graduação na FGV-SP se embrenhou na vida noturna da capital para uma investigação. O foco? A própria vida noturna.

Uma nova disciplina do curso de administração pública da FGV de São Paulo, chamada Gestão Noturna de Cidades, foi o que levou a turma com 18 estudantes para a madrugada. Horário da aula: das 19h às 6h da manhã.

O objetivo era entender os desafios e potenciais da gestão pública de uma metrópole depois que o sol se põe e ver, ao vivo, como funciona a cidade no período em que a maioria dorme. A disciplina era optativa, mas as vagas ficaram lotadas.

`Procurar entender o que as pessoas passam quando a gente dorme, quando a gente não enxerga, é uma questão de empatia`, diz IsabelleCavalheri, 20, aluna de administração de empresas. As vagas não eram exclusivas para a administração pública.

A instituição já promove há quase dois anos uma semana de imersão em que alunos têm a oportunidade de cursar disciplinas optativas e conhecer pessoalmente a operação de empresas ou órgãos governamentais. Mas, dessa vez, a imersão foi mais ampla.

As atividades foram direcionadas, a cada aula, para aspectos diferentes da cidade noturna: a área de abastecimento (com encontros no Ceagesp e no Mercado Municipal), a assistência social (com visitas a albergue, por exemplo), o lazer e entretenimento e a mobilidade urbana.

Responsável pela disciplina, o professor Fernando Burgos conta que a ideia surgiu a partir de iniciativas de gestão noturna que já ocorrem em outras cidades como Nova York e Londres. A primeira inspiração é Amsterdã, que conta com a figura de um prefeito noturno.

`Há, pelo mundo, um movimento interessante de uma gestão pública que olha para a noite. E, como já ocorre em outras cidades, precisamos pensar na noite como parte integrante da cidade, e não um período em que todo mundo está dormindo`, diz.

A aula começa na sala e segue até o amanhecer em caminhadas pelas ruas, embarques no transporte coletivo, visitas a equipamentos públicos e entrevistas com as pessoas que vivem, trabalham ou se divertem à noite.

NA RUA

A mobilidade foi o tema escolhido quando a Folha acompanhou a turma, na noite de terça-feira e na madrugada de quarta (21). O secretário municipal de Mobilidade e Transporte, Sergio Avelleda, falou com a turma horas depois de uma forte chuva que castigou a cidade.

Ex-presidente do Metrô, Avelleda fez um panorama dos desafios de mobilidade na cidade, compartilhou com os futuros administradores públicos as agruras da função e detalhou a linha noturna de ônibus.

Criada em 2015 na gestão do ex-prefeito Fernando Haddad (PT), a rede conta com 150 linhas conectadas para atender a vida noturna da cidade. Horas depois, os alunos veriam na prática a iniciativa.

`Precisamos ter mais esse contato entre a realidade e a academia, inclusive nas linhas de pesquisas`, disse Avelleda após o fim da conversa com os alunos.

Munidos de guarda-chuvas, os alunos seguiram a pé da avenida 9 de julho, onde fica a FGV, até a rua Bela Cintra. Ali está a Central de Monitoramento da CET (Companhia de Engenharia de Tráfego), uma espécie de cérebro eletrônico do trânsito de SP.

Quase a 1h da manhã, o destino era o Pari. De táxi ou Uber, todos seguiram para a central de monitoramento da SPTrans, responsável pela gestão dos ônibus coletivos.

Enquanto, na tela, pontinhos coloridos em um mapa indicavam o posicionamento dos ônibus e rotas, os profissionais do órgão explicavam as demandas e dificuldades —como em eventuais quebras de ônibus ou em bailes funk na periferia em que a demanda aumenta muito.

Uma paradinha para um fast-food na Radial Leste e, pouco antes das 4h, os alunos embarcam no ônibus rumo à estação Corinthians-Itaquera, na zona leste. No coletivo, oportunidade para entender o outro lado das políticas públicas: os usuários.

Aluna do 2º semestre de administração pública, Gabrielly Sadovski, 18, sentou-se ao lado de um homem que voltava do trabalho em um restaurante, onde era gerente. E o papo rendeu.

`Ele me contou que, no horário que sai do emprego, precisa pegar um Uber até o local onde o ônibus noturno passa. Apesar disso, para ele o maior problema não é a estrutura do sistema, mas a segurança`, diz ela, que também é moradora de Itaquera.

Sem trânsito —um lado positivo da madrugada—, o coletivo chega rápido à Itaquera. Antes da abertura da estação de metrô, uma grande quantidade de pessoas já espera ansiosa. Nos vagões, mais uma etapa para conversas e troca de informações.

`Para alguém entrar às 5h no metrô, outros precisam chegar às 3h pratrabalhar lá. E no dia a dia essas pessoas são invisíveis`, diz Ana Beatriz Bretos, 22, no 8º semestre de administração pública.

Para eles, a experiência foi além do exercício de identificar lacunas administrativas. Condições de trabalho, falta de segurança, relações de gênero, por exemplo, surgiram entre as preocupações.

Para as colegas Nathalia Bruni e Daphne Lilli, ambas de 19, ter essa experiência foi, de certa forma, ter contato com um retrato de desigualdade. `Todo mundo com quem eu falei no Ceagesp ou no metrô vive à noite por muitos anos porque não tem opção`, diz Daphne.

`Pensei muito na esfera familiar, do impacto na vida da pessoas que precisam trabalhar à noite. Foi um exercício para pensar a administração pública como forma de melhorar a qualidade de vida das pessoas`, disse Nathalia.

`As flores do Ceagesp me lembraram muito as flores que estão na mesa da minha sala, e como as coisas são difíceis para muitas pessoas e fáceis para outras`, completa.

Os alunos tiveram que escrever um relatório integrado com um diagnóstico e soluções. O documento será encaminhado ao prefeito.

Além dessa prática, o professor Burgos ressalta a questão de experiência. `O principal ganho foi de sensibilidade`. Como diz o ditado, a noite é boa conselheira.