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19/07/2017 06h01  Atualizado
19/07/2017

Tendência dos cursos de medicina é integrar disciplinas e oferecer visão
global


Diretrizes curriculares de 2014 passaram a exigir pelo menos 760 horas de
prática no SUS, e que cursos façam o estudante “corresponsabilizar-se pela
própria formação inicial, continuada e em serviço”.

Por Ana Carolina Moreno, G1



Médicos formados com base na soma de habilidades profissionais e valores éticos:
é com esse objetivo que os cursos de graduação em medicina têm caminhado para
uma reforma no currículo, privilegiando o ensino de competências baseadas na
prática e na "autonomia intelectual" dos futuros profissionais. De acordo com o
nefrologista e clínico geral Henry Campos, que é reitor da Universidade Federal
do Ceará (UFC), a maioria dos currículos mais modernos e contemporâneos, do
Brasil e em outras partes do mundo, tem sido inspirada no conceito de
integralidade.



"Antigamente, o que acontecia? A formação era muito fragmentada. Você estava
fazendo às vezes a anatomia do pescoço e a fisiologia do pulmão", explicou ele,
em entrevista ao G1.
"Hoje isso tudo é feito de maneira integrada."



De acordo com o reitor da UFC, atualmente há várias formas de estruturar um
curso de graduação em medicina no Brasil. "Os cursos podem ser organizados por
sistemas: o sistema cardiovascular, sistema digestório, respiratório… Eles
podem ser organizados por ciclos de vida: infância e adolescência, adulto,
questões ligadas ao envelhecimento. E podem ter uma combinação de tudo isso",
explica ele.



"O que se busca hoje é facilitar a construção do conhecimento de uma maneira
integrada e já aplicada à realidade que o aluno vai vivenciar."
(Henry Campos, reitor da UFC)



Ética, comunidade e autonomia intelectual



Em 2014, as Diretrizes Curriculares Nacionais do curso de medicina foram
reformuladas pelo Ministério da Educação e pelo Conselho Nacional de Educação
(CNE). Veja abaixo quais são as três principais competências esperadas
atualmente dos estudantes formados na graduação:


·                  


Atenção à saúde: 
"considerar
sempre as dimensões da diversidade biológica, subjetiva, étnico-racial, de
gênero, orientação sexual, socioeconômica, política, ambiental, cultural, ética
e demais aspectos que compõem o espectro da diversidade humana que singularizam
cada pessoa ou cada grupo social"


·                  


Gestão em saúde:
 "compreender
os princípios, diretrizes e políticas do sistema de saúde, e participar de ações
de gerenciamento e administração para promover o bem estar da comunidade"


·                  


Educação em saúde:
 "corresponsabilizar-se
pela própria formação inicial, continuada e em serviço, autonomia intelectual,
responsabilidade social, ao tempo em que se compromete com a formação das
futuras gerações de profissionais de saúde, e o estímulo à mobilidade acadêmica
e profissional"



Dentro da cada uma delas, há uma série de objetivos e habilidades previstas nas
diretrizes, como "acesso universal e equidade como direito à cidadania, sem
privilégios nem preconceitos de qualquer espécie".




Prática aliada à teoria: estudantes de graduação da Faculdade de Ciências
Médicas da Santa Casa de São Paulo durante atendimento à comunidade do bairro em
que estudam, em abril de 2017 (Foto: Divulgação/FCMSCSP/Daiane de Andrade
Oliveira)



Seis anos de graduação



As diretrizes atuais mantiveram uma característica da carreira: ela exige muitos
e muitos anos de dedicação. A carga horária mínima para a graduação em medicina
é de 7.200 horas, que devem ser cumpridas em um prazo mínimo de seis anos. O
conteúdo dos cursos precisa ser estruturado segundo "as necessidades de saúde
dos indivíduos e das populações identificadas pelo setor saúde".



De acordo com Henry Campos, essa nove estrutura deve "facilitar a construção do
conhecimento" por meio de metodologias como os laboratórios de habilidades.
"Você trabalha com simulações, manequins, peças do corpo humano, para praticar
exame ginecológico, exame de mama, procedimentos médicos. Hoje não é mais
aceitável que, quando o estudante chegue para o encontro clínico, ele já não
domine bem essas habilidades. Hoje se usa bastante o recurso tecnológico na
formação para a aquisição dessas habilidades."




Na Faculdade de Medicina da USP, bonecos são usados em simulações pelos
estudantes de graduação (Foto: Divulgação/FMUSP)



Outra opção de ensino é por meio da reprodução de situações clínicas, contando
com a ajuda de pacientes padronizados, que são atores representando pacientes em
determinada situação.



"Hoje o conceito de disciplina está cada vez mais abandonado. A tendência é não
mais segmentar, separar. Quando você vai ver um doente, você não vê o doente por
pedaço, você vê o doente como um todo, é a visão holística do paciente", afirmou
o professor.



Internato obrigatório



Essa nova tendência do ensino e formação de médicos no Brasil começou a ser
debatida em 2013, com o anúncio da criação de um estágio obrigatório dos
estudantes no Sistema Único de Saúde (SUS). A ideia original do governo federal
era que o período de graduação fosse ampliado. Porém, quando as diretrizes
saíram do papel, elas mantiveram a carga horária original da graduação, e
remanejaram o número de horas que o estágio no SUS ocuparia dentro do período de
internato que já existia.



Do total da carga horária, pelo menos 35% deve ser cumprida em no mínimo dois
anos, com o período de estágio obrigatório, que é feito no regimo de internato.
Isso quer dizer que todos os estudantes de medicina precisam obrigatoriamente
passar pelo menos 2.520 horas da graduação em atividades práticas de internato
supervisionado por professores.


Graduação em medicina:
teoria e prática


Das 7.200 horas mínimas
dos cursos de medicina, pelo menos 35% delas precisam ser usadas no internato

Horas em aulas e
laboratórios: 4.680Horas de internato: 2.520

Fonte: CNE/Diretrizes
curriculares dos cursos de medicina



As regras também definem a carga hora de cada área do estágio: pelo menos 30% do
internato, ou cerca de 760 horas, são destinados à prática no SUS, nas áreas de
atenção básica e de serviços de urgência e emergência. Antes de 2014, as
diretrizes que estavam em vigor previam os mesmos 35% de carga horária da
graduação dedicada ao internato, mas não exigiam que a passagem do estudante
pelo SUS fosse obrigatória ou ocupasse uma parte tão grande do período de
estágio.



Os demais 70% do internato, que somam aproximadamente 1.760 horas, são
destinados ao estágio nas áreas de clínica médica, cirurgia,
ginecologia-obstetrícia, pediatria, saúde coletiva e saúde mental. Não existe
carga horária mínima para essas áreas, mas o estágio não pode passar de 20% da
carga horária total do internato.


Divisão da carga horária
do internato


Das 2.520 horas mínimas
de internato, pelo menos 30% devem ser dedicadas à prática no SUS

Horas aproximadas de
internato no SUS: 760Horas aproximadas de internato nas demais áreas: 1.760

Fonte: CNE/Diretrizes
curriculares dos cursos de medicina



Ligas médicas



É também durante a graduação que os futuros médicos começam a decidir que
especialização vão seguir. Segundo Miller Barreto, que tem 29 anos, se formou na
graduação pela UFC, em Fortaleza, e atualmente está no último semestre da
residência em cirurgia do aparelho digestivo na USP, há estudantes que já entram
na faculdade sabendo em que área vão se especializar, mas todos são obrigados a
passar pelas matérias de todas as áreas clínicas.



“É uma coisa que parte muito do aluno. Tem gente que no primeiro dia de aula já
dizia que iria ser oftalmologista, mas é uma cadeira que a gente via só no
quarto ano", afirma ele. De acordo com o cirurgião, nesses casos, em geral, o
que acontece é a influência dos pais ou parentes que já são especialistas na
área.



Miller lembra que, no seu caso, sua primeira intuição foi seguir a área de
cirurgia. Mas, depois da residência em clínica geral, que durou dois anos, ele
disse que decidiu fazer uma segunda residência em cirurgia do aparelho digestivo
depois de se interessar pelas aulas de anatomia do sistema digestivo. Em
seguida, ele seguiu um caminho comum aos estudantes: entrou para a liga dessa
área.



"Entrei na liga de cirurgia, convidavam a gente para visitar outros hospitais da
cidade, acompanhar cirurgias. A área foi me envolvendo, fui criando gosto,
acompanhando alguns cirurgiões de Fortaleza no horário livre, porque eles me
chamavam. Automaticamente você vai criando gosto pela coisa", diz ele. As ligas
médicas fazem parte de atividades extracurriculares do curso de graduação, e
servem para que os estudantes entrem em contato mais próximo de cada
especialidade, para descobrir se querem, depois, dedicar os anos de residência
perseguindo uma especialização na área.

Categorias: Medicina

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