Nova pagina 3

Folha de São Paulo, Cotidiano, DOMINGO, 13 DE ABRIL DE 2014

Novos cursos de medicina terão mais docentes sem pós

Formato valerá para universidades federais
em vagas previstas no Mais Médicos

Medida visa atenuar falta de professores;
conselho de medicina diz que será formado médico desqualificado

FÁBIO TAKAHASHIDE SÃO PAULO

Na tentativa de contornar o deficit de
professores de medicina, os novos cursos previstos no programa federal Mais
Médicos aceitarão mais docentes que não fizeram mestrado ou doutorado.

O novo formato de concurso valerá para as
universidades federais. Segundo o projeto recém-finalizado pelo governo, esses
novos professores farão a pós-graduação ao mesmo tempo em que dão aulas aos
alunos da graduação.

O Ministério da Educação afirma que os cursos
com esses docentes terão qualidade, pois os professores sem pós-graduação
estarão ao lado de outros mais experientes e sob supervisão.

Já o Conselho Federal de Medicina diz que há o
risco de esse corpo docente formar médicos "desqualificados".

O governo Dilma Rousseff (PT) pretende aumentar
em 65% o número de vagas em medicina até 2017, sob o argumento de que faltam
profissionais formados na área.

Antes dessa expansão, a regra geral nas
universidades federais era contratar docentes com mestrado ou doutorado –80%
dos professores de medicina possuem hoje uma dessas pós-graduações.

O mestrado e o doutorado visam dar base ao
professor para que ele saiba como ensinar e fazer pesquisa.

Ainda não está definida qual será a proporção de
docentes com formação em pós-graduação nos novos concursos, mas o próprio
Ministério da Educação dá como certo que será menor.

A explicação é que as novas vagas estarão
concentradas onde não há cursos de medicina, ou seja, com poucos médicos para
lecionar.

E que mesmo antes da expansão já há dificuldade
de contratar esses docentes, mesmo em regiões desenvolvidas (cinco dos nove
últimos concursos docentes nas federais em São Paulo terminaram sem aprovados).

Secretário de Educação Superior do ministério,
Paulo Speller afirma que os cursos começarão com "alguns poucos mestres e
doutores".

Com a formação simultânea dada aos docentes sem
pós-graduação, diz o representante do governo, "vai se formando massa docente ao
longo do tempo". Um mestrado dura, em média, dois anos.

A formação desses professores será em
instituições de ensino superior próximas que possuam mestrado ou doutorado, por
meio de atividades presenciais e a distância.

"Precisamos considerar que esse novo professor é
um médico, que talvez continue com suas atividades e ainda precisa lecionar",
diz Speller.

Inicialmente haverá centros de formação dos
docentes em PE, BA, MA, RS e MG.

Medida vai fixar médicos em área carente, diz governo

Meta é que profissional que clinica em
região pobre passe a ser professor universitário ali e retome seus estudos

Para Conselho Federal de Medicina, é preciso
oferecer carreira e condições de trabalho para atrair interessados

FÁBIO TAKAHASHIDE SÃO PAULO

Ao mesmo tempo em que busca aumentar o número de
professores universitários, o governo federal visa fixar médicos em regiões
carentes.

Essa fixação ocorrerá justamente porque os
concursos para docentes das novas vagas de medicina não exigirão títulos de
pós-graduação, afirma o Ministério da Educação.

Nesses novos cursos, localizados em áreas
carentes, médicos que atuam na região (e que não se formaram mestres ou
doutores) poderão entrar como docentes.

Esse médico, além de passar a ser um professor
universitário, poderá também fazer uma pós-graduação. Os cursos serão gratuitos
ou haverá bolsas federais.

"Você traz médicos da região, que conhecem a
região, que têm interesse na docência, e vai fazendo a formação na própria
região", afirmou o secretário da Educação Superior do Ministério da Educação,
Paulo Speller.

A fixação de médicos em áreas carentes é o
principal objetivo do programa federal Mais Médicos.

Segundo dados do governo, o país tem menos
médicos por habitantes do que a Argentina e o Uruguai. E 22 Estados estão abaixo
da média brasileira. Amapá, Maranhão, Pará e Piauí têm menos da metade dessa
média.

Estão acima do patamar brasileiro apenas São
Paulo, Rio, Espírito Santo, Rio Grande do Sul e Distrito Federal.

CRÍTICAS

O Conselho Federal de Medicina discorda de todo
o programa do governo federal.

Contesta, primeiro, que seja necessário aumentar
o número de cursos na área.

A entidade se baseia em estimativas que apontam
que o número atual de médicos é suficiente, pois o crescimento populacional no
país tem desacelerado nos últimos anos –o que reduz a demanda por médicos.

"A abertura de cursos visa apenas a satisfação
dos empresários", disse Carlos Vidal, vice-presidente do conselho. Parte da
expansão será em faculdades privadas.

Especificamente sobre a decisão de aceitar mais
professores sem mestrado ou doutorado nas federais, Vidal afirma que a medida
acarretará a formação de "médicos desqualificados".

Ele ressalta que o próprio Ministério da
Educação aumenta em suas avaliações a pontuação dos cursos que possuem mais
doutores e mestres. "Eles mesmos consideram importantes esses títulos. Por que a
lógica não valeria para os novos cursos?"

Para Vidal, "o título de mestre e de doutor é a
garantia de que aquele professor sabe lecionar e pesquisar".

ÁREAS CARENTES

O conselho também vê como ineficaz a estratégia
do governo para fixar médicos em regiões carentes.

Uma das principais ações da presidente Dilma
Rousseff é abrir cursos nas áreas com poucos profissionais. Também contratou
profissionais estrangeiros.

"O que fixará médicos nessas regiões é boa
carreira e condições de trabalho", disse o vice-presidente do conselho.

Categorias: Medicina

1 comentário

Os comentários estão fechados.

× clique aqui e fale conosco pelo whatsapp