Portal G1, https://g1.globo.com/ciencia-e-saude/noticia/2018/10/02/morte-e-vida-os-relatos-de-profissionais-que-lidam-diariamente-com-perdas.ghtml,
02/10/2018

Morte e
vida: os relatos de profissionais que lidam diariamente com perdas

Evento em São Paulo
reuniu médicos,
psicólogos e mais profissionais que cuidam de pessoas no fim
da vida.

Por Tatiana Regadas, G1

Cuidado
no fim da vida: como as perdas impactam os profissionais? —
Foto: Pixabay

Em
uma
sala de uma rua calma no bairro de Pinheiros, Zona Oeste de
São Paulo, um grupo
se reúne para falar de morte, dor e alegria.

O
encontro faz parte do evento
“Inspirações sobre vida e
morte”, que durante uma
semana ofereceu programações diversas voltadas
para uma
discussão indigesta para o
brasileiro: falar sobre a morte.

Na
sala, o americano Roy Remer é quem conduz o dia de
aprendizados. Diante dele um
grupo heterogêneo: psicólogos, médicos
intensivistas, uma médica veterinária,
assistentes sociais, dona de cemitério,
capelãos…

Remer
é
diretor do Zen Hospice em São Francisco, uma
instituição pioneira em cuidados
paliativos. Ele e sua equipe treinam voluntários para cuidar
de pessoas no fim
da vida: “Nossos voluntários são lembrados em
nosso treinamento que morrer
é uma experiência espiritual. Independentemente do
contexto religioso ou
espiritual de alguém, morrer é tanto sobre
espírito quanto sobre o corpo.
Nossos voluntários foram treinados para manter a
experiência sem
julgamentos”, disse em entrevista ao G1.

Mas
na
aula desta terça-feira (25) a atenção
dele não está voltada para os pacientes,
mas para os diferentes cuidadores, que lidam com perdas diariamente.
Afinal,
quem cuida de quem cuida?

“Eu
sou
oncologista e perdi um paciente recentemente. Foi uma perda muito
difícil e
passarei por isso de novo. Preciso aprender a cuidar de mim”,
diz emocionada
uma das médicas na sala. Ela abre a
“porteira” para as
apresentações ficarem
mais emocionais.

Depois
dela, outra médica revela que perdeu o pai.
“Sobrou” para ela, a médica da
família, boa parte do peso da morte dele.

“Fiquei
feliz de poder cuidar dele, mas teve muita coisa difícil de
enfrentar. E ao
mesmo tempo eu tinha os meus pacientes também”,
diz.

Entre
elas senta a única médica veterinária
do grupo. “Eu cuido da internação dos
animais e acredito que, assim como na medicina, estamos
aquém nos cuidados
paliativos de animais. O que eu posso fazer, além de buscar
uma cura que não
virá, para melhorar o fim da vida daquele
bichinho?”.

E as
apresentações continuam.

“Eu
sou
assistente social de um asilo. Lido com diversos tipos de luto todos os
dias. O
luto antecipado de quem precisa colocar um familiar na
instituição, o luto dos
funcionários quando perdemos alguém, o luto dos
outros moradores e o meu
luto”, diz uma das presentes.

“Eu
convivo com eles por muito tempo e
quando eles morrem, para alguns é uma vaga que abre, para
mim, é uma perda que
não consigo chorar”, continua.

A
dona
de um cemitério veio de outro estado em busca de ajuda:
“Estou aqui pelos meus
funcionários. Quero ensiná-los a se cuidarem.
Eles lidam com morte 24 horas por
dia”.

O
luto
de quem cuida e vive a morte tão de perto é com
frequência “atropelado” pelo
dia a dia. Amanhã outros morrerão. Vida que
segue? Sim e não.

Para
quem lida diariamente com a morte é importante aprender a
entender seus
próprios sentimentos em relação a ela,
para que os relacionamentos não sejam
frios, desumanizados.

“Vocês
fazem um trabalho muito importante e queremos que hoje cuidem de
vocês também.
Hoje é sobre aprender a cuidar de vocês para
poderem cuidar dos outros”,
explica Remer.

Remer
fala também da importância do luto de quem faz
este tipo de trabalho. Para ele,
se os cuidadores aprenderem práticas para se tornarem mais
resilientes, então,
na verdade, o atendimento a pessoas que estão morrendo ou
que vivem com doenças
crônicas fica melhor.

“Não
é saudável deixar que o luto não seja
processado. Não é saudável para os
cuidadores, pacientes ou a sociedade em geral. Ser humano significa que
vamos
lamentar uma grande variedade de perdas que experimentamos ao longo da
vida.
Muitos de nós reprimem a dor. Mais cedo ou mais tarde, a
repressão do luto se
manifesta como problemas de saúde ou comportamentos
inábeis. Todos nós
precisamos ser melhores em apoiar amigos, familiares, colegas e
até estranhos
para lidar com o sofrimento deles. Esse tipo de apoio é
compaixão; é
humano”.

“Eu
esperei a vida toda por este momento. Por sentir que eu
pertenço a algo como
estou sentindo agora”, desabafa uma das participantes. Ela
explica que até mesmo
no meio médico e acadêmico falar de morte e
cuidados paliativos não é fácil.
Com frequência se sente sozinha na jornada de ajudar quem
está partindo.

Nota-se
que a conexão entre os presentes fica um pouco mais forte
depois que ela fala.
Alguns se emocionam. Um claro sinal do peso que a morte tem
até para a quem a
vê de perto com frequência e, de certa forma, a
aceita mais que outros.

Remer
explica: “Cuidadores têm poucas
oportunidades de compartilhar suas experiências e isso
é crítico”.

Mas
chama atenção a total
disposição e – por que não?-
alegria com que estas
pessoas falam de suas ocupações.
Ninguém fala apenas em sofrimento, todos
relatam a satisfação por ser presente para
alguém que precisa.

“Sou
apaixonada pelo que faço”, resume uma.
“Me sinto bem de poder estar ao lado do
leito de uma pessoa que precisa”, acrescenta outra.

Para
estas pessoas, lidar com a morte é essencialmente aprender
também sobre a vida.

*Por
se tratar de um evento fechado, as identidades dos participantes foram
preservadas.



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