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Folha de São Paulo, Cotidiano, DOMINGO, 22 DE SETEMBRO DE 2013

Crise argentina alavanca as inscrições no Mais Médicos

Instabilidade econômica e salário mais
baixo expulsam profissionais argentinos

Número de inscritos do país vizinho no
programa brasileiro cresceu mais de 28% da 1ª para a 2ª fase

LÍGIA MESQUITADE
BUENOS AIRES

Muitos médicos que atuam na Argentina receberam
nesta semana a notícia de que podem arrumar as malas e se mudar para o Brasil.

São profissionais que, em sua maioria,
preocupados com a instabilidade financeira no país e em busca de um salário
melhor, decidiram se inscrever no Mais Médicos.

Na segunda fase de seleção do programa do
Ministério da Saúde, que terminou na sexta, 94 profissionais da Argentina se
inscreveram ""21 a mais do que na primeira etapa.

Segundo uma funcionária do consulado brasileiro
em Buenos Aires, depois que o jornal "Clarín" divulgou o salário do Mais
Médicos, o número de inscritos aumentou.

Nem todos que se cadastraram pela internet (ela
calcula em mais de 400) entregaram depois os documentos para concluir o
processo.

Dos 94 que concluíram a inscrição, a maioria
escolheu trabalhar em postos de saúde do Paraná, de São Paulo e de Santa
Catarina.

O argentino José Luiz Fernandez, 40, de Missões,
fugiu à regra e escolheu uma cidade fluminense: Niterói.

Ele, que já arrisca uma conversa em português,
diz que começou a estudar a língua há três anos. Planejava revalidar seu título
e trabalhar no Brasil, "caso acontecesse outra hecatombe" na Argentina, diz,
referindo-se à crise econômica de 2001.

"Não me sinto seguro no meu país por causa da
instabilidade econômica", afirma o médico à Folha.

Clínico-geral e infectologista, recebe 170 pesos
(R$ 65,47) por consulta e também trabalha em hospital.

A remuneração de R$ 10 mil oferecida pelo Mais
Médicos mais moradia, segundo ele, "é três vezes mais do que ganho aqui".

O salário também pesou para a inscrição da
clínica e cardiologista Marina Olga Rueda, 46. Plantonista em dois hospitais de
Buenos Aires, ela também atende em um consultório particular e recebe 100 pesos
por consulta (R$ 38,49).

"Além de meu salário aqui ser menor, nós pagamos
muitos impostos, não sobra muito dinheiro", explica. O marido, que é mestre de
obras, topou se mudar com ela.

Sua primeira opção na lista de cidades para
trabalhar foi Bombinhas, no litoral catarinense, porque muitos argentinos vivem
no Estado.

Enquanto aguarda ser convocada pelo governo
brasileiro, Marina já começou as aulas de português. "Acho que os pacientes vão
me entender, mas tenho receio de escrever receitas [médicas]."

Ela também tem medo de não ser bem recebida pela
classe médica brasileira, como aconteceu com os colegas cubanos. "É importante
que os médicos brasileiros saibam que não vamos roubar postos de trabalho. Nosso
contrato é de três anos, e eles também podem se inscrever."

A confirmação da vaga em um posto de saúde de
Dionísio Cerqueira (SC) ainda não saiu, mas María de Los Angeles Escudero, 29,
outra argentina inscrita no Mais Médicos, também teme a recepção dos colegas
brasileiros.

"Eles são fechados e acham que vamos roubar
trabalho." Ela trabalha em um serviço de resgate em Buenos Aires.


Paulista quer voltar ao Brasil com emprego

DE
BUENOS AIRES

Thais
Ueda Nozaki, 30, está na lista de brasileiros que atuam na Argentina e se
inscreveram na segunda fase do Mais Médicos.


Paulista de Ribeirão Preto, ela vive desde 2006 em Buenos Aires, onde cursou
medicina na Faculdade Abierta Interamericana.

Desde
julho, quando se formou, ela trabalha como plantonista em hospitais portenhos
nas áreas de neonatologia e cardiologia pediátrica.

A
vontade de ficar perto de novo da família fez com que Thais se interessasse pelo
programa do Ministério da Saúde brasileiro.

Além
disso, ela queria ter um trabalho fixo, ganhando mais do que receberia na
Argentina.

A
cidade que ela escolheu para trabalhar é Americana, no interior de São Paulo –a
localidade mais próxima de Ribeirão Preto, onde vive sua família.


"Soube na quinta-feira que eu fui selecionada e tenho que me apresentar no dia 7
de outubro em São Paulo. Estou muito feliz", diz à Folha.

"No
Brasil, com esse salário de R$ 10 mil eu consigo viver bem, fora a ajuda com
moradia. E é um jeito de voltar já empregada", afirma a médica.

(LM)

Categorias: Medicina

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