Testes de personalidade realmente funcionam? Até onde dá para confiar?
Colaboração para VivaBem* | UOL,**
Com o aumento da conscientização sobre saúde mental, nos últimos anos cresceu também a busca por ferramentas que prometem revelar quem somos de verdade. A ideia é simples: ao compreender melhor nossas características, seria possível curar traumas, lidar com feridas emocionais e até melhorar relações.
Não é à toa que testes de personalidade se multiplicaram na internet. Do tradicional Myers-Briggs, que define 16 tipos com base em conceitos do psiquiatra suíço Carl Jung, até propostas mais recentes, como as linguagens do amor e os estilos de apego, há opções para todos os gostos.
Parte da atração está justamente no caráter lúdico: responder perguntas, esperar pelo resultado e se surpreender com algo inesperado. Essa sensação de descoberta ocorre nos testes mais sofisticados e até nos quizzes informais de revistas adolescentes ou redes sociais.
Entre ciência e pseudociência
Apesar do charme, muitos desses testes carecem de embasamento científico. O próprio Myers-Briggs, um dos mais populares do mundo corporativo, usado inclusive em processos seletivos (embora a fundação que o administra considere antiético esse uso), já foi alvo de críticas. Pesquisas mostram que, ao refazer o questionário, uma mesma pessoa pode receber resultados diferentes, colocando em xeque sua consistência.
A sedução, no entanto, vem de uma busca antiga: entender a nós mesmos e aos outros. O problema surge quando esses resultados passam a ser encarados como verdades absolutas, reduzindo a complexidade humana a rótulos engessados. Especialistas lembram que a personalidade é dinâmica, contraditória e em constante transformação — muito além do que qualquer teste de internet pode oferecer.
Nos Estados Unidos, já existem serviços que conectam profissionais a vagas de emprego com base no “match” entre resultados de testes e perfil de trabalho. O risco, alertam especialistas, é que a pessoa acabe se limitando a partir de um “diagnóstico” simplista, podendo se boicotar ou se julgar de forma equivocada.
Testes, diagnósticos e limites
Para muitos, testes de personalidade parecem uma versão simplificada de uma avaliação neuropsicológica, mas são coisas completamente diferentes. Enquanto os primeiros oferecem descrições gerais e, muitas vezes, superficiais, a avaliação clínica é feita por profissionais de saúde mental qualificados.
Nesse processo, o cérebro é “mapeado” por meio de avaliações que investigam o funcionamento cognitivo, neurológico e comportamental. O objetivo é mais profundo: levantar hipóteses para diagnósticos de transtornos, compreender padrões de funcionamento e orientar tratamentos.
Mesmo nesses casos, especialistas reforçam que resultados nunca devem ser tomados como verdades fechadas. Os testes são pistas, não sentenças, e devem ser interpretados dentro de um contexto mais amplo, junto ao olhar clínico de quem conduz a avaliação.
*Com informações de reportagem publicada em 25/06/2024
**Portal Uol, https://www.uol.com.br/vivabem/noticias/redacao/2025/08/27/testes-de-personalidade-realmente-funcionam-ate-onde-da-para-confiar.htm. 27/08/2025