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Revista Isto é,
COMPORTAMENTO,
|  N° Edição:  2285 |  30.Ago.13 – 20:40 |  Atualizado em 02.Set.13 –
19:41

Doentes de ideologia


Médicos brasileiros reagem com fúria e preconceito à chegada dos profissionais
estrangeiros, sobretudo dos cubanos, numa demonstração de que ignoram a situação
da população

Wilson
Aquino e Michel Alecrim

Atrás
da tela de um computador, a jornalista potiguar Micheline Borges não mostrava
seu rosto, mas mirava o dos outros. “Essas médicas cubanas tem (sic) uma cara de
empregada doméstica”, escreveu ela em uma rede social, auscultando o que, em sua
xenófoba opinião, seria um grave problema dos 400 profissionais de saúde cubanos
que desembarcam no Brasil para ocupar vagas rejeitadas por brasileiros em
municípios sem glamour, mas cheios de gente que ainda morre por diarreia. Em
Fortaleza (CE), outros cubanos, igualmente integrantes do programa federal Mais
Médicos, foram xingados de “escravos” e “incompetentes”. As vaias da turma de
jaleco branco só não foram mais lamentáveis do que a orientação dada pelo
presidente do Conselho Regional de Medicina de Minas Gerais (CRM-MG), João
Batista Gomes Soares. Ele defendeu que a categoria não atendesse eventuais
vítimas de erros médicos dos estrangeiros. Ou seja, que deixassem morrer os
pacientes, se fosse o caso. Essa postura preconceituosa e corporativa dos
médicos brasileiros envergonha o País e demonstra a ignorância deles em relação
à situação de penúria da população.



IGNORÂNCIA


Médico
cubano é hostilizado por profissionais de saúde


no
Ceará. Eles foram xingados de -escravos


Periferia Nem é necessário ir aos rincões do País para constatar a falta de
profissionais. Se essas pessoas que esbravejam contra os médicos estrangeiros
visitassem o Hospital Municipal Dr. Adalberto da Graça, em Paracambi, na Baixada
Fluminense, a 83 quilômetros da capital do Rio de Janeiro, entenderiam o que é
ter doença e não ter médico para tratá-la. A reportagem de ISTOÉ esteve lá e
ouviu os cidadãos, a maioria com mais de 60 anos, que aguardavam em fila e no
sereno, desde a madrugada, na tentativa de agendar uma consulta para quando um
especialista fosse à pequena e pobre cidade. Fazia cerca de 15 graus na manhã de
quarta-feira 28 e o aposentado José Brás, que parece ter muito mais do que os 65
anos, buscava uma receita médica para o tratamento do acidente vascular cerebral
que sofreu. “Cheguei às 4h para agendar a consulta. É doloroso”, resumiu ele.
“Às vezes, só tem horário para dois meses depois”, afirmou Juliana Batista, 28
anos, que disse sofrer de “crise de nervos”. Paracambi irá receber dois médicos
cubanos.


Segundo pesquisa do instituto Datafolha, 54% dos brasileiros apoiam a vinda de
médicos estrangeiros para o País, e esse número vem crescendo à medida que a
população entende que os profissionais de fora não vão tomar o lugar dos
brasileiros. Eles irão para locais onde nenhum brasileiro quis ir. Vão salvar
gente que está morrendo por falta de medicina básica. Por exemplo, Japeri,
também na Baixada, é um dos municípios mais pobres do Rio e Janeiro. Lá, 40% das
123 mortes hospitalares registradas no ano passado foram por doenças infecciosas
e parasitárias. Os 100 mil habitantes contam com apenas 107 médicos, mas muitos
não moram na cidade e, portanto, não estão disponíveis. A cidade está alegre,
pois vai receber seis médicos, dois brasileiros e quatro cubanos. “Esse
contingente vai reduzir em 70% o nosso déficit na atenção primária”, prevê o
secretário de saúde, Sílvio Mendonça.


