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Revista Veja, 13/06/20158

O médico é um individualista

Adriana Dias Lopes

Em
dezembro do próximo ano, o médico Cláudio Lottenberg terá completado quinze anos
à frente do Hospital Israelita Albert Einstein. Sob seu comando, a instituição
passou por transformações extraordinárias, tanto no âmbito comercial como no
social. O número de leitos quintuplicou, instaurou-se um dos maiores programas
de transplante hepático do pais, fizeram-se parcerias com hospitais públicos.
Neste ano, em que comemora seis décadas, o Einstein inaugurará uma faculdade de
medicina. Mas a marca principal de Lottenberg é outra. Aos 54 anos, ele se
revela um executivo de opiniões originais e corajosas. Entre suas defesas, o
programa Mais Médicos e o uso da fé na gestão do hospital. "A excelência do
hospital está profundamente ligada a seu DNA judaico", disse a VEJA.

O
senhor defende em seus discursos públicos o programa do governo federal Mais
Médicos. É postura contrária à da maioria dos gestores de saúde. Por que
acredita estar certo? O Mais Médicos é entendido em sua superficialidade, apenas
como a inserção de médicos cubanos. O programa é muito mais amplo. Ele prevê,
por exemplo, a capacitação de profissionais e a ampliação de vagas de medicina.
A importação dos cubanos seria feita compensatoriamente. caso os médicos
brasileiros não se interessassem em preencher as vagas ofertadas pelo governo
federal em locais distantes dos grandes centros. Mas aqui cabe ressaltar um
ponto paradoxal. Não há como negar os riscos no atendimento de médicos cubanos.
Esses profissionais têm de trabalhar com supervisão, e é possível que isso não
esteja ocorrendo. No entanto, os brasileiros que nunca tiveram ao menos uma
pessoa que os olhasse, que assistisse as suas aflições, estão muito felizes com
os médicos cubanos. Quem está certo, afinal? A realidade é nítida: sem esses
profissionais. inúmeros doentes de vários lugares do pais não teriam
absolutamente nada. Diante dessa necessidade urgente de médicos, a argumentação
contrária aos cubanos perde a força.

Mas o
profissional brasileiro conseguiria praticar uma boa medicina em cidades
distantes dos grandes centros? Não. Mas cabe a ele pressionar o Estado para
criar as condições. A classe médica estava muito acomodada até a chegada dos
profissionais cubanos. Sempre me pergunto: não fizemos o juramento de
Hipócrates? Muitos discutem salários. Poucos, a inserção social. Procuro essa
postura no Hospital Albert Einstein. Ninguém nos chamou para enviar ajuda aos
sobreviventes do terremoto ocorrido no Haiti em 2010. Chegamos ao pais antes da
Força Aérea Brasileira. Claro, o governo tem de criar condições de trabalho para
o médico. Assim como tem de pagar bem ao profissional e oferecer uma carreira.
Mas poucos davam atenção a essas questões até surgirem os médicos cubanos. Gosto
muito da seguinte frase: "As boas intenções morrem nas palavras".


Recentemente, médicos de hospitais públicos e privados foram acusados de operar
sem necessidade e usar próteses de segunda linha em troca de propina. Como
eliminar esse tipo de crime? A situação é dramática em qualquer lugar do mundo.
Nos Estados Unidos, por exemplo, foram desperdiçados 700 bilhões de dólares na
área da saúde só no ano de 2013. As duas principais causas do problema foram
definidas: 40% dos casos estavam associados à falta de protocolos médicos bem
estabelecidos; e 20%. a fraudes. O quadro é grave, não há dúvida quanto a isso.
Acredito, no entanto, que responsabilizar unicamente o médico não resolve muita
coisa. É apenas a ponta do iceberg. A indústria quer lucro a qualquer preço, a
fonte pagadora quer sempre encontrar uma forma de pagar menos, os médicos são
mal remunerados e o paciente quer ver seu problema resolvido. Não há um único
culpado de plantão, portanto.

