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TERRA EDUCAÇÃO – 18/05/2014 – SÃO PAULO, SP

Em intercâmbio no Brasil, alunos avaliam ensino de medicina

CARTOLA – AGÊNCIA DE CONTEÚDO


Com o sonho de trabalhar para ONGs como o Médicos Sem Fronteiras, que atuam com
ajuda médica e humanitária em situações de emergência pelo mundo, o alemão
Johannes Friedrich, 26 anos, escolheu o Brasil para aperfeiçoar sua graduação.
Para ele, aqui, os estudantes aprendem a atender “em áreas com circunstâncias
precárias, como também pode ser o caso desses cenários de catástrofe”.


Desde janeiro no Brasil, Johannes cursa o 7° semestre na Faculdade de Medicina
da Universidade de São Paulo (USP). Sua experiência na Alemanha, de acordo com o
estudante, foi mais livre. “As aulas são de menor duração e talvez mais
intensivas”, diz. Por exemplo, o aluno deve fazer seu próprio plano de estudos,
o que confere maior flexibilidade ao curso. “Assim, pude ganhar pelo menos parte
da minha vida em trabalhos (paralelos). Quase foi possível estudar medicina sem
depender dos meus pais”, conta.


Por outro lado, o intercambista elogia a parte prática de sua graduação no
Brasil. “Há (disciplinas) eletivas interessantes. Além de muitos cursos em que
se atende pacientes reais sob supervisão de médicos”, destaca.


A infraestrutura para aulas práticas também é enfatizada pelo estudante haitiano
da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) T-Hercule Louis Jr., 23
anos. Segundo ele, Haiti e Brasil são países completamente diferentes, pelo
desenvolvimento econômico. Por isso, vê as salas de aula brasileiras como ideais
para o ensino de anatomia e histologia, por exemplo.


Perto dos professores, longe dos colegas


O terremoto que atingiu o Haiti, em janeiro de 2010, destruiu parte das
estruturas da universidade onde Louis estudava medicina. O aluno, de Porto
Príncipe, decidiu recomeçar sua graduação no Brasil, através de bolsa da
Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes). Estuda na
UFRGS há quase três anos.


Ainda que tenha estudado, por seis meses, no curso de Língua Portuguesa da
universidade, Louis teve dificuldade para entender os docentes de medicina em um
primeiro momento. Ao final de cada aula de anatomia, quando os colegas arrumavam
as mochilas para ir embora, era hora de aprender. “Uma diferença marcante é a
proximidade entre estudantes e professores. Sempre estão dispostos a receber
alunos em seus escritórios e a tirar dúvidas”.


A facilidade na aproximação com seus professores, no entanto, não aconteceu com
os colegas. O estudante notou certo constrangimento e afastamento, em relação a
si, por parte dos demais alunos. “Interagia mais quando havia trabalhos
obrigatórios em grupos. Mas, no intervalo, era mais difícil”.


“Vestibular não consegue medir o conhecimento do aluno”


Há sete anos no Brasil, o americano Daniel Sean Minney, 28 anos, não teve
dificuldades com a língua nas aulas de medicina da Pontifícia Universidade
Católica de Minas Gerais (PUC Minas). “O jeito de entrar é que foi estranho, por
um vestibular, uma prova que decide tudo. Não se consegue medir o conhecimento
do aluno assim”, afirma.


A vinda do estudante foi uma “aventura”, nas suas palavras. Após terminar o
curso de biologia nos Estados Unidos, Daniel decidiu passar um tempo no Brasil e
acabou ficando. Dava aulas de inglês, viu que não era o que queria continuar
fazendo e decidiu-se pela medicina. Para ele, a prova de admissão das
universidades deveria envolver entrevistas e análise de currículo. Atividades
sociais e extracurriculares, como projetos de pesquisa e extensão, também são
critérios que defende para uma seleção mais adequada dos candidatos.


O estudante também ressalta que não há uma grade rígida de disciplinas no seu
país de origem. Conforme Daniel, as matérias são escolhidas pelo aluno de forma
livre e podem pertencer a qualquer área. “Aqui no Brasil você escolhe o curso.
Nos Estados Unidos, você escolhe a universidade”.


Mais Médicos


A polêmica que envolve o programa Mais Médicos, lançado em julho de 2013, também
é acompanhada pelos estudantes estrangeiros de universidades brasileiras. O
programa procura fixar médicos, brasileiros ou não, no interior e nas periferias
do País, para atender no SUS. A medida foi criticada pelas entidades médicas,
sob alegação de que a qualidade dos profissionais foi comprometida.


“Existe lá na Alemanha, como aqui no Brasil, a ideia xenofóbica de que os
estrangeiros vêm e “roubam” os empregos. No fim, os cubanos e os outros
estrangeiros do Mais Médicos só podem ir onde o (médico) brasileiro formado não
quer”, afirma Johannes. A seleção e ocupação de vagas, de acordo com o edital,
deu prioridade a médicos formados no Brasil ou com diploma revalidado. Em
seguida, foi aberto aos médicos brasileiros formados no exterior e, então, a
estrangeiros graduados.


Já o haitiano Louis acredita que o problema não seja a vontade dos médicos
brasileiros, e sim a falta de infraestrutura que o sistema público oferece –
principalmente em cidades do interior. “Antes de trazer médicos, deveria haver
investimento”, defende. No entanto, repudia qualquer manifestação preconceituosa
contra profissionais estrangeiros, sobretudo aos cubanos, que apresentam
“medicina de boa qualidade” na sua visão.


As primeiras reações de alguns médicos, para Johannes, foi irracional. Em
agosto, estrangeiros em treinamento – entre eles, 79 cubanos – foram
hostilizados na cerimônia de abertura do programa em Fortaleza. Os profissionais
teriam sido chamados de escravos e incompetentes. “Isso mostra uma ignorância
muito grande. É incompreensível que isso aconteça entre trabalhadores vindos de
classes tão privilegiadas e com acesso a informações sobre escravidão e racismo
históricas e atuais”, diz.


A “incompetência” é alegada por críticos diante da permissão aos médicos de
outros países de participarem do programa sem revalidação do diploma no Brasil,
ou seja, à margem do atual processo, o Revalida. Em vez da prova, há uma
avaliação distinta, que gera registro provisório para atuação somente no Mais
Médicos.


E se o Mais Médicos fosse lá?


De acordo com Johannes, há temor de que faltem médicos nos lugares mais
afastados da Alemanha nos próximos anos. Ainda assim, por enquanto, acredita que
um programa parecido com o Mais Médicos não é necessário.


O estudante lembra, porém, de ouvir ex-colegas alemães duvidarem da qualidade de
ensino no Brasil, mesmo sem o conhecer. “As classes de médicos, em todos os
países, pensam ser muito especiais. Além disso, nos países chamados
desenvolvidos, há ainda um pouco mais de arrogância”, observa.


Para Daniel, os estadunidenses estão acostumados com a presença de médicos
estrangeiros nos hospitais. “Você entra, vê médicos indianos. É muito comum”.
Ainda assim, no final de 2013, médicos imigrantes relataram dificuldades para
obter autorização para atuar no Estado americano. Como justificativa, o sistema
de licenciamento estaria assegurando a satisfação dos critérios do setor e
evitando a “fuga de cérebros” de países mais pobres.


No Haiti, Louis conta que já há uma parceria com Cuba desde 1998, que se
intensificou a partir do terremoto de 2010. Médicos cubanos exercem a profissão
no país, e o pagamento é feito entre os governos. Além disso, também há formação
de estudantes haitianos em Cuba.“No Haiti, não houve polêmica. Foi um alívio”.

Categorias: Medicina

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