CARÊNCIA


Fila no
hospital municipal de Paracambi, a 83 quilômetros


do Rio:
a cidade irá receber dois médicos cubanos


Doenças Perto dali, em Queimados, distante 50 quilômetros da capital fluminense,
amarga-se problema idêntico: como 60% do esgoto gerado não é recolhido, as
doenças causadas pela falta de saneamento básico são mortais. “A gente tem muita
dificuldade para atrair médicos para trabalhar aqui”, diz a secretária de Saúde,
a ginecologista Fátima Sanches. Ela solicitou quatro profissionais, mas apenas
uma médica africana se interessou pelo trabalho, com remuneração mensal de R$ 10
mil, além de ajuda de custo. Quem necessita de atendimento mais específico
frequentemente tem de se deslocar a outro município. A estudante Laudicéia
Cristina de Araújo, 18 anos, quebrou a clavícula há mais de uma semana e teve de
se medicar na vizinha Nova Iguaçu, distante 16 quilômetros. “E, mesmo assim, o
médico se limitou a olhar o raio X e mandar eu manter o braço em uma tipoia”,
reclamava.


Prevenção A chegada desses profissionais aos municípios pobres e à periferia de
centros urbanos significa, também, o início de um trabalho de medicina
preventiva, o melhor remédio para enfermidades básicas, muitas das quais
poderiam ser erradicadas com simples noções de higiene e de educação alimentar.
“Se investirmos na atenção primária, além de evitar óbitos, vamos reduzir a
demanda nas emergências e nos ambulatórios”, avalia o secretário de Saúde de
Duque de Caxias, também na Baixada Fluminense, o cardiologista Camilo Junqueira.
Em 2012, Caxias teve 49 óbitos por doenças infecciosas e parasitárias. Por isso,
quer mais médicos. O Ministério da Saúde disponibilizou 32 vagas para o
município, mas apenas 13 candidatos inscritos no Programa se habilitaram, sendo
dois estrangeiros (um português e um colombiano).


PRECÁRIO



Laudicéia de Araújo, de Queimados, quebrou a clavícula e teve de se tratar em
outra cidade, porque lá não tem ortopedista. José Brás, de Paracambi, sofreu um
AVC e pega fila para buscar remédios


Apesar de tudo, Rio, Brasília e São Paulo são os que têm melhor índice de
médicos por mil habitantes – respectivamente, 3,62, 4,9 e 2,64. No interior do
Nordeste e no Norte, a situação é dramática. O cardiologista Sérgio Perini, por
exemplo, é o único para atender os 18 mil habitantes de Santa Maria das
Barreiras, no interior do Pará, Estado em que a relação médico por mil
habitantes é de 0,84. “As pessoas não têm mais a quem pedir ajuda a não ser a
mim. Se tiver mais de três casos urgentes para atender imediatamente, como eu
faço?”, questiona. Por isso, é incompreensível a fúria preconceituosa a que
estão sendo submetidos os médicos estrangeiros, sobretudo os de Cuba. Nessa
primeira etapa, foram selecionados 559 profissionais de países como Espanha,
Portugal e Argentina. Desses, 282 já estão em treinamento, além dos 400 cubanos
que deverão ser maioria quando os quatro mil médicos da ilha caribenha chegarem
ao Brasil, como estabelece o acordo firmado entre o Brasil e a Organização
Pan-Americana de Saúde (Opas). Ao contrário dos demais, porém, eles não
receberão o salário integral. Entre 40% e 50% da remuneração ficará com o
governo de Raúl Castro.


Atendimento O Conselho Federal de Medicina e os conselhos regionais não voltaram
atrás em relação ao combate que têm feito ao programa do governo, mas tiveram de
realizar uma reunião na quarta-feira 28 para falar do constrangimento geral em
relação às atitudes agressivas da classe. Sem citar a manifestação de Fortaleza,
uma nota divulgada após o encontro dizia repudiar “atos de xenofobia e
preconceito em qualquer situação”. As entidades também procuraram deixar claro
que são contra a postura tomada pelo conselho de Minas em relação a eventuais
erros médicos praticados por estrangeiros. E corrigiram: “Os médicos
brasileiros, sempre que procurados, devem prestar atendimento aos pacientes com
complicações decorrentes de atendimentos realizados por médicos estrangeiros
contratados sem a revalidação de seus diplomas”.

No
juramento de Hipócrates, atualizado em 1948 pela Declaração de Genebra e adotado
pelo Brasil, está dito o que deve ser a premissa de quem escolhe a medicina:
exercer a arte de curar, mostrar-se sempre fiel aos preceitos da honestidade, da
caridade e da ciência. Mas, ao que tudo indica, muitos doutores esqueceram dessa
parte do juramento que fizeram. Que venham os estrangeiros.

Categorias: Medicina

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