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O Estado de São Paulo, 22 de setembro de 2013 | 2h 11

De palhaço, médico combate o crack

Psiquiatra usa
fantasia para se aproximar dos usuários e convencê-los a buscar tratamento

BRUNO PAES MANSO – O Estado de S.Paulo

O sol começava a sair de trás das nuvens, por volta
das 10h de anteontem, quando o psiquiatra Flavio Falcone, de 33 anos, formado
pela Universidade de São Paulo (USP), abriu a porta do banheiro da Unidade De
Braços Abertos, na Rua Helvetia, no coração da Cracolândia, centro de São Paulo.
Com um nariz de bola vermelha e o rosto maquiado, usando uma cartola branca,
terno de tecido grosso e uma gravata feita com gaze, ele já havia incorporado o
palhaço Fanfarrone.

Pela décima vez nos últimos dois meses, Falcone
repetia o ritual das últimas sextas-feiras. Fantasiado, aborda os usuários de
crack nas ruas lotadas da Cracolândia para ganhar a confiança deles e
convencê-los a iniciar um tratamento que possa livrá-los de uma das drogas mais
consumidas no País. Um em cada três (35%) consumidores de drogas ilícitas nas
capitais do País usa crack, conforme pesquisa inédita da Fundação Oswaldo Cruz,
divulgada na quinta-feira.

As vestimentas do médico são inspiradas em Zé
Pelintra, entidade da umbanda que, segundo uma versão sobre sua morte, bebia
demais e foi atropelado depois de adormecer na linha de trem. "O palhaço ajuda a
estabelecer uma relação horizontal, de igual para igual, com o povo daqui. De
médico, imediatamente se cria uma hierarquia que eu prefiro desconstruir", diz.
Depois dos primeiros passeios, um pandeiro também passou a fazer parte dos
acessórios da peregrinação. Quando os usuários viam o palhaço, muitos o rodeavam
e começavam a cantar com ele.

Logo nos primeiros passos, Fanfarrone é abordado por
uma mulher de cerca de 30 anos, magra, cabelos castanhos, envelhecida pela
droga, que vem conversar sobre astrologia. Ela pergunta o signo do palhaço, que
responde ser de escorpião. A moça conta a história do marido do mesmo signo, que
consome crack com ela. "Eu fumo para ficar na brisa, para ouvir música, para
fazer amor. Ele fuma e fica violento, fala bobagens, me bate. Quando escorpião
dá para ser ruim, sai de baixo", diz a moça.

Uma liderança da cena local começa a acompanhar
Fanfarrone, depois de comunicada de que haveria fotos e que o repórter iria
junto. Pardal, de 50 anos, foi com um chapéu verde-amarelo, segurando um
acessório de penas coloridas. Usa óculos sem lentes para "passar uma imagem de
respeito", que ele tira durante os bate-bocas com outros frequentadores.

Pardal estava agitado na manhã de sexta, sob o efeito
da pedra. Contou que a Escola de Samba Tom Maior havia sido criada em sua casa,
na zona sul, e depois se emocionou ao falar do filho que foi preso aos 15 anos e
só agora havia saído da prisão. Assumiu com o palhaço o compromisso de
participar de um grupo de música para o bairro, projeto ainda a ser apresentado
ao poder público.

Fanfarrone segue pela Helvetia em direção à Rua Dino
Bueno, onde fica "o fluxo", termo usado para definir o movimento de venda e
consumo intenso da pedra. Ganha um boneco de pelúcia de presente de uma moça,
que pede que ele guarde o bichinho com cuidado. Metros adiante, Fanfarrone perde
o boneco, levado de seu bolso por um homem.

A rua está agitada às 10h30. Barraquinhas de roupas
velhas ficam na calçada, num comércio de objetos sem valor para fazer dinheiro
para manter o consumo da pedra. Em outro, são vendidos carrinhos de plástico
quebrados e muitos restos de equipamentos eletrônicos. Um jovem branco, de
cabelos claros e compridos, tenta vender uma bela jaqueta preta, no meio do
fluxo, para obter recursos e comprar mais pedra.

Fanfarrone segue decidido, passando em meio à
multidão efervescente. Para a reportagem, ele diz que a escolha do palhaço não
foi gratuita. "O palhaço, na verdade, deu sentido para minha vida. Aqui, eu
também busco a minha cura", conta. Criado em Piracicaba, no interior de São
Paulo, ele sempre foi uma criança tímida. Seus pais eram donos de uma escola de
balé. Desde os 4 anos, ele assistia, discretamente, a quase todas as aulas.
Depois, repetia as coreografias escondido.

Sonho. Aos 14 anos, sonhou que estava tratando de
dependentes químicos. Foi quando decidiu ser psiquiatra. Sempre teve facilidade
com os estudos e ingressou na USP. Junto com a Medicina, passou a fazer aulas de
palhaço e conseguiu se livrar da depressão que o perseguia. "O palhaço lida com
as sombras. Ele revela o lado ridículo de situações que, às vezes, levamos muito
a sério. Eu sempre fui uma pessoa tímida. Passei a rir de mim mesmo, o que foi
mais eficiente do que qualquer terapia. Parece que, hoje, renasci e vivo em
outra encarnação", diz.

A sombra dos frequentadores da Cracolândia, para o
palhaço, é o potencial muitas vezes desperdiçado daquelas pessoas. Fanfarrone
continua andando no meio da confusão, com gente de olhos arregalados por todos
os lados, cachimbos de aço sendo acesos, discussões e dedos em riste, quando, de
repente, um cego de roupa social aparece, tentando passar no meio do fluxo com a
ajuda da bengala. Tudo pode parecer muito triste, mas Fanfarrone acredita no
poder terapêutico de transformar em riso a miséria humana.

Nos primeiros dois meses de atividade, ele calcula
ter conseguido "construir vínculos" com 30 pessoas. Um deles era HIV positivo.
Depois de saber que tinha a doença, decidiu "morrer na Cracolândia". Fanfarrone
disse que hoje pessoas com aids podem sobreviver por anos, desde que medicadas.
Ao saber disso, o jovem começou a se tratar. Mas permanece na Cracolândia.

Fanfarrone evita arriscar um palpite sobre quanto
tempo a região ainda vai conviver com a cidade. Mas arrisca uma definição sobre
o local: "a Cracolândia é a sombra da cidade de São Paulo".

Categorias: Medicina

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