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Folha de São Paulo, Ciência + Saúde, SEXTA-FEIRA, 4 DE OUTUBRO DE
2013 

Bebê com receita

Empresa dos EUA patenteia método que
permite selecionar doadores de esperma e óvulos para escolher os traços do bebê,
como cor dos olhos e risco de doenças

RAFAEL GARCIADE SÃO PAULO

Uma empresa americana registrou há uma semana a
patente para um teste de DNA que permite a receptores de óvulos e esperma doados
tentarem escolher características do bebê a ser concebido.

O patenteamento foi feito pela 23andMe, da
Califórnia, fundada com US$ 3,9 milhões do Google e capital de empresas de
biomedicina da região.

O método de seleção de gametas registrado, que
está sendo criticado por geneticistas independentes, envolve o rastreamento de
genes ligados tanto a características triviais como outras menos.

No texto da patente, a empresa sugere que
poderia oferecer a receptores de óvulos ou esperma a identificação dos doadores
mais propensos a transmitir traços como cor dos olhos e estatura, mas também
expectativa de vida e porte atlético.

Caso venha a ser utilizado, o método registrado
usa um algoritmo (série de comandos matemáticos) para cruzar dados de doador e
receptor dos gametas de forma a maximizar a chance de uma criança ganhar as
características desejadas.

MENU

O pedido de patente exibe esquemas de menus de
computador no qual o usuário escolhe as características desejadas antes de
clicar um botão para submeter um pedido de busca do doador. O método lista como
característica passível de escolha até mesmo o sexo do bebê, algo que a maioria
dos países, inclusive o Brasil, proíbe na regulamentação para tratamentos de
fertilidade.

A 23andMe, que tem como uma das fundadoras Anne
Wojcicki –ex-mulher de Sergey Brin, cofundador do Google– diz que a patente se
aplica a um produto que a empresa já oferece.

É uma "calculadora de hereditariedade de traços
familiares", que serve para "você e seu cônjuge saberem que tipos de
características seus filhos devem herdar".

A empresa diz que, na época em que havia
submetido o pedido da patente, há mais de cinco anos, ainda considerava a
possibilidade de aplicar a mesma tecnologia a métodos de escolha de gametas para
clínicas de fertilização, mas desistiu de fazê-lo depois. O objetivo da patente,
a partir de agora, seria apenas o de proteger os algoritmos usados na
"calculadora".

Ainda assim, em comentário na revista científica
"Genetics and Medicine", um grupo de eticistas questiona a concessão do
"invento".

"Em nenhum estágio durante a análise do pedido
de patente, o examinador questionou se técnicas que facilitam projetar” futuros
bebês humanos seriam objeto apropriado para patentes" afirma o grupo, liderado
por Sigrid Sterckx, da Universidade de Ghent, na Bélgica.

A pesquisadora lembra que esta não é a primeira
vez que a 23andMe se envolve em uma controvérsia ética.

Após a empresa ter anunciado em 2012 a patente
de um teste de DNA de propensão ao desenvolvimento do mal de Parkinson, alguns
clientes insatisfeitos –aqueles que haviam fornecido amostras para o banco de
dados usado na criação do teste– protestaram. Eles queriam ter sido consultados
sobre o uso de suas informações pessoais para outros fins.

PRIVACIDADE

Sterckx questiona se as mesmas pessoas teriam
autorizado a 23andMe a usar seu biobanco para desenvolver o método de seleção de
gametas patenteado agora.

A empresa nega uso indevido de informação
privativa. "Entrar com pedidos de patentes é uma parte normal de nosso negócio,
e estamos comprometidos com nosso princípio de dar às pessoas acesso a seus
próprios dados genéticos", afirmou a empresa em comunicado.

Categorias: Medicina

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