Engenheiro negro dá aulas na Poli, da USP: ‘Demoram um pouco a entender que sou professor’
Leandro Alves quer normalizar a presença negra na docência e defende que discussão sobre diversidade precisa começar antes do concurso público
Por Gonçalo Junior | OESP*
“Via menos negros enquanto ascendia na vida escolar”
Os colegas negros foram desaparecendo do caminho conforme Leandro Alves avançava na escola. O padEstado de São Paulo, https://www.estadao.com.br/educacao/engenheiro-negro-da-aulas-na-poli-da-usp-demoram-um-pouco-a-entender-que-sou-professor/, 20/11/2025
Leandro leciona Estatística no Departamento de Engenharia de Produção, disciplina obrigatória para todos os cursos de Engenharia. No quadro docente, porém, a presença negra é excepcional. Funcionários relatam que é possível contar nos dedos quantos professores negros há na Poli; a unidade não possui estatísticas oficiais.
Para o professor de 43 anos, esse cenário é o efeito contemporâneo de um passado não resolvido. “A questão histórica, como a escravidão e a falta de inserção dos negros na sociedade nas décadas seguintes, não pode ser ignorada porque ela tem reflexos hoje”, afirma o professor, que também leciona no Centro Universitário Senac Santo Amaro, nas áreas de Engenharia de Produção, Computação e Administração.
Por isso, ele decidiu transformar a própria trajetória em uma forma de romper esse ciclo. Seu objetivo agora é normalizar a presença de negros em quaisquer posições – além do diploma de Mecânica da Fatec, ele é formado em Engenharia de Produção pela Universidade de Guarulhos.
“Nunca fui discriminado, mas percebo certa surpresa quando me apresento como professor. As pessoas não estão acostumadas com um professor jovem negro. Acontece o mesmo na Engenharia”, conta.
Esse é um referencial positivo para alunos negros. Ver docentes que se parecem com eles em posições de autoridade e saber no ambiente acadêmico pode motivar o ingresso e a permanência na universidade, além de fortalecer a identidade e a autoestima.
Para alunos não-negros, a presença reforça convivências e repertórios, ajudando a construir um ambiente acadêmico mais plural e menos hierarquizado racialmente.
Para entrar na USP, o processo seletivo contou com vagas destinadas para pretos, pardos e indígenas (PPI). Desde maio de 2023, as unidades adotam políticas afirmativas para esses grupos em concursos públicos para professores.
As cotas raciais e sociais são ações afirmativas que buscam corrigir desigualdades históricas para grupos discriminados como mulheres, negros, indígenas e pessoas de baixa renda. Na prática, elas reservam vagas para esses grupos historicamente pouco representados nos processos seletivos.
Para os concursos em que o número de vagas oferecidas seja igual ou superior a três, serão reservadas 20% das vagas existentes ao público PPI. Para aqueles cujo número de vagas oferecidas seja de uma ou duas, os candidatos PPI receberão pontuação diferenciada. Esse cálculo leva em conta a pontuação média da concorrência entre todos os candidatos e a pontuação média da concorrência PPI.
Mas Leandro faz questão de quebrar um mito: ação afirmativa não é atalho. Das três vagas abertas para seu departamento, por exemplo, apenas duas foram preenchidas.
“Ter uma vaga PPI não tira a responsabilidade do candidato de cumprir os requisitos. As fases do concurso eram eliminatórias para todos. Meu histórico me trouxe até aqui, não o fato de ser negro”.
Mais opções para negros na educação
Em sua visão, a discussão sobre diversidade na docência precisa começar muito antes do concurso público. É na educação básica, acredita, que se define quem terá condições de chegar ao ensino superior e, futuramente, disputar uma vaga como professor.
“Existem pessoas que fazem boas escolhas; outras têm boas opções. São situações diferentes. É preciso que os negros tenham mais opções, principalmente na educação”, reforça.
Filho de metalúrgico, Leandro começou a trilhar esse caminho aos 13 anos, em um curso gratuito de mecânica no Senai do Brás. Ali, percebeu o tamanho da distância entre o ensino público e o privado: mesmo acostumado às boas notas, encontrou-se no meio da turma. Ali, a paisagem racial era diferente: dos 70 alunos, apenas dois eram negros. Durante o curso integral de Mecânica, conciliava os estudos com bicos de fim de semana, num supermercado ou lava-rápido, para ajudar a pagar as contas.
O talento para ensinar apareceu no cursinho pré-vestibular da Educafro, ONG dedicada à inclusão de pessoas negras e de baixa renda no ensino superior. Depois de se tornar o primeiro aluno do cursinho aprovