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Folha de São Paulo, New York Times, TERÇA-FEIRA, 22 DE ABRIL DE
2014

Médicos alertam sobre lesões cerebrais

Por JOHN F. BURNS

Chegou à Europa a
discussão sobre como reagir às pesquisas crescentes que vinculam traumas
cerebrais a lesões sofridas na prática de esportes.

Peritos médicos
pedem mudanças. Alguns atletas e ligas esportivas resistem, pela tradição e para
agradar aos espectadores. É um roteiro semelhante ao que vem sendo visto
especialmente no futebol americano.

O diálogo sobre o
assunto no rúgbi e no futebol é colorido pelas reverberações dos processos
judiciais americanos, como um em que a Liga Nacional de Futebol Americano (NFL)
pode ser obrigada a pagar indenização de US$ 765 milhões (R$ 1,69 bilhão).

"Precisamos de uma
mudança fundamental de postura", disse Simon Kemp, chefe médico da União Inglesa
de Rúgbi.

As mudanças são
dificultadas pelo fato de o rúgbi estar passando por um boom sem precedentes.
Depois de passar anos à sombra do futebol, o esporte consegue lotar estádios com
até 80 mil pessoas, grande público televisivo e lucros que produziram a primeira
geração de jogadores milionários.

A resistência
também é forte no futebol, esporte em que as colisões violentas ocorrem com
menor frequência. Mesmo assim, três jogadores da liga inglesa desmaiaram por
causa de colisões nos primeiros quatro meses da temporada.

O ex-ministro do
Governo britânico Chris Bryant pediu que as ligas tomem medidas para prevenir o
risco de mais lesões cranianas, algo que poderia colocar o esporte em risco
financeiro, como aconteceu com a NFL.

"Em vista do que
aconteceu nos EUA, esse problema tem o potencial de causar forte impacto aqui",
comentou Bryant, que é jogador amador de rúgbi.

Em um fórum sobre
traumatismos cranianos sofridos em práticas esportivas convocado por Bryant na
Câmara dos Comuns em março, autoridades do rúgbi, boxe e futebol admitiram a
necessidade de mudanças.

Mas também disseram
que a extensão do problema e das reformas regulatórias necessárias deve ser
ditada por mais pesquisas sobre lesões cerebrais nos esportes, não pela ação
movida contra a NFL ou por estudos americanos.

Para Kemp, os casos
de encefalopatia traumática crônica, tipo de lesão cerebral de longo prazo comum
entre ex-jogadores da NFL, são raros no rúgbi, tendo provocado apenas uma morte.

Em vez de se
apressar a aceitar os dados do futebol americano, ele diz ser a favor de
pesquisas independentes, "para que saibamos o que deve ser feito para proteger
os jogadores e possamos apresentá-las corretamente".

Chris Nowinski,
ex-jogador de futebol americano em Harvard, lutador profissional e autor do
livro "Head Games: Football”s Concussion Crisis", disse que a posição britânica
o deixa exasperado.

Sua publicação
fundamentou um documentário de 2012 que chamou atenção para o problema nos
Estados Unidos. "Me espanta ver que nossos avanços não chegaram ao outro lado do
Atlântico."

Bryant disse que
sua campanha visa "administrar os riscos" de traumatismos cranianos, por meio de
reformas voluntárias.

No futebol
americano, um jogador que sofreu uma colisão ou batida que o fez desmaiar não
pode voltar a jogar na mesma partida.

No rúgbi, os
médicos têm cinco minutos para determinar se um golpe foi leve para permitir que
o jogador retorne ao jogo.

Mas alguns fatos
recentes provocaram preocupação. Um deles foi a morte de Ben Robinson, 14, na
Irlanda do Norte, em 2011. O garoto sofreu golpes na cabeça três vezes numa
mesma partida, mas voltou a jogar após ser examinado pelo treinador. Ele
desmaiou em campo e morreu dois dias depois.

Em novembro, o
goleiro do Tottenham Hugo Lloris voltou a jogar depois de ter sofrido uma batida
que o deixou desmaiado. Foi a terceira ocorrência do tipo no Campeonato Inglês
deste ano.

Lloris continuou a
jogar por quase 15 minutos, até o encerramento da partida. O então treinador do
Tottenham, André Villas-Bôas, disse que tinha seguido o conselho do médico do
time, mas uma semana depois o jogador não passou nos exames médicos e deixou de
ser escalado.

Após audiência na
Câmara dos Comuns, o pai de Ben Robinson, Peter, declarou: "Meu filho foi
“avaliado” três vezes. Mas perguntar a um garoto “você está bem?” é absurdo,
porque é claro que ele quer voltar. É como perguntar a um bêbado se ele pode
dirigir".


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