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O Estado de São Paulo, 31 de agosto de 2013 | 16h 32

Uma ira epidêmica

Vaia
corporativista ao dr. Juan Duvergel Delgado expôs intolerâncias que envolvem o
Mais Médicos

Luís Fernando Tófoli


Perplexo. Médico cubano respondeu à hostilidade : “Seremos escravos da saúde”

Juan Merquiades Duvergel Delgado formou-se médico há
quase duas décadas, e há 12 anos participa de missões de atenção primária.
Congruente com o trabalho que prestou no Haiti, país com o pior IDH (Índice de
Desenvolvimento Humano) das Américas, vai trabalhar em um Estado com um IDH que
está entre os piores do Brasil: o Maranhão. 

 

Na terça-feira, na saída da recepção aos médicos
estrangeiros que estão realizando formação complementar em Fortaleza, o dr. Juan
e seus colegas cubanos foram vaiados em um protesto do Sindicato dos Médicos do
Ceará. Além de me encher de uma grande vergonha e da necessidade de pedir
desculpas aos doutores estrangeiros em nome de todos os médicos brasileiros que
não concordam com o lamentável ocorrido, a cena da qual eles foram vítimas me
suscitou algumas reflexões.

 

Entre elas está uma sensação de incômodo com o
distanciamento que o Ministério da Saúde tem mantido de tradicionais atores
sociais nas tomadas de decisão – algo que vem se repetindo em vários campos, da
política de drogas ao enfrentamento da aids, e parece ser um mal do qual padece
a administração federal como um todo. 

 

Também vejo com reservas o drible que o Mais Médicos
dá no Revalida, um programa de revalidação de diplomas de medicina que está em
processo de reformulação, com foco na definição de parâmetros mínimos de
qualidade para que um estrangeiro seja médico no país – sem exigir nem de mais,
nem de menos. 

 

Também é importante compreender a constatação óbvia –
escotomizada tanto por entidades médicas quanto pelo governo – de que mais saúde
não se faz somente com mais médicos, mas também com mais profissionais de todas
as especialidades e com o protagonismo dos movimentos sociais. 

 

Além disso, o recurso da tecnologia – que não deve
substituir o cuidado humano, mas é realmente necessário – precisa de
financiamento adequado. Cabe perguntar, portanto, se é correto o montante
financeiro federal destinado à saúde suplementar por meio de renúncia fiscal no
imposto de renda e do pagamento de planos de saúde por empresas públicas. Essas
são cifras que, se encaminhadas ao Ministério da Saúde diretamente, aumentariam
consideravelmente seu orçamento.

 

O Brasil encontra-se em uma encruzilhada sanitária, e
precisa decidir qual modelo deseja seguir. Exemplificando o dilema com as duas
maiores rendas per capita das Américas, precisamos saber quanto queremos ser
como o Canadá, que tem um sistema nacional de saúde que cuida praticamente de
todos os cidadãos, tendo a porta de entrada obrigatória na atenção primária e
excelentes índices sanitários; e quanto queremos ser como os Estados Unidos, que
detêm o recorde mundial de gastos em saúde, um sistema de saúde público nanico e
índices que estão entre os piores entre os países de alta renda. A resposta jaz,
em grande medida, nos objetos de desejo de grupos sociais que brotam de um
contexto no qual o crescimento do consumo é extremamente valorizado pelo poder
público.

 

É com tristeza que eu, um professor de medicina,
testemunho o alastramento de uma ira epidêmica que impede as corporações médicas
de perceberem que suas manifestações alargam cada vez mais o hiato existente
entre como os médicos brasileiros se veem e como a sociedade os tem visto.
Supostas denúncias e funestas consequências são lançadas e esse é um momento em
que é difícil distinguir o fato do factoide. Assim, é preciso agora ter a
serenidade para avaliar cuidadosa e rigorosamente o programa, tanto em suas
potenciais virtudes quanto em seus possíveis riscos. Esse é um dos papéis de uma
imprensa responsável e de uma universidade atenta.

 

Diz-se que o cenário em que os cubanos vão atuar é
catastrófico, sem recurso médico decente. Claro que, apesar de evidentes
melhoras nas últimas décadas nos rincões do Brasil, o SUS ainda é extremamente
carente de insumos e equipamentos. É, no entanto, improvável que esse cenário
seja pior que o do Haiti após o terremoto de 2010. 

 

Também se coloca em dúvida a capacidade de
comunicação dos cubanos, esquecendo do preconceito jocoso com que muitos médicos
brasileiros se referem a migrantes de regiões remotas pelos vocábulos dialetais
que usam. Com escuta atenta e empatia, as barreiras entre o espanhol caribenho e
os diversos falares do Brasil poderão certamente ser ultrapassadas.

 

Tenho a sincera esperança de que os recém-chegados
possam agir como os médicos formados em Cuba que conheci durante os 11 anos em
que trabalhei no interior do Nordeste, e assim reensinar a muitos doutores
brasileiros o que eles um dia já souberam: que a principal ferramenta do
esculápio é seu tirocínio e seus sentidos; que não se pode pedir exames
complexos sem exercer a capacidade de ouvir o paciente; que os principais
valores que devem nortear os frequentes desafios da prática da medicina deverão
ser os humanos e sociais; e que a arte de aliviar o sofrimento humano jamais
poderá ser subjugada pelos interesses corporativos e pela busca de poder.

 

 

*Luís Fernando Tófoli é
psiquiatra e professor de psicologia médica e psiquiatria da Unicamp

Categorias: Medicina

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