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Revista Isto É,
COMPORTAMENTO,
|  N° Edição:  2338 |  12.Set.14 – 20:00 |  Atualizado em 15.Set.14 –
12:22

Formação médica em xeque


Nos últimos quatro anos
foram abertos 62 novos cursos de medicina no País, mas 30% deles têm
deficiências, como falta de hospitais universitários, laboratórios e professores

Fabíola
Perez (fabiola.perez@istoe.com.br)


O Brasil possui dois
médicos para cada mil habitantes, índice pouco abaixo da média recomendada
internacionalmente e ainda distante da de países desenvolvidos. Para contar com
mais profissionais, o governo criou o “Mais Médicos” e estimulou a criação de
cursos. Das 242 escolas de medicina, 62 foram inauguradas nos últimos quatro
anos. Nessa área, o País é o segundo colocado no ranking mundial, perdendo
apenas para a Índia, com 271 faculdades nessa área. Recentemente, foi anunciado
que 39 municípios devem receber novos cursos como parte do programa de expansão
do atendimento médico. No entanto, irregularidades como falta de laboratórios,
professores e hospitais de ensino também passaram a ser mais frequentes. Um
levantamento realizado pelo Conselho Federal de Medicina (CFM) revela que 30%
dessas novas instituições apresentam deficiências. “Uma faculdade de medicina
deveria ser criada somente se tivesse um hospital universitário, laboratórios de
pesquisa e um amplo quadro de docentes”, diz Lúcio Flávio Gonzaga Silva, do CFM.



RETRATO



Alunos da Universidade Estadual de Mato Grosso (acima) reivindicam melhorias no
curso. Abaixo, estudantes da Universidade Municipal de São Caetano do Sul, que
não possui hospital, e a Universidade Federal do Recôncavo da Bahia, que tem
apenas cinco professores


Não é o que está
acontecendo. Por isso, é preciso atentar para a qualidade da formação atual dos
médicos brasileiros. A oferta de vagas em faculdades particulares é a que mais
cresce. Dos 62 cursos criados no governo Dilma, 36 são privados. “São escolas
que têm dificuldade para implementar a proposta pedagógica, poucas estão
integradas ao sistema de saúde e não contam com professores com alta titulação”,
diz Mário César Scheffer, professor de medicina preventiva da Universidade de
São Paulo. O resultado do exame do Conselho Regional de Medicina (CRM) de São
Paulo mostrou que o índice de reprovação entre estudantes recém-formados de
escolas privadas em 2013 foi de 71%. O exame não impede o exercício da medicina,
mas serve de parâmetro para o nível do profissional que chega ao mercado.


No âmbito das escolas
públicas, também há problemas. O curso da Universidade Estadual de Mato Grosso
atravessa uma greve que já dura mais de um mês. O primeiro processo seletivo
ocorreu em agosto de 2012, mas até hoje os alunos não contam com prédio próprio,
itens para aulas de anatomia e biblioteca com títulos básicos. “Usamos materiais
emprestados do curso de enfermagem e ficamos sem professores em algumas
disciplinas”, diz o estudante Bruno Diniz. Situação ainda mais grave ocorre na
cidade de Santo Antonio de Jesus, no interior da Bahia. Inaugurado em dezembro
de 2013, o curso de medicina da Universidade Federal do Recôncavo da Bahia
possui apenas cinco professores. “Temos tido dificuldades para encontrar
profissionais que queiram trabalhar fora da capital”, diz Luciana Alaíde Alves
Santana, pró-reitora de graduação da faculdade. Embora novas instituições
estejam abrindo portas em municípios do interior – uma das maneiras de tentar
fixar os médicos onde há carência de profissionais –, uma boa infraestrutura é
fundamental. “Só haverá um aumento do acesso da população aos serviços de saúde
se os médicos formados nas novas escolas tiverem estrutura para trabalhar,
manter a família e disponibilidade de meios diagnósticos adequados”, explica
Wilson Catapani, professor da Faculdade de Medicina do ABC.


O Estado de São Paulo
concentra 41 escolas de medicina. Ainda assim, o Cremesp aponta fatores que
podem comprometer a qualidade de ensino nas instituições paulistas. “A maioria
das faculdades não possui hospitais universitários e acaba oferecendo um
treinamento inadequado”, diz Bráulio Luna Filho, presidente do Conselho. O curso
de medicina da Universidade Municipal de São Caetano do Sul, inaugurado em
fevereiro, é um deles, embora esteja inserido na rede de atenção básica de saúde
da cidade, onde os alunos realizam as atividades práticas. “Não precisamos de um
hospital de ensino. Quem deve gerenciar esses espaços são os gestores públicos”,
afirma José Lúcio Machado, gestor do curso. Hoje, a instituição possui 120
estudantes que pagam R$ 5,3 mil de mensalidade.


A última avaliação dos
cursos de medicina do Brasil, realizada pelo Ministério da Educação, foi
divulgada em 2010 e já indicava luz amarela: nenhuma instituição obteve a nota
máxima. O resultado do exame de 2014, referente ao último triênio, será
divulgado no final do ano. “É importante formar mais médicos, mas só
conseguiremos avaliar o impacto dessa expansão de cursos e da qualidade dos
novos profissionais no futuro”, diz Scheffer, da USP.

Categorias: Medicina

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