GAZETA DO POVO – 18/11/2019 – SÃO PAULO, SP

Países desenvolvidos têm alunos bons em matemática, diz pesquisadora

POR TIAGO CORDEIRO

Ensinar matemática é até mais importante do que alfabetizar. Nos primeiros anos de vida, a construção de conhecimento matemático ajuda na aquisição de linguagem. Na adolescência, quem é bom em matemática tem a sua disposição uma gama muito maior de carreiras profissionais para escolher. Na fase adulta, saberá gerenciar melhor suas próprias finanças. Resultado: países que investem no ensino de matemática são mais desenvolvidos e contam com cidadãos mais instruídos e com renda mais alta.

Essa é, em linhas gerais, a argumentação da professora Annemarie Fritz-Stratmann. Pesquisadora da Faculdade de Ciências Educacionais da universidade de Duisburg-Essen, na Alemanha, ela se especializou em psicologia educacional aplicada ao ensino de matemática.

Dias depois de visitar ao Brasil para participar da Conferência Nacional de Alfabetização Baseada em Evidências (Conabe), realizada pelo Ministério da Educação no fim de outubro, a professora, que pesquisa o tema há quatro décadas, concedeu a seguinte entrevista por email.

Em geral, as escolas aplicam as informações fornecidas pela ciência sobre os mecanismos e processos neurocognitivos que sustentam o aprendizado de matemática?

Essa é uma questão muito importante que eu, Vitor Haase, do Brasil, e Pekka Räsänen, da Finlândia, perguntamos a pesquisadores ao redor do mundo. Um capítulo inteiro do nosso livro International Handbook of Mathematical Learning Difficulties busca responder a essa dúvida. Concluímos que no mundo inteiro existe uma distância razoável entre o conhecimento científico e sua implementação prática. Os resultados encontrados em laboratório percorrem um longo e tortuoso caminho até chegar à sala de aula. O que varia de país para país é o tamanho dessa distância.

Quase todos os países dão atenção prioritária no aprendizado da linguagem, o contato com as letras, as palavras e os fonemas, e consideram o desempenho na alfabetização como um critério essencial para prever o futuro desempenho do aluno. Mas a análise revela, contudo, que aprender matemática logo nos primeiros anos de vida é um fator ainda mais decisivo para o desempenho futuro dos alunos.

Por que os alunos de alguns países se saem muito melhor em matemática?

As competências matemáticas estão diretamente ligadas ao desenvolvimento econômico de cada nação. Populações que se saem melhor em matemática levam a um maior crescimento econômico. Do ponto de vista do indivíduo, a falta de conhecimento de matemática conduz à pobreza: em geral quem não domina esses conteúdos ganha menos, fica desempregado com maior frequência e tem menos chances de trabalhar nas áreas de atuação de sua escolha.

Por isso é que fornecer educação matemática de qualidade é estratégico para a qualidade de vida da população e também para o desenvolvimento do país como um todo.

O treinamento dos professores é um dos ingredientes mais importantes para alcançar uma educação efetiva para a matemática. Os profissionais de ensino devem adquirir, em sua formação, conhecimentos específicos de matemática, baseados nas teorias mais modernas de neuropsicologia e psicologia cognitiva, e também conhecimentos sobre as técnicas pedagógicas mais eficazes voltadas, especificamente, ao ensino dessa disciplina. Quanto mais profundo e elaborado o conhecimento, mais apropriado e compreensível o ensino.

Por outro lado, o currículo deve ser avaliado em termos de estrutura e composição. É importante garantir que ele suporte o acúmulo sistemático de conhecimento e permita que os estudantes pratiquem o suficiente a fim de desenvolver seu raciocínio matemático, passo a passo, de forma que faça sentido para eles. A construção passo após passo é importante porque a falta de conceitos básicos impede o avanço do aprendizado.

Com que idade os alunos desenvolvem conceitos matemáticos complexos?

Normalmente, o conceito de um número e a linguagem aplicada a ele caminham junto no início da vida. Aliás, um dos passos mais difíceis do aprendizado de matemática é conciliar a linguagem (os nomes dos números, por assim dizer) e o raciocínio lógico que está por trás de uma operação numérica. Por volta dos dois anos, as crianças começam a dizer os nomes de números para se referir a magnitude.

Nessa época, adoram recitar os números em sequência e contar tudo o que veem. Mas, neste estágio, ainda estão apenas listando nomes. Para realmente entender o que um número significa, em termos quantitativos, a criança ainda precisa de mais dois anos de aprendizado. Devagar, ela começa a conectar os nomes às magnitudes que eles representam.

Como a tecnologia pode ser aplicada ao aprendizado da matemática?

A emergência de materiais digitais, disponíveis online e agregando conteúdo em áudio e vídeo, muitas vezes interativo, abriu uma vasta gama de novos métodos para lecionar, treinar e instruir. Para utilizar essas novas ferramentas, os professores precisam adaptar seus antigos conhecimentos, de forma a conciliar com os recursos tecnológicos e continuar construindo um processo de aprendizado que faça sentido para os alunos.

A tecnologia também permite avaliar a competência matemática dos alunos de forma mais precisa, o que permite reconhecer as dificuldades num estágio inicial do processo educacional. O uso de simulações em vídeo é um ótimo método para fazer essa avaliação. Funciona assim: os alunos são filmados enquanto resolvem problemas matemáticos, e os professores avaliam o desempenho, o processo seguido durante a elaboração da resposta e os erros de percurso até chegar ao resultado final, seja ele correto ou incorreto. É uma forma de ajustar o processo didático do professor, que, ao comparar diferentes vídeos, consegue identificar que etapas de sua aula os alunos não apreenderam.

O que é a ansiedade matemática? Como lidar com ela?

É a reação de estresse que interfere em situações envolvendo a matemática. Pode se manifestar na hora de calcular o troco no supermercado, mas é especialmente comum nas escolas de todo o mundo, onde a ansiedade matemática é um fenômeno disseminado. Muitos pesquisadores têm se dedicado a encontrar formas de lidar com o problema, que está diretamente relacionado ao desempenho dos alunos, mesmo os mais inteligentes. As pesquisas ainda buscam soluções para a questão, que começou a ser debatida muito recentemente.