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Revista Isto É,
COMPORTAMENTO,
|  N° Edição:  2362 |  06.Mar.15 – 22:20 |

Sem vaga para os cubanos


Brasileiros ocupam mais
de 90% das inscrições na segunda fase do Mais Médicos e devem deixar pouco
espaço para os colegas estrangeiros. O que mudou para atrair os profissionais do
País para o programa?

Fabíola
Perez (fabiola.perez@istoe.com.br)


A médica Camila Freire
da Silva, 26 anos, caminha com desenvoltura e tranquilidade pela favela de
Paraisópolis, zona sul de São Paulo na terça-feira 3. Mas ainda se lembra do
choque que viveu há um ano e seis meses, quando saiu de Porto Velho, em
Rondônia, para atuar na Unidade Básica de Saúde da localidade paulistana. Camila
deixou a cidade-natal para se dedicar à saúde básica pelo programa do governo
federal Mais Médicos. Desde então, uma vez por semana, ela visita pacientes que
não podem se locomover e os atende em suas casas, acompanhada de uma agente de
saúde. A jovem foi selecionada quando a iniciativa sofria grande rejeição na
comunidade médica brasileira. “No começo, senti um pouco de preconceito por
parte dos colegas, mas as pessoas daqui me aceitaram muito bem”, diz. 



ESCOLHA



Com duas residências no currículo, Kátia Marquinis deixou a rede privada para
atender pacientes pelo programa


Diferentemente da
primeira fase, em 2013, que reuniu pouco mais de mil médicos brasileiros, o
segundo edital, lançado em janeiro, possui 92% das vagas preenchidas por
profissionais formados no País. “O Mais Médicos está mudando seu perfil e se
transformando em um programa de contratação de brasileiros”, diz Mário Scheffer,
coordenador do estudo Demografia Médica no Brasil e professor da Faculdade de
Medicina da Universidade de São Paulo. Segundo o Ministério da Saúde, das 4.146
vagas abertas este ano, 3.823 já foram preenchidas. “É muito provável que a
participação dos médicos estrangeiros diminua e eles passem a atuar apenas nos
rincões e aldeias indígenas”, afirmou à ISTOÉ o ministro da Saúde, Arthur
Chioro. Os cubanos só podem se inscrever numa terceira etapa, após os demais. Em
contrapartida, auditoria do Tribunal de Contas da União (TCU) constatou que 49%
das primeiras cidades que receberam a iniciativa dispensaram seus médicos quando
os bolsistas chegaram.


Um dos fatores que
contribuiu para despertar o interesse dos médicos brasileiros nesta nova fase
foi a integração com o Programa de Valorização da Atenção Básica (Provab),
iniciativa federal que já busca levar profissionais para regiões carentes e
concede aos participantes o benefício de 10% de pontuação em provas de
residência. “Os municípios não terão de aderir a dois programas diferentes e
contarão com uma maior quantidade de médicos atuando nos territórios”, afirma
Heider Pinto, secretário de Gestão do Trabalho e da Educação na Saúde do
Ministério da Saúde. Antes da unificação, os médicos inscritos no Provab atuavam
na região escolhida por apenas um ano – hoje os profissionais podem permanecer
por mais três. Para Scheffer, o bônus para a residência incentivou a adesão de
profissionais brasileiros. “No início, o Provab enfrentou dificuldade de
implantação nas universidades, mas hoje vem se mostrando uma política acertada”,
diz. Por outro lado, o especialista afirma que a falta de interesse dos médicos
em permanecer nas regiões inóspitas ainda é um problema a ser solucionado. “A
maioria ficará por conta do benefício, com isso poderá haver uma alta
rotatividade”, afirma.


O médico Danilo Lobo
Ramos, 30 anos, acabou se mudar para a cidade de Livramento de Nossa Senhora,
com 48 mil habitantes, na Chapada Diamantina, a 600 quilômetros de Salvador
(BA). Formado pela Universidade Federal da Bahia, ele se inscreveu na segunda
fase do Mais Médicos motivado pela bolsa e a oportunidade de especialização. A
nova rotina inclui viver em uma região sem sinal de celular, sem internet e
percorrer 48 quilômetros de estrada de terra diariamente até o posto de saúde em
que trabalha. “Meu primeiro dia de trabalho foi muito difícil, a população é
muito pobre, atendi muitas crianças desnutridas, vou ter um grande desafio pela
frente”, diz. O médico conta que decidiu abrir mão da residência para se dedicar
à medicina da família. “Atendemos cerca de 80% dos problemas da população e
criamos um vínculo com os pacientes, muito diferente das outras especialidades”,
afirma.


A meta do governo é que
o Brasil chegue a 2,7 médicos por mil habitantes até 2026. Atraída pelos
desafios da saúde comunitária, a médica Kátia Regina Marquinis, 40 anos, atua há
um ano e seis meses na Unidade Básica da Saúde Batistini, em São Bernardo do
Campo, São Paulo. Com uma experiência de 10 anos, residência em cardiologia e
oftalmologia no currículo, ela deixou a iniciativa privada para trabalhar no
Mais Médicos. Kátia atende uma média de 30 pacientes por dia, principalmente
casos de doenças crônicas, diabetes, hipertensão e transtornos mentais. “Comecei
a pensar que médicos não têm contato com as pessoas, não as chamam pelo nome”,
diz. “E às vezes, a conversa com o paciente é o melhor diagnóstico.” 

Categorias: Medicina

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