0 que
faz o Albert Einstein para lidar com as ilegalidades? Tentamos nos blindar
contra a fraude por meio de várias frentes. Fazemos um cerco. Primeiro. os
médicos firmam um documento sobre conflito de interesses. Dessa forma, o
profissional sabe que está sendo observado internamente. Padronizamos a relação
com os fornecedores de próteses. Não aceitamos facilmente sugestões de
fabricantes sem antes estabelecer uma discussão interna consistente. Afastamos
fornecedores perante a mínima suspeita. Sei que posso perder alguns médicos por
causa dessa nossa postura. E estou convencido de que. apesar disso tudo.
condutas indevidas podem acontecer aqui dentro. Mas estamos atentos sempre.

0
Einstein deverá inaugurar ainda neste ano uma faculdade de medicina. Já não há
cursos de medicina em excesso no Brasil? Nossa faculdade não será apenas mais
uma no mercado. Ela formará um médico com virtudes hoje pouco lembradas no
universo acadêmico. Os educadores estão preparando médicos que podem ser
chamados de "técnicos de pessoas". O tecnicismo jamais substituirá a visão do
contexto de vida do paciente. Um dos principais desafios da nova faculdade,
portanto, será formar um médico com uma visão mais ampla de sua profissão. É
preciso gerenciar dúvidas, orientar e saber trabalhar com conceitos de economia
de saúde e protocolos bem estabelecidos. O profissional não pode tratar da
doença simplesmente. Mas cuidar das pessoas em toda a sua complexidade.

Há um
exagero no pedido de exames da parte dos médicos? Sim. Há uma quantidade imensa
de exames e práticas médicas desnecessários, e também exagerado uso de recursos
tecnológicos. O médico só conseguirá acabar com esse quadro, muito ruim, se
tiver uma visão organizada e protocolar de seus atos, além de, evidentemente,
ter uma visão ampla do doente. Insisto nessa questão. Vou citar um exemplo
recente que aconteceu no Albert Einstein. Há cerca de três anos. propus a
criação de um centro de segunda opinião em cirurgia de coluna. Nesse centro, os
médicos avaliam as queixas dos pacientes que já chegam com indicação cirúrgica.
São profissionais sem ligação com aqueles que fariam o procedimento cirúrgico.
Mais que isso: desenvolvemos protocolos e definimos padrões cirúrgicos. Ou seja.
criamos uma prática organizada de atendimento. O resultado foi surpreendente.
Apenas 40% dos pacientes que chegam ao hospital com indicação de cirurgia de
coluna são de fato submetidos ao procedimento. Evita-se o desperdício de tempo e
dinheiro.

Como
um hospital privado pode contribuir para melhorar a saúde pública? Em primeiro
lugar, sendo exemplo de qualidade em gestão. Repito aqui: sem protocolos de
condutas e tratamentos baseados em estudos sólidos não há como medir resultados
e, portanto, não há como melhorar. Nossa participação na saúde pública é também
na esfera prática. Temos o maior e mais bem aparelhado serviço de transplante de
fígado acessível aos


usuários do SUS. Mantemos uma ampla parceria com hospitais públicos municipais,
o Dr. Moysés Deutsch e, a partir deste mês. o Vila Santa Catarina. ambos em São
Paulo.

Como
anda a relação médico e paciente no Brasil? Precisa ser mais humanizada. Não se
trata de pegar na mão do doente nem de puxar a cadeira para ele se sentar. Uma
relação humanizada envolve diversos fatores, todos com um único objetivo — pôr o
paciente no centro das atenções, sempre e cada vez mais. É crucial lidar com o
doente a partir das suas fraquezas. E não é possível agir desse modo se o
profissional não admitir as próprias fragilidades. Chega de arrogância. O médico
é um individualista. Não divide informações. Em um passado não muito distante,
tal postura até era possível. O médico se bastava. Ele era único. Hoje é
praticamente impossível o profissional dominar todas as informações com o grande
avanço ocorrido na medicina. Veja o que aconteceu na minha área. No início as
pessoas me procuravam principalmente para trocar de óculos. Hoje, para tratar
das doenças que as fazem usar óculos e de outras tantas associadas ao
envelhecimento, como glaucoma, degeneração macular senil. Será que eu tenho
tempo e consigo ser perfeito em todos esses campos? Ou preciso de pessoas para
me ajudar a ser mais resolutivo?


poucos meses, o senhor sofreu uma cirurgia de catarata. Como se sentiu no papel
de paciente, justamente na área em que é especialista? Tive muita dificuldade em
lidar com a doença do início ao fim. Primeiro, relutei para aceitar que estava
com o problema de visão, mesmo sofrendo de um sintoma clássico. De repente, o
grau dos meus óculos de miopia começou rapidamente a aumentar. Quando um
paciente relata essa situação ao médico, o diagnóstico de catarata é
praticamente certeiro. Mas, como era comigo, criava desculpas, relutava. Até que
um dia minha visão de fato ficou comprometida e tive de aceitar o diagnóstico. A
partir daí foi outro dilema: a cirurgia. Passei a me lembrar de todas as
situações ruins que vivenciei em minha carreira, que foram raríssimas. O
procedimento é extremamente simples e seguro. Mas nada funcionava comigo. O mês
em que marquei a operação foi um dos mais sofridos da minha vida. Quando entrei
no centro cirúrgico, tive a sensação de estar entrando para outra vida. Cheguei
a pensar que ia morrer. E repito: como especialista no assunto, sei que isso não
acontece. Só me tranquilizei no dia seguinte, quando voltei a enxergar.

Os
médicos que passam por situação semelhante costumam mudar a postura com os
pacientes? Essa experiência mudou a minha vida pessoal e profissional. Não há
dúvida de que me tornei um médico muito melhor. Estou mais próximo dos meus
pacientes. Agora valorizo absolutamente todas as tristezas e angústias do
doente, mesmo sabendo que esses sentimentos não vão repercutir na doença em si.
Hoje me dedico com a mesma intensidade a discutir com o paciente sobre uma
simples aflição e um procedimento cirúrgico. Mas estar do outro lado da mesa do
consultório, digamos assim, e de um tipo de consultório tão familiar para mim,
me fez cuidar mais da minha saúde. Nos últimos seis meses emagreci 6 quilos,
voltei a praticar ginástica diariamente. Ganhei disposição. Sinto-me mais jovem.
Tenho ânimo para brincar com meus filhos.

A
imagem do Einstein está profundamente associada aos valores do judaísmo. Até que
ponto essa relação é decisiva para a qualidade do hospital? A excelência do
Albert Einstein está profundamente ligada ao seu DNA judaico. O judeu tem o
papel de questionar permanentemente tudo. O judeu sempre acha que tem de fazer
mais. Trata-se de um inconformismo sistemático. Isso para não falar do papel
primordial da fé na gestão desse hospital. Tenho aqui, evidentemente, as
melhores ferramentas da lógica e da ciência para comandar esse hospital. Mas me
dou ao luxo de usar a fé como instrumento de gestão fundamental. O que significa
acreditar naquilo que as pessoas acham que não vai dar certo. É acreditar em
coisas não tão tangíveis. Essa atitude é um fator fundamental na busca constante
da qualidade no Albert Einstein.

0
papa Francisco reconheceu o Estado da Palestina recentemente. 0 que o senhor
achou disso? Francisco é um homem que tem avançado sobre temas polêmicos que
ficaram parados por muito tempo. O Oriente Médio precisa encontrar uma solução
para o povo palestino. Acredito que esse reconhecimento não significa uma
negação do Estado de Israel. Mas de nada adianta tomar uma atitude se não houver
um desdobramento de caráter prático. Gostaria que o papa não parasse esse
movimento e usasse sua legitimidade para convencer o povo palestino de que, se
não reconhecer o povo de Israel, não será possível nenhum tipo de entendimento.
O papa tomou essa iniciativa positiva. Mas a partir de agora ele passa a ser um
dos protagonistas dessa história. Ele tem de exigir do povo palestino que aceite
também o Estado de Israel.

Categorias: Medicina

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