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Folha de São Paulo, Opinião,  TERÇA-FEIRA, 5 DE NOVEMBRO DE 2013

Médicos a granel



EDITORIAIS


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Impressiona o enorme contingente de brasileiros
que estudam medicina na Bolívia. São 25 mil, quase um quarto do total de alunos
desse curso no Brasil.

Mais incríveis ainda são as péssimas condições
de ensino ali oferecidas, conforme mostrou reportagem desta Folha.
Faltam hospitais associados às universidades, a carga teórica é baixa e os
professores são pouco qualificados ou ministram aulas em disciplinas distantes
de suas especialidades.

Muitas instituições parecem pouco preocupadas
com a qualidade dos médicos que formam; o que lhes importa é a quantidade de
estudantes. Quanto mais alunos, mais dinheiro –sobretudo se brasileiros, com
poder aquisitivo relativamente alto para aquele país.

Os próprios professores lucram com a
multiplicação estudantil. Comercializam notas por R$ 450, o equivalente a 41
horas de trabalho. Negociam diplomas falsificados. E vendem ossos humanos.

A prática é proibida, mas corrente. Alunos
compram ossos para estudar em casa, pois as universidades, com vagas ilimitadas,
não dispõem de material para todos. Professores dão pontos adicionais a quem
recorrer a fornecedores indicados por eles.

Apesar dos problemas, a presença de brasileiros
nas faculdades de medicina da Bolívia é antiga (pelo menos duas décadas) e
crescente. Em Santa Cruz de la Sierra, o número de alunos dobrou em três anos,
segundo estimativa do consulado do Brasil na cidade.

O principal atrativo é o preço. Os cinco anos de
curso podem sair por apenas R$ 10.500. No Brasil, onde a graduação leva seis
anos, esse valor seria suficiente para pagar poucos meses de faculdade privada.

Quando retornam ao país, os médicos formados na
Bolívia têm dificuldade de trabalhar. No Revalida (exame para validação de
diploma estrangeiro) passado, só 5 dos 244 inscritos passaram, ou 2% do total
–o pior percentual em comparação com outras localidades.

A precariedade do ensino é particularmente
preocupante em época de Mais Médicos. O governo federal, como se sabe, pretende
contar com até 13 mil profissionais no programa –menos para ampliar o atual
contingente de 388 mil do que para levá-los às áreas mais desassistidas do país.

Verdade que, pelas regras do programa, os
bolivianos não podem ser admitidos, pois seu país tem proporção de médicos
inferior à brasileira (1,2 por mil habitantes lá, 1,8 por mil aqui). Mas o
governo deveria ter em mente esse tipo de situação ao fiscalizar os
profissionais que tem atraído ao Brasil.

Categorias: Medicina

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