Nova pagina 3

REVISTA GESTÃO UNIVERSITÁRIA – 17/05/2016 – BELO HORIZONTE, MG

O MÉDICO E O PROFESSOR

DÊNIO MÁGNO DA CUNHA* 


momentos, como agora, em que me pergunto qual a diferença entre um médico e um
professor, entre Medicina e Educação. Tenho observado vários sintomas a
confirmarem a proximidade entre estas duas profissões, vitais para a saúde da
nossa sociedade. Uma a cuidar da saúde física, outra da saúde do conhecimento
humano e da sua aplicação correta.

Não
pela ordem, caro leitor, listo alguns dos indicadores dessa proximidade.

A)
Chamados em finais de semana. Alunos com o diagnóstico de faltas elevadas e
notas baixas enviam e-mails solicitando solução para seus problemas durante
finais de semana. Como um Pediatra, devo administrar a ansiedade dos pacientes,
mostrando-lhes pacientemente as possíveis soluções. Ainda bem que no ensino
superior as mães e pais mantem-se afastados – mas há quem defenda sua maior
participação também nesse estágio da vida dos alunos, protegendo-os de possíveis
traumas da vida adulta.

B)
Equipamentos para diagnóstico. Tenho visto cada vez mais, professores carregando
aparelhos em suas pastas, mochilas, malas (notebooks, caixas de som,
amplificadores e microfones). Em sala, fazem prescrições e orientações. Uns como
oftalmologistas, apontam para a tela e perguntam aos alunos se estão
compreendendo e entendendo o que veem/leem. Outros passam fórmulas no quadro, em
letra miúda e de difícil compreensão. Nesta hora, alunos concentrados, em
silêncio, correm contra o tempo para copiar o quadro, que será apagado em
instantes.

C)
Cuidando de problemas com saneamento básico. O médico deve cuidar de pacientes
com doenças causadas por falta de saneamento básico. Diante de alunos
diagnosticados com ausência de conhecimentos em língua pátria, gramática,
matemática, oratória, comunicação e expressão, professores se reúnem em
Seminários, Congressos. Na hora do intervalo e nos encontros de lazer, buscam
incansavelmente por tratamentos para a falta de educação do aluno. Normalmente,
a indicação é a melhoria das condições básicas da educação. É endêmica e
considerada uma doença a qualidade da educação básica no País.

D)
Pesquisa por novos métodos de diagnóstico e tratamento. Assim como na medicina,
na educação há uma busca nervosa por melhores metodologias de
ensino-aprendizagem, numa corrida científica por aquela que derrubará os muros
da ignorância. Novas técnicas são desenvolvidas em centros de excelência ou em
experimentos alternativos que prometem a aprendizagem quase que instantânea,
desde que os tratamentos (metodologias) sejam seguidos à risca. Não posso deixar
de lembrar que tal qual na medicina, as técnicas alternativas prometem uma
aprendizagem natural e sem dor. Medicina e Educação correm atrás da panaceia.

E)
Deuses. Médicos, dizem, se julgam Deuses, com capacidade e conhecimento para
solucionarem todos os males do mundo. Professores, idem. Acham que está na
educação a solução de todos os males. Ambos os heróis de uma causa: a construção
de um mundo melhor. Partilhamos o mito de Sísifo. Esquecemos que, tanto a saúde
quanto a aprendizagem, é direito, vontade e responsabilidade do outro (paciente
ou aluno). Nós, médicos e professores, temos somente a palavra como instrumento
de convencimento. Não temos o poder sobre a vontade alheia; esquecemo-nos do
livre arbítrio, da escolha. Não somos Deuses.

Aviso
aos leitores: este texto é apenas resultado de um insight mental depois de
palavras trocadas com professores a respeito de novas metodologias de
ensino-aprendizagem e sua aplicação em sala de aula. Fiquei impressionado com a
busca insana por um “jeito” de ensinar que nos garanta que o aluno aprendeu e a
busca por novas técnicas/procedimentos. Fico também impressionado como cada uma
dessas novas tecnologias nos parecem ser a solução definitiva. Embora este texto
não tenha pretensões diagnósticas, me parece que estamos incorrendo num enorme
erro se continuamos caminhando nesta direção, esquecendo-nos – tanto na medicina
quanto na educação – do objeto primeiro de nosso trabalho.

No
caso da educação, incomoda muito o sentido dado por Richard Sennet em dois de
seus livros, cujos títulos per si provocam desejos utópicos: “O Artifice” e
“Juntos”. Penso ser essa a solução para nossos impasses: estabelecer uma relação
de mestre e aprendiz com nossos alunos e construir com eles o conhecimento:
juntos. Utopia por um lado: como estabelecer essa conexão em turmas de 60
alunos? Panaceia por outro: a questão da aprendizagem é, sobretudo um ato de
vontade de quem busca e não somente de quem trás. Seja o que for, enquanto
caminharmos na direção de uma solução que seja massiva, e não individualizada,
estaremos longe do paraíso perdido.


Portanto colegas professores, para o bem geral da saúde de todos nós, relaxem em
vossa ânsia de salvar o mundo e resolver as questões do ensino básico.


Finalmente um esclarecimento: a comparação médico-professor é meramente
figurativa.

* Professor: MBA Carta Consulta. Una/Unatec. Doutorando
Universidade de Sorocaba.


1 comentário

Os comentários estão fechados.

× clique aqui e fale conosco pelo whatsapp