Folha
de São Paulo, Cotidiano, DOmingo, 13 DE JULHO DE 2013

FOCO

Escolas
de medicina já estão inseridas no SUS, dizem
alunos

SABINE RIGHETTIDE
SÃO PAULO

Mesmo sem terem sido
afetados pela mudança dos cursos de medicina, os atuais
alunos debatem o
assunto em redes sociais e faculdades.

Os cursos terão dois
anos
de trabalho compulsório no SUS a partir de 2015, depois dos
atuais seis anos de
curso.

“Sou totalmente contra
essa mudança”, argumenta Daniele Battaglini, aluna do
4º ano da Furb
(Universidade Regional de Blumenau), no interior de SC, e presidente do
centro
acadêmico.

“Já temos um
terço do
curso no regime de internato, com aulas práticas, em que
atendemos pacientes do
SUS com supervisão de professores. É o
treinamento final para ser médico”,
afirma.

Hoje, os estudantes
têm
quatro anos de disciplina e mais dois anos de “internato” nos
hospitais-escola, antes de receberem o diploma.

Depois, ainda seguem para a
residência –as especializações, que
podem durar até quatro anos, feitas em
hospitais públicos ou privados.

Para Daniele, a
obrigação
de os alunos trabalharem para o governo por dois anos “fere o
princípio de
liberdade da Constituição”.

FAMÍLIA ABASTADA

O argumento do governo
é
que os dois anos humanizariam a saúde pública,
já que colocariam todos os
estudantes em contato com o SUS.

Conforme levantamento feito
pela Folha,
os dois anos
de internato nos hospitais-escola são, para a maioria dos
estudantes de
medicina, o único contato com o SUS.

A maioria deles vem de
famílias abastadas. Nas universidades estaduais paulistas,
por exemplo, a
participação em medicina de quem veio de escola
pública é bem inferior à
média
geral das instituições.

Na Unesp, apenas 2%
cursaram colégio público, contra 40% no geral
(veja quadro).

Na USP, 20% deles têm
renda
familiar superior a R$ 20 mil. Não há negros na
turma ingressante em 2013.

“Os estudantes de
medicina já estão inseridos no SUS”, avalia
Juliana Campanha, 29, do 5º
ano na Unesp em Botucatu, interior de SP. “Eu atendo pelo SUS no
hospital-escola
da Unesp desde o 3º ano.”

Roger Santana de
Araújo,
19, do 2º ano de medicina da USP, considera que os alunos
já contribuem para a
sociedade via hospitais-escola.

“Só a medicina
atende
a sociedade de graça. Isso não acontece no curso
de direito, por exemplo. Mas
na medicina já atendemos pelo SUS nos hospitais-escola”, diz.

Para ele, o problema do SUS
é “mais fundo”, como falta de recursos e falta de
investimentos.
“Se o SUS tivesse boas condições, os
médicos iriam para o sistema público
por vontade própria, como acontece no Reino Unido”, diz.

Além disso, lembra
Roger, o
sistema não é composto só por
médicos. “O SUS também precisa de
enfermeiros, fisioterapeutas e afins.”


Categorias: Medicina

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