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O Estado de S.Paulo, 05 Fevereiro 2017 | 03h00

Procura por concursos públicos cresce até 30%


Falta de empregos na iniciativa privada leva mais brasileiros para cursos
preparatórios em momento de poucas vagas abertas no setor público

Douglas Gavras

Caroline Santos, de
28 anos, hoje corre do emprego em um escritório de advocacia, em São Paulo, para
uma maratona de aulas noturnas preparatórias para a carreira de procuradora
pública. No mês que vem, tudo vai mudar. Ela vai colocar em prática seu plano de
largar o emprego e se dedicar a uma rotina de 12 horas por dia de estudo.

“Sempre fui muito
preocupada com o futuro. Quando me formei em direito e fui trabalhar em uma
empresa, percebi que a rotina estafante de dedicação, sem garantia de emprego,
não era o que eu queria. Quero um trabalho que me complete, mas que não me
sufoque”, diz. 

Porto seguro em
tempos de crise, o emprego público atrai um número cada vez maior de
brasileiros. A quantidade de alunos em escolas preparatórias cresceu até 30% em
2016 em todo o Brasil, segundo cursinhos. A queda nas vagas ofertadas em
concursos no ano passado, porém, é estimada em 20%.

Até novembro, foram
aplicadas 17 mil provas em todo o País, segundo dados da PCI, que reúne
informações de concursos. Em 2015, foram 19 mil.

A paulista Pamela
Passos da Silva, de 24 anos, sentiu a recessão na pele. Perdeu o emprego de
auxiliar administrativa em uma empresa e teve de parar a faculdade e o cursinho
preparatório para o concurso de auxiliar de necropsia, da Polícia Civil, seu
objetivo há quatro anos. 

Ela agora estuda
por conta própria para a seleção e aceitou uma vaga em um frigorífico, mesmo com
um salário menor, para concluir os estudos. “A concorrência é grande e não há
editais previstos, já que o governo barrou concursos, mas ainda tenho
expectativas.”

O emprego público
tornou-se alvo das medidas de austeridade anunciadas por União e Estados. Ainda
que atraia muitos brasileiros que perderam espaço na iniciativa privada, o mundo
“cor-de-rosa” da carreira de servidor, em partes, desbotou.

Para o economista
José Pastore, além de menos vagas e editais, as carreiras públicas devem ter
falta de reajuste e os salários ficarão defasados nos próximos anos. O cenário
só deve se reverter em cerca de cinco anos, desde que puxado pela retomada do
setor privado e consequente alta da arrecadação.

“É natural que, ao
perder o emprego, o brasileiro corra para estudar para um concurso. Mas,
atualmente, muitas vagas que surgiram com a aposentadoria ou morte de servidores
não são preenchidas. O candidato é aprovado e o órgão não tem verba para
contratá-lo, o famoso ‘passei, mas não fui chamado’, ou nem é autorizado a
promover novas seleções.”

“O quadro fiscal
atual no Brasil não é nada favorável para a ampliação de empregos no setor
público”, diz Helio Zylberstajn, professor da USP. “Alguns Estados têm lutado
para pagar salários, e o aumento do quadro de servidores ficou mais improvável
em um futuro próximo.” 

“Quem pensa em
concursos sabe que a preparação pode ser longa, de no mínimo dois anos. Mas a
crise vai passar. Se agora o governo evita abrir concursos, terá de suprir a
demanda no futuro, com novos editais”, diz Marco Antonio Araújo Júnior, da
Damásio Educacional e da Anpac, associação de proteção ao concurso público.

Múltipla
escolha.
 Há,
ainda, os candidatos que não perderam o emprego, mas sempre se interessaram por
um cargo público. O médico Diógenes da Silva, de 33 anos, é um deles. Ele tenta
uma vaga para o Itamaraty e estima investir cerca de R$ 4 mil por mês, entre
livros, apostilas e o cursinho. “Quando não estou de plantão, estudo de seis a
oito horas por dia.”

Para quem quer uma
vaga pública, uma dica é se preparar para carreiras do Judiciário e para aquelas
ligadas à área fiscal, diz Paulo Vicente Alves, da Fundação Dom Cabral. “A área
fiscal deve continuar contratando, até pela necessidade que o governo tem de
aumentar a receita e fazer a arrecadação andar.”



‘Foi chance de recomeçar’, diz aprovado em concurso aos 59 anos

Pedro
Moura Filho, de 59 anos, nunca tinha pensado em ser funcionário público – até
ter de deixar a loja de móveis sob medida, onde era vendedor, que não escapou da
perda de clientes. “Eu ganhava por comissão. Até tentei ser corretor de imóveis,
mas também não tinha quem quisesse comprar. O mercado parou, minha situação
financeira estava no buraco e não tinha condições de manter as contas em dia. Eu
já tinha desistido. Minha filha caçula acabou tendo de segurar as pontas em
casa, por um tempo.”

Sem perspectivas de
conseguir uma boa colocação na iniciativa privada, ele arriscou: pegou dicas de
apostilas com as filhas, assistiu a videoaulas na internet, separou oito horas
por dia para estudar. “Sempre incentivei muito as minhas filhas a prestarem
concursos. Uma delas também foi aprovada, para uma vaga no Departamento Nacional
de Infraestrutura de Transportes (Dnit).” 

Com o
desaquecimento do mercado de trabalho e a baixa perspectiva de recolocação dos
trabalhadores maiores de 50 anos na iniciativa privada, a carreira pública se
apresentou como a melhor opção para Moura Filho, até para garantir sua
aposentadoria, em alguns anos.

“Fiquei bem
desanimado no começo, eram 35 anos sem pegar nos livros, concorrendo com uma
garotada, que já sai da faculdade de olho nos editais de concursos públicos,
principalmente aqui em Brasília.” 

No fim do ano
passado, após dois anos de estudos e de um período como funcionário temporário
do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), ele foi chamado para
uma vaga de agente administrativo no Ministério do Trabalho, posição de nível
médio e com salário inicial de R$ 3,4 mil. 

“Foi minha chance
de recomeçar. O plano agora é continuar tentando outros concursos e começar uma
faculdade neste semestre, de teologia, para escrever um livro e poder concorrer
a vagas com remuneração maior. O salário atual não é grande, mas é seguro – era
tudo o que eu precisava agora.” 


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