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Estado de São Paulo, Atualizado: 13/07/2013
02:04
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Meio
médico, meio escravo

Incapaz de convencer jovens
médicos a trabalhar no SUS, o governo
federal resolveu criar um novo profissional,…

Fernando
Reinach

Incapaz de
convencer jovens médicos a trabalhar no SUS, o governo
federal resolveu criar
um novo profissional, o meio médico meio escravo. Esse
profissional, inspirado
nos mitológicos centauros e na famosa meia
muçarela meia calabresa, virá em
duas versões, nacional e importado. É a pizza que
vai ser servida no SUS.

Durante
anos dei aula para os calouros da Faculdade de Medicina da USP. Eram
jovens que
haviam escolhido uma profissão em que a derrota é
certa. Ninguém consegue
escapar da morte. Ingenuamente arrogantes e prepotentes, algo
compreensível em
quem sempre foi o melhor aluno, sobreviveu dois anos de cursinho, e se
classificou entre os 300 melhores no vestibular mais competitivo,
acreditavam
que se tornando médicos curariam doenças letais,
mitigariam o sofrimento,
descobririam novos remédios e, lutando contra o
único inimigo realmente
invencível, ajudariam a humanidade. Durante os dois
primeiros anos de curso, a
maior dificuldade era mantê-los longe do hospital. Bastava
surgir a
oportunidade de participar em alguma atividade que envolvesse pacientes
e a
frequência nas minhas aulas de bioquímica
minguava. Isso não era um problema,
aqueles alunos aprendiam sozinhos.

Mas nos
anos seguintes a realidade desabava sobre a cabeça dos
alunos. O primeiro
cadáver dissecado, cenas de sofrimento, a primeira morte
observada de perto, a
primeira parada cardíaca que não consegui
reverter, um erro que só não foi
fatal porque um supervisor estava atento. A primeira noite no
pronto-socorro,
uma lâmpada quebrada dentro da vagina de uma paciente. Na
década de 80 ano, um
aluno se suicidava todo ano. Hoje existe na Medicina da USP um
serviço dedicado
exclusivamente a ajudar os alunos a enfrentar a impotência e
o convívio com o
sofrimento e a morte.

Mas a
realização do sonho também aparece,
sofrimentos são amenizados, situações
desesperadoras são revertidas. Aos poucos, os alunos
percebem que a medicina
moderna é poderosa, mas complexa. Com conhecimento
teórico, muita prática e um
trabalho coordenado de toda a equipe, o sonho pode se tornar realidade.

A
arrogância do calouro que acreditava que se bastava, que o
sucesso dependia
somente de sua dedicação e esforço,
desaparece. Ele aprende que o bom médico,
sem recursos diagnósticos e equipamentos, sem leitos
hospitalares, sem
remédios, sem enfermeiros, sem fisioterapeutas, sem
nutricionistas e sem um
processo de gestão sofisticado e ágil, vai
praticar uma medicina medíocre.

Doenças
que poderiam ser curadas pioram, doenças
controláveis progridem rapidamente e
mortes que poderiam ser evitadas ocorrem frequentemente. Aprendem que o
médico
é somente uma peça importante do sistema de
saúde. Esse aprendizado não é
teórico, os alunos trabalham no caos semiorganizado do
Hospital das Clínicas,
fazem estágios em outros hospitais públicos e em
centros de saúde. Ao terminar
o curso, eles sabem que praticar a medicina sem suporte é
tão difícil quanto
jogar tênis sem raquete.

Para os
recém-formados, a frustração mais
difícil de tolerar é não praticar a
medicina
que aprenderam por falta de infraestrutura. Muitos, incapazes de
suportar a
impotência diante de pacientes que voltam piores por falta de
remédio,
frustrados diante de pacientes que não podem ser tratados
por falta de
resultados de diagnósticos, ou desesperados com a
visão de filas infinitas,
abandonam a prática médica. Outros, apesar de
despreparados para tarefas
administrativas, se tornam gestores na esperança de melhorar
a infraestrutura
pública. Vários preferem trabalhar em hospitais
de elite, onde a infraestrutura
é quase perfeita. Alguns desenvolvem uma casca mais grossa e
aceitam fazer o
que é possível, tolerando a
frustração. E é claro que
há os que se aproveitam
da bagunça para fingir que trabalham e receber o
salário no final do mês.

Não é de
se espantar que nos últimos anos os serviços
públicos não tenham conseguido
atrair médicos para trabalhar nos postos de saúde
e hospitais onde as condições
de trabalho são piores. Os salários foram
aumentados, mas a maioria dos médicos
recusa um emprego fixo de R$ 10 mil em um local sem infraestrutura. O
experimento não foi levado adiante, mas seria interessante
saber o salário
necessário para convencer os melhores alunos de nossas
melhores universidades a
venderem seus sonhos.

Melhorar
as condições de trabalho é a
solução óbvia. Mas isso exige que o
governo assuma
a culpa e deixe de empurrar o problema com a barriga. Mais
fácil é culpar os
jovens médicos, pouco patrióticos, que
só pensam em dinheiro e se recusam a
trabalhar em um sistema público de saúde bem
organizado, eficiente, sem filas e
tão bem avaliado pela população.

Diálogo no
Planalto: “A solução é
forçar os médicos a trabalhar onde queremos. Mas
como é possível forçar
alguém que possui um CRM e portanto o direito de
praticar sua profissão em qualquer lugar do País?
Fácil, basta criar um CRM
provisório, que só permite ao
recém-formado clinicar no local designado.
Cumprida a missão, liberamos o CRM definitivo. Mas isso
não é uma forma de
coerção? Não se preocupe, o trabalho
cívico fará parte formal do treinamento,
basta aumentar o curso em dois anos. Boa ideia, quem escreve a medida
provisória?”

No dia
seguinte: “Um aluno com um CRM provisório é um
médico de verdade? Pode
tratar pacientes sem supervisão? Claro que sim,
senão como ele vai trabalhar no
local designado? Mas então ele não é
um aluno, é um médico escravizado.
Não,
escravidão é inconstitucional, ele tem de ser
também aluno, vai lá, escreve a
MP, depois resolvemos esse detalhe. Sim, chefe, mas que tal incluirmos
os
médicos importados na MP? Basta dar a eles uma
licença provisória para praticar
a medicina no País, uma espécie de CRM
provisório atrelado ao local de
trabalho. Brilhante, vai, escreve a MP que o Diário Oficial
fecha daqui a duas
horas.”

No
terceiro dia eles descansaram. Haviam criado o meio médico,
meio escravo. A
pizza que esperam servir aos manifestantes. Se tudo der certo, agora
vamos
protestar na frente das Faculdades de Medicina e do CRM, os verdadeiros
culpados pela crise na saúde pública.


Categorias: Medicina

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