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Folha de São Paulo, Mercado, SEGUNDA-FEIRA, 21 DE JULHO DE 2014

MERCADO ABERTO

MARIA CRISTINA FRIAS
– 
cristina.frias@uol.com.br

Gestão feminina na saúde

Cresce a
participação de mulheres no comando de hospitais, sobretudo na área pública

Se nas empresas a
presença de mulheres no primeiro escalão ainda é rara, na área hospitalar ela
começa a se intensificar.

Em São Paulo,
instituições públicas como o Hospital das Clínicas, o Instituto do Câncer e o
Conjunto Hospitalar do Mandaqui são comandadas por médicas. A Rede Sarah, de
Brasília, também tem uma mulher à frente.

São gestoras que, em
geral, ingressaram após concurso e foram galgando posições.

"Avançamos, mas é uma
conquista, o processo é lento demais", diz Eloisa Bonfá, do HC. "Foi uma luta.
Entrei na gestão em 1994, convidada para ser diretora de ambulatório", afirma
Magali Proença, do Mandaqui.

No setor privado, o
Beneficência Portuguesa tem a sua primeira CEO. Einstein e Sírio-Libanês não têm
médicas em cargos de direção, segundo informaram.

CHAMADA MÉDICA

A médica Eloisa Bonfá
foi a primeira mulher a se tornar diretora do Hospital das Clínicas, complexo
que completou 70 anos em 2014.

Antes, ela havia sido
a primeira a se tornar chefe de departamento, em 2004, e a terceira professora
titular da Faculdade de Medicina da USP, em 1998.

No HC, coordena mais
de 20 mil colaboradores, 3.905 médicos e 1.345 residentes.

"A academia [a
instituição é ligada à Medicina da USP] já trabalha com meritocracia, o que
ajuda na questão de gênero."

Não sentiu
dificuldades nem acredita ter sido preterida por ser mulher.

Apenas ouviu
brincadeiras, como "você deu certo porque é uma mulher com coração de homem".

Em razão da
maternidade, na teoria, a mulher cederia lugar, diz. Muitas adiam a formação em
gestão.

"É possível que
existam mais homens médicos com essa qualificação", afirma, como um dos motivos
para o fato de a questão de gênero ser ultrapassada de forma mais rápida em
instituições públicas (especialmente ligadas a faculdades) do que nas
particulares.

Bonfá teve três
filhos. "Dá para conciliar, mas, quando as crianças eram pequenas, fiquei mais
no departamento de reumatologia do que na gestão, que consome muito mais."

Ainda hoje, ela
atende no ambulatório e faz consultas. "É importante para saber se as medidas
adotadas estão chegando na ponta."

A diretora clínica
ressalta a importância de conhecimentos em administração.

"Há na gestão pública
um espaço imenso para melhorar os fluxos. É importante integrar, motivar, e
precisa de liderança", diz com a voz pausada. "Sendo chamadas, as pessoas
participam."

Foi o que ocorreu com
ela. "Era chamada e ia ficando", afirma, sobre o ingresso na gestão. "Não havia
a exigência de formação na área."

Melhorias e inovações
atuais do HC foram feitas por duas médicas gestoras, que atuam com Bonfá. "Eu as
escolhi por competência, não por serem mulheres."

Bonfá se prepara para
suprir a lacuna de formação. A partir de 2015, todos do conselho deliberativo da
faculdade farão um curso, em parceria com a FGV, de administração hospitalar.

São cerca de 14
membros –só duas são mulheres.

ESTETOSCÓPIO E
PLANILHA

"Levei dez anos para
ter certeza de que havia feito a escolha certa", diz Marisa Madi,
diretora-executiva do Icesp (Instituto do Câncer do Estado de São Paulo Octavio
Frias de Oliveira).

Foi difícil para ela
decidir entre a carreira médica e a de gestora.

Madi é uma das três
mulheres que comandam institutos ligados ao Hospital das Clínicas e à Faculdade
de Medicina da Universidade de São Paulo.

As outras duas são
Lucila Pedroso, diretora-executiva do Instituto Central, e Mariana Nutti, que
lidera o Instituto da Criança.

No total, a entidade
tem oito institutos, além de dois hospitais auxiliares.

Após o vestibular
para medicina na Unifesp, e ao longo curso, seu pai, que era médico, não
entendia o que ela fazia na residência médica na Proahsa (programa de estudos em
administração hospitalar em parceria entre USP e FGV).

"Planilhas?",
perguntava ele. Madi chegou a cogitar especializar-se em pediatria ou
obstetrícia.

"Mas eu tinha uma
veia para a questão social e de organização. Hoje, consigo um alcance maior",
afirma.

"Fiz a opção por
gestão cedo e, se alguém tiver em dúvida, tente, que vale a pena", salienta a
diretora.

ENGENHARIA INTERNA

Sem nenhuma
experiência na área de saúde, Denise Santos entrou no Hospital e Maternidade São
Luiz em 2009 já como presidente. Formada em engenharia elétrica, havia passado
principalmente por empresas de tecnologia.

Recrutada por um head
hunter, acredita ter chegado ao hospital "por já ter passado por mudanças
intensas [em outros trabalhos], por liderar de uma forma muito próxima às
pessoas e por ter experiência com processos."

Após preparar o
Hospital São Luiz para ser vendido para a Rede D”Or, ela precisou tirar uma
quarentena do setor.

Há um ano e três
meses, a executiva está à frente dos três hospitais da Beneficência Portuguesa,
que juntos somam 1.100 leitos e atendem 1,5 milhão de pacientes ao ano.

São cerca de 2.500
médicos sob seu comando.

NA REGÊNCIA DO
HOSPITAL

Da música para o
cargo de presidente da principal instituição hospitalar de reabilitação do país
foi a trajetória percorrida por Lucia Braga, que comanda a Rede Sarah.

Formada em música e
psicologia pela UNB, Braga entrou ainda estudante no hospital para desenvolver
um projeto de pesquisa.

Em seguida, foi
contratada pela instituição e depois chamada para coordenar um setor de lesão
cerebral (área em que concentra os seus estudos).

Há 36 anos
trabalhando no mesmo local, a presidente é hoje responsável por comandar
aproximadamente 6.000 funcionários e dez unidades hospitalares.

"Sempre ouvi muito as
pessoas e gosto de uma gestão com mais participação [de outros funcionários]",
afirma Braga.

No alto escalão da
rede, atuam outras duas mulheres (diretoras) e um homem (vice-presidente).

com LUCIANA DYNIEWICZ, LEANDRO MARTINS e ISADORA SPADONI​


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