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Revista Época – 25/08/2013 – Rio de Janeiro, RJ

Dr. Smartphone

CRISTIANE SEGATTO

O passageiro em apuros num
voo transcontinental não poderia ter tido mais sorte. Quando começou a sentir
uma intensa pressão no peito, a aeromoça perguntou se havia um médico a bordo.
Sim, havia. Não só um dos mais respeitados cardiologistas dos Estados Unidos,
mas um dos maiores entusiastas das novas tecnologias digitais, que permitem
monitorar a saúde a qualquer hora e em qualquer lugar. Eric Topol, diretor do
Scripps Translational Science Institute, sacou o smartphone do bolso e fez um
diagnóstico com precisão incomum a 10.000 metros de altitude. O celular de Topol
é equipado com um dispositivo que funciona como um monitor cardíaco portátil.
Dois pequenos eletrodos fixados na parte traseira do celular geram um
eletrocardiograma. Basta que o paciente coloque os dedos sobre eles. O
aplicativo lê o resultado e o envia ao médico. No caso do avião, o especialista
estava ali mesmo. Topol tinha a evidência objetiva, na tela do celular, de que o
homem sofria um infarto. Convenceu o piloto a fazer um pouso de emergência, e o
passageiro foi salvo.

Esse é só um dos novos
recursos que estão transformando o jeito de fazer medicina e de cuidar da
própria saúde e do bem-estar. Com aplicativos de smartphones, gadgets e sites,
as pessoas registram quantos passos deram a cada dia, calculam as calorias e o
valor nutricional de cada refeição, monitoram a quantidade e a qualidade das
horas de sono, avaliam o grau de estresse e as flutuações de humor. É a segunda
onda do Dr. Google, o fenômeno que abalou o ancestral jogo de poder em que o
médico é o detentor do saber incontestável – e o paciente é o iletrado
obediente. O acesso fácil e rápido a informações médicas fez nascer um paciente
contestador, mais capaz de tomar decisões conscientes. Nesse segundo fenômeno,
que poderíamos chamar de Dr. Smartphone, qualquer um com acesso a ferramentas
móveis se torna capaz de monitorar tudo o que acontece em seu organismo. Sem
sair de casa, é possível monitorar a quantidade de açúcar no sangue, a pressão
arterial e até se submeter a um eletrocardiograma. O novo paciente pode colocar
seus dados de saúde à disposição de uma rede de pessoas com interesses comuns e
até organizar, por conta própria, estudos clínicos de novas drogas. É uma
sensação de controle sem precedentes. Para tirar o máximo proveito da leitura
dos sinais do corpo, é preciso estabelecer a velha relação de confiança com o
médico.

Nos Estados Unidos, o avanço
do movimento dos selftrackers (autorrastreadores) sugere uma mudança de
comportamento que pode render mais saúde para o indivíduo e menos custos para a
sociedade. Sete em cada dez americanos afirmam monitorar algum aspecto da
própria saúde ou de alguém próximo, segundo um estudo do Pew Research Center. A
maioria usa os recursos para manter a boa forma. Cerca de um terço acompanha a
pressão arterial, a quantidade de açúcar no sangue, as dores de cabeça e os
padrões de sono. Segundo 46% dos entrevistados, as novas tecnologias
transformaram o conceito que eles tinham sobre vida saudável.

Uma das grandes vantagens dos
novos recursos é a interatividade. Ela ajuda o indivíduo a se manter firme em
seus propósitos – seja perder alguns quilinhos, viver com mais qualidade ou
persistir num difícil tratamento de saúde. Ao receber incentivos, ele entra num
ciclo virtuoso e se esforça ainda mais. Foi assim com a redatora publicitária
Vanessa Musskopf, de 29 anos. Expor publicamente seus avanços e fracassos na
busca de um novo corpo a ajudou a atingir objetivos. Há um ano, ela criou o blog
Santa Dieta, com a intenção de demonstrar que é possível emagrecer sem cair no
conto dos regimes milagrosos. Desde que saiu de Porto Alegre para trabalhar em
São Paulo numa agência de publicidade, Vanessa engordou 15 quilos. Com
orientação médica, começou a praticar corrida e musculação. Em vez de contar
calorias, passou a observar o valor nutricional e a combinação dos alimentos.
Conquistou uma nova s forma (1,75 metro e 60 quilos) graças a acompanhamento
profissional, compartilhamento de experiências e gadgets espertos. Seu aparelho
preferido é uma balança portátil que aponta variações de peso, massa muscular e
acúmulo de líquidos. O resultado é transformado num código. Para armazenar as
informações sobre sua evolução física, Vanessa fotografa o código com o celular.
O aplicativo interpreta os dados e os apresenta em forma de gráficos e tabelas.
Outro aplicativo envia mensagens várias vezes ao dia para lembrá-la de beber
água. “Monitorar o que acontece em meu corpo melhorou minha saúde”, afirma. “Mas
isso precisa ser feito sem exagero e sem ansiedade.”

A velocidade com que os
pacientes abraçam a tecnologia não é acompanhada pelos médicos. “De todos os
profissionais deste planeta, talvez nenhum seja tão resistente a mudanças quanto
o médico”, disse Topol a ÉPOCA. Segundo ele, a inflexibilidade inata dos colegas
sugere que eles enfrentarão tempos difíceis. “Não há mais espaço para a medicina
praticada de forma paternalista”, afirma. No livro The creative destruction of
medicine – How the digital revolution will create better healthcare (A
destruição criativa da medicina – Como a revolução digital criará uma melhor
assistência à saúde), ainda sem editora no Brasil, Topol afirma que os
consumidores devem liderar a democratização da medicina. Segundo ele, aparelhos
baratos e aplicativos transformarão a tarefa de fazer diagnósticos. No século
XX, o economista austríaco Joseph Schumpeter popularizou o termo “destruição
criadora” para falar das transformações que se seguem a inovações radicais.
Topol argumenta que a destruição criadora da medicina está pronta para decolar
porque, pela primeira vez na história, é possível digitalizar pessoas. Tudo
agora é digitalizável e transferível. Os genes, os batimentos cardíacos, a
pressão arterial, a respiração, a temperatura do corpo, a concentração de
oxigênio no sangue, a glicemia, as ondas cerebrais, a atividade física, o humor
– tudo o que nos faz ficar doentes.

A tecnologia não substitui o
acompanhamento médico, mas pode ajudar a aliviar a falta crônica de
profissionais e recursos em localidades remotas. Não é uma solução capaz de
resolver todas as carências brasileiras, mas é um recurso que deveria estar no
horizonte de quem traça as políticas de saúde pública. “Os novos recursos móveis
são uma solução para ampliar o acesso à saúde e reduzir os custos, inclusive em
países como o Brasil”, diz Topol. “Onde houver sinal de internet e telefonia
móvel, poderemos ter pacientes emancipados e no comando de seu tratamento.”

Com a ajuda da telemedicina,
um paciente do interior do Maranhão poderia ser acompanhado num centro de
excelência de outra região sem sair de sua cidade. É um recurso capaz de
desafogar as unidades básicas de saúde, os prontos-socorros e de reduzir o
problema de falta de especialistas em muitos municípios. Apesar disso, a
tecnologia ainda não foi regulamentada no Brasil. Segundo as regras atuais do
Conselho Federal de Medicina, o médico só pode atuar remotamente se estiver
inscrito no conselho regional do Estado onde mora o paciente. Para atender
doentes de três Estados, ele deve estar inscrito nos três. É o tipo de
anacronismo que não combina com a era digital.

Enquanto isso, as soluções
propostas pelas empresas são cada vez mais avançadas. No início do ano, a
HealthSpot lançou uma curiosa estação de atendimento médico numa feira de
tecnologia em Las Vegas. Com a ajuda de um técnico de enfermagem, o paciente
entra num quiosque e conversa, por teleconferência, com um médico que trabalha
num centro de excelência, a quilômetros de distância. Pressão arterial,
temperatura e peso do paciente são medidos. O quiosque contém equipamentos para
exame do coração, dos pulmões, da pele, da garganta, dos ouvidos, dos olhos. O
médico prescreve medicamentos e encaminha o paciente a um hospital apenas quando
necessário. Segundo os cálculos da HealthSpot, um paciente sem plano de saúde
pagaria cerca de US$ 70 por consulta – menos que o valor cobrado pelas clínicas
americanas.

Tanta tecnologia e tanto
monitoramento têm o potencial de provocar dois importantes efeitos adversos:
ansiedade e hipocondria. Para tirar proveito dos novos recursos sem cair no
sofrimento emocional que rouba saúde, é preciso estabelecer uma parceria
proveitosa com o médico. “A ansiedade provocada pelo excesso de informação é uma
característica da sociedade atual. Vivemos mergulhados nela”, diz o oncologista
Octavio Clark, dono de uma empresa especializada em avaliar evidências
científicas sobre os riscos e benefícios de novos tratamentos para governos e
planos de saúde no Brasil. “No caso da saúde, ela é causada por modismos como
dietas e curas milagrosas, não pelos aplicativos.” Os aplicativos são úteis para
avaliar o desempenho do tratamento. Um diabético pode registrar a dose de
insulina que toma e as medições de seus níveis de glicemia. Na próxima consulta,
o médico terá um parâmetro objetivo para avaliar a eficácia do tratamento. Mais
da metade dos médicos nos Estados Unidos usa sistemas eletrônicos para armazenar
dados de saúde dos pacientes, segundo o governo americano.

A dermatologista Cristiane
Benvenuto tem duas boas razões para acreditar nos benefícios da mudança de
comportamento liderada pelo acesso às novas tecnologias. A primeira razão é
profissional. Ela usa aplicativos para conferir a lista de medicamentos
genéricos, calcular dosagens de remédios, consultar o código internacional de
doenças (CID), acessar estudos e relatos de casos médicos. A segunda razão é
pessoal. Lorenzo, de 3 anos, seu filho caçula, teve um câncer na retina aos 7
meses e corria o risco de perder o globo ocular. Ela vasculhou a internet até
descobrir um tratamento experimental. Escreveu ao líder do estudo clínico nos
Estados Unidos. Duas semanas depois, o menino participava da pesquisa no
Hospital Memorial Sloan Kettering, em Nova York. Hoje, Lorenzo não tem sinal da
doença. Cristiane criou um blog para compartilhar a experiência. “Antes de ser
médica, sou mãe”, diz ela. “Quando meu filho adoeceu, percebi como é difícil
encontrar informação com credibilidade na internet.” O marido dela, o
neurologista Daniel Branco, decidiu criar um site para ajudar a população a se
mover em segurança no ambiente digital. No Medicinia
(www.medicinia.com.br),médicos cadastrados respondem às perguntas dos leitores.
Não podem oferecer consultas pela internet, mas tiram dúvidas sobre doenças e
administração de medicamentos. O serviço é gratuito, mas o acesso a conteúdos
especiais é cobrado. O paciente pode usar o sistema para se comunicar com seu
médico particular. É possível mandar fotos, exames ou pedir uma segunda opinião.

Centenas de aplicativos
disputam a atenção e o dinheiro dos consumidores. Conversar com um médico de
confiança antes de baixá-los é a melhor forma de evitar os produtos sem
qualidade e a insegurança provocada pela leitura dos resultados. Muitos
aplicativos são confusos, dão margem a erros de interpretação ou não passam de
entretenimento.

Responsável por avaliar novas
tecnologias, David Levin, do departamento de informação médica da Cleveland
Clinic, frequentemente conclui que muitos não passam de crappy apps (em
português, algo como aplicativos porcarias). “Muitos são CrApps”, diz. Alguns
produtos para smartphone prometem avaliar sinais da pele. O paciente tira uma
foto de uma pinta e o aplicativo informa se é preciso procurar um médico. Os
erros na detecção de melanoma (um dos tipos de câncer de pele) foram tema de um
estudo publicado em abril no Journal of the American Medical Association (Jama).
Os pesquisadores concluíram que três dos quatro aplicativos analisados
classificaram incorretamente 30% ou mais dos melanomas identificados por um
especialista. Há outros problemas. Quem garante a qualidade dos medidores de
glicemia disponíveis na internet? O que pode acontecer com um diabético que
tomar insulina demais (ou de menos), por confiar na informação recebida pelo
celular? Muitos desses serviços não são avaliados nos Estados Unidos pela
agência americana que controla produtos de saúde (FDA), nem no Brasil pela
Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa). São inovações que prosperam
num limbo jurídico.

Chegará a época em que nossas
queixas serão decifradas e tratadas por uma máquina? Um robô criado pela IBM já
é capaz de fazer diagnósticos. Entende a linguagem humana, consulta uma
enormidade de publicações, processa informação com rapidez e levanta hipóteses.
As máquinas podem facilitar o trabalho dos médicos, mas é improvável que cheguem
a substituí-los. Exercer a medicina é mais que diagnosticar doenças. É
confortar, entender, ter empatia. “Aplicativos não transformam um indivíduo num
médico melhor”, diz Paul C. Tang, chefe de inovação e tecnologia da Palo Alto
Medical Foundation. “Precisamos aprender a usar a tecnologia para sermos
profissionais mais humanos.”

Segundo o professor Antonio
Carlos Lopes, presidente da Sociedade Brasileira de Clínica Médica, nada
substitui a linha de raciocínio, o contato olho no olho, a conversa, a ausculta
cuidadosa. “A pior coisa da medicina é tecnologia de ponta nas mãos de médico
ruim.” A situação pode ser ainda pior num cenário de tecnologia ruim, nenhum
médico e paciente desorientado. Para estabelecer um círculo virtuoso no ambiente
virtual, é preciso zelar pelos três componentes da equação. “Se houver uma boa
mediação, controlamos a ansiedade dos doentes”, diz José Antonio Maluf de
Carvalho, gerente de pacientes em condições crônicas do Hospital Albert
Einstein. “Eles precisam perceber que não estão sozinhos.” Com o novo paciente,
surge um novo médico. De detentor absoluto do conhecimento, passa a ser o guia
responsável por aconselhar e ajudar o paciente a interpretar dados e
informações. Todos ganham quando o doutor vira tutor.

Categorias: Medicina

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