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Agência Brasil – 18/10/2013 – Brasília, DF

No Dia do Médico, profissionais falam sobre atuação em zonas de miséria e
conflito

Aline Valcarenghi

Ler uma
matéria sobre Médicos sem Fronteiras (MSF) ainda na adolescência foi suficiente
para Paulo Reis decidir o que queria fazer da vida. Hoje (18), quando é
comemorado o Dia do Médico, ele diz que se sente realizado depois de oito anos e
de 14 projetos em regiões de miséria, atendendo a vítimas de desastres e
conflitos. “Ver o resultado do trabalho é muito gratificante”, contou.

Para Paulo,
formado há 15 anos em medicina, é preciso ter o perfil para fazer esse tipo de
trabalho longe das clínicas e hospitais. `Há pessoas que se dedicam totalmente à
medicina, mas que têm o perfil de trabalhar mais em hospital, em casas. Você
pode ter vocação para a medicina e não ter para trabalhar em área [de conflito e
miséria]. Eu tenho esse perfil`.

“No começo
deste ano, eu estava no Paquistão trabalhando no combate de um surto de sarampo
que, para brasileiro é uma coisa simples porque tem vacinação, mas dependendo do
país mata muita gente. Recebi dois irmãos, um já em coma. Passando os dias, ele
melhorou, depois que a gente nem tinha muita esperança. Três semanas depois, a
família voltou para saber se ainda precisava fazer alguma coisa. Foi muito legal
ver o garotinho voltar andando, mais gordinho”, lembrou o médico generalista.

Há uma
semana, Reis voltou de uma missão ao Sudão do Sul, onde foi atender a vítimas de
conflitos internos. “Havia um problema enorme com saúde básica, eles não têm
acesso ao mínimo”, contou à Agência Brasil. Há lugares, projetos, em que os
médicos conseguem ficar em casas, mas em países como o Sudão do Sul normalmente
se instalam em barracas. `Não há um banheiro ou uma cozinha propriamente ditos.
Mas dá para se virar bem. É tudo organizado`.

Quando
começou a viajar pelo mundo para atender a vítimas de conflitos, grandes
desastres e da miséria, Reis ainda fazia alguns trabalhos temporários no Rio de
Janeiro, onde mora. Mas agora se dedica somente ao MSF. O médico, de 41 anos,
entende que ser solteiro e não ter filhos ajuda, “ficar mais tempo fora do que
no Brasil é muito difícil para quem tem família”.

O primeiro
trabalho foi em Serra Leoa, depois ele esteve na Libéria, Indonésia, Colômbia e
no Afeganistão, entre outros países. No Paquistão, trabalhou com os deslocados
após as enchentes de 2010. Sobre o atendimento aos refugiados do Sudão, disse
que “como eram refugiados, tinham que andar muitos dias e chegavam desnutridos.
Tinha que tratar malária, diarreia, infecção respiratória, que são as principais
demandas”. Reis observou que não tem planos para o futuro. `Estou feliz assim”.

A
anestesista Liliana Mesquita amadureceu na faculdade a ideia de participar do
MSF. Depois de oito anos de formada, viu que havia um vazio em sua vida que foi
preenchido com esse trabalho. Aos 38 anos, a médica, que é solteira e tem o
apoio do namorado, pretende seguir com o projeto até quando for possível.

Liliana
relatou que de cada lugar leva pelo menos uma história marcante. Em três anos,
ela passou por sete missões, sempre nas férias dos seus dois empregos em
Brasília. Esteve na República Centro-Africana, no Sudão do Sul, na Faixa de Gaza
e recentemente no Iêmen. No Haiti, ela foi cuidar das vítimas do terremoto de
2010.

“No
Paquistão, quem me marcou muito foi um senhor de 100 anos, o mais idoso que já
anestesiei. Um paciente muito debilitado. Depois da anestesia, pedi que
avisassem que eu ia ficar ao lado dele, que não se preocupasse. Ele pegou minhas
mãos, levou à testa, levou ao coração e falou algumas coisas que eu vi que eram
orações, algum tipo de agradecimento. Então, começou a chorar e eu também. Não
precisava falar pashto, urdo [dialeto e idioma falados na região] para saber que
aquilo era um agradecimento”, lembrou.

Há duas
semanas, Liliana voltou do Iêmen, onde trabalhou por um mês em um hospital geral
e cuidou de vítimas de atentados. Ela confessa que já ficou com medo por estar
em região de conflito. “No Paquistão, quando acordei com tiroteio, explosão e
sobrevoo de helicóptero foi a única vez em que tive medo e me perguntei o que
estava fazendo ali. Mas, depois pensei que meu medo tinha que ser menor que a
necessidade das pessoas que ali estavam”.

Houve
lugares em que Liliana trabalhou onde não se podia levar opióides, medicação
muito usada pelos anestesistas. Outros lugares são de difícil acesso e não dá
para levar determinados aparelhos. `A gente se vira com o que tem, sempre dentro
dos protocolos do MSF. No final, a gente vê que todo o esforço, todos os anos de
estudo valeram muito a pena`, concluiu.

Categorias: Medicina

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