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ESTADÃO CONTEÚDO – UOL EDUCAÇÃO – 10/10/2017 – SÃO PAULO, SP

Professora da USP aponta
desafios para humanização na formação de médicos

JÚLIA MARQUES

Humanizar a formação dos
médicos demanda expandir o olhar para o novo lugar do paciente. É o que defende
a professora da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (FMUSP)
Izabel Rios. `Ele não está aí para obedecer o que um médico diz que ele tem de
fazer. Esse protagonismo do paciente tensiona a escola médica.`

Para ela, os desafios
vão desde a formação de professores até a prática nos hospitais, com integração
entre alunos de diferentes áreas e até entre funcionários que não estão ligados
diretamente à saúde. `A humanização tem de começar da porta, no momento em que
se chega ao hospital`, diz a professora, que coordena o Núcleo Técnico e
Científico de Humanização do Hospital das Clínicas da USP e o Grupo de Trabalho
de Humanização da FMUSP.Veja trechos da entrevista de Izabel à reportagem.

Quais os principais
desafios para a humanização da formação dos médicos?

A gente já sabe que
precisa trabalhar com os conceitos, as atitudes e valores da humanização. A
questão é como. A escola médica vem de uma tradição muito tecnicista. Está
ancorada nessa tradição de uma ciência que tirou do seu foco os aspectos
humanísticos que a sociedade quer que o médico esteja atento. Mudou o lugar do
paciente. Ele não é um sujeito que recebe uma ação, ele atua junto com o médico.
E não está aí para obedecer o que um médico ou profissional da saúde diz que ele
tem de fazer. Esse protagonismo do paciente tensiona a escola médica. E a escola
vem tentando responder a isso inserindo conteúdos humanísticos na formação.

Quais os caminhos para
uma formação mais humana?

Primeiro, é preciso
professores capacitados, conscientes e dispostos a trabalhar isso. O desafio é
envolver todas as pessoas no conceito novo de cuidado humanizado. É algo que a
faculdade (de Medicina da Universidade de São Paulo) está tentando fazer com o
currículo novo (leia mais nessa página). Teria de capilarizar a ideia do cuidado
humanizado em todas as disciplinas. O outro desafio é que, para desenvolver uma
atenção humanizada, precisa de serviços humanizados. A gestão tem de ser atenta
às necessidades de acolhimento, de gestão participativa. A humanização tem de
começar da porta, no momento em que se chega ao hospital. Uma atitude de
acolhimento no porteiro, no recepcionista e em todos os momentos em que a pessoa
estiver sendo atendida.

De que modo a integração
entre profissionais poderia ser estimulada na graduação?

É muito mais uma questão
de atitude nas escolas. Hoje não dá mais para pensar no cuidado à saúde sem a
interdisciplinaridade. Temos de ter a conjunção de saberes porque as situações
de saúde e doenças são muito complexas. No ensino superior, ninguém fala com
ninguém. Formam todo mundo e depois põem para trabalhar junto dentro hospital. O
Hospital das Clínicas, por exemplo, é o campo de treinamento entre médicos,
enfermeiros, fonoaudiólogos, fisioterapeutas. É onde a interdisciplinaridade faz
sentido. Pode todo mundo ter suas aulas na faculdade, aprendendo bem o seu
campo. Mas, depois, quando vai para o hospital, começa a discutir o caso todo
mundo junto. O aluno tem de ir para o campo de prática desde o primeiro ano e
desde então é possível fazer discussões de caso clínico juntando alunos de
diversas áreas. A dificuldade tem a ver com não se buscar uma estratégia
educacional de integração.

Estudantes e professores
reconhecem a importância da formação humanizada?

O assunto divide
opiniões. Temos desde professores que entendem que essas competências para o
cuidado humanizado são aspectos que devem ser desenvolvidos, e estão dispostos,
como professores que vão dizer que isso é de berço e que não precisa
desenvolver. Toda a literatura hoje é contrária a esse segundo posicionamento.
Vários estudos mostram que comunicação e empatia se desenvolve e acolhimento é
uma atitude que se constrói e que precisa, sim, desse desenvolvimento.

Formações de pós
preenchem certas lacunas da graduação que ainda não foram alcançadas?

Em cursos de
especialização (lato sensu), as experiências são positivas. Mas o sensu stricto
(mestrado e doutorado) ainda patina. Nos programas de pós-graduação na USP é
difícil de achar algum que dê atenção a essa tema. Isso acaba entrando mais por
uma disposição do orientador.

As informações são do
jornal O Estado de S. Paulo.

Categorias: Medicina

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