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Folha de São Paulo, Cotidiano, DOMINGO, 30 DE MARÇO DE 2014



SEMINÁRIOS FOLHA – A SAÚDE DO BRASIL

Pediatras fecham consultórios para atender em hospitais

Segundo entidades
médicas, migração tem sido causada pelos baixos repasses dos planos de saúde

Cada criança atendida
custa R$ 55 ao médico, de acordo com entidade de pediatria; convênios repassam
cerca de R$ 66

ARETHA YARAKDE SÃO PAULO

Quando se formou em
pediatria, há mais de 30 anos, Dárcio Duarte decidiu abrir um consultório.
Passados 25 anos, o retorno financeiro começou a não compensar: "Trabalhava para
pagar despesa. É um investimento muito alto para pouco retorno".

Hoje, ele engrossa a
lista dos pediatras que decidiram trocar os consultórios por plantões em
prontos-socorros e hospitais. Segundo entidades de classe, essa migração foi
causada pela baixa remuneração dos convênios.

"Todos as especialidades
são afetadas pelo repasse, mas a pediatria não tem o ganho adicional dos
procedimentos", explica Milton Macedo, diretor de Defesa Profissional da
Sociedade Brasileira de Pediatria. Além do valor da consulta, um ortopedista
recebe ao engessar um braço, por exemplo.

"O pediatra
recém-formado não tem condições de abrir seu consultório", diz Marun Davi Cury,
coordenador do Departamento de Defesa Profissional da SPP (Sociedade Paulista de
Pediatria) e da Associação Paulista de Medicina.

Os problemas da saúde
pública brasileira foram discutidos na semana passada durante o Fórum a Saúde do
Brasil, promovido pela Folha, que publicou um caderno sobre o tema ontem.

Atualmente, o Brasil tem
cerca de 32 mil pediatras -ao todo, há quase 400 mil médicos registrados no CFM
(Conselho Federal de Medicina).

Não existe ainda
levantamento de quantos pediatras fecharam o consultório e migraram para
hospitais.

De acordo com Cury, os
convênios pagam, em média, R$ 66 por consulta. Um levantamento da SPP aponta que
cada criança atendida custa R$ 55 ao médico. "Sobram apenas R$ 11. Qual a
vantagem? Vai todo mundo trabalhar em hospital."

"Todo fim de mês repenso
se devo continuar com o consultório", conta a pediatra Luciane Armani, 34, que
atende pacientes privados há um ano e meio.

Atualmente, ela dá
plantões em uma UTI neonatal na região de Porto Alegre (RS). "A cada dois
plantões de 12 horas, recebo o mesmo que meu mês fechado no consultório."

ATENDIMENTO

A migração dos médicos
para os hospitais tem sobrecarregado os pediatras que resistem nos consultórios.
A agenda cheia torna cada vez mais difícil uma relação próxima com a criança.

"Sinto falta da
intimidade com o pediatra. Minha mãe teve isso com meu médico. Hoje, ou o
atendimento é frio e corrido ou nunca tem horário disponível", queixa-se Rachel
Brum Coelho, 31, mãe de uma menina de três anos.

A paulistana conta que
já chegou a ficar 45 dias esperando por uma consulta. "Está cada vez mais
difícil achar pediatra pelo convênio."

No começo do ano, a ANS
(agência que regula os planos de saúde) sistematizou como os planos devem pagar
ao médico o atendimento de puericultura -consultas periódicas que a criança deve
fazer.

Agora, está explicitado,
por exemplo, que as consultas mensais nos primeiros seis meses de vida deverão
ser pagas dentro do pacote de atendimento de puericultura, não como consultas.

"Há casos em que o valor
pago por esse tipo de atendimento chega a ser o dobro do da consulta", conta
Macedo.

Categorias: Medicina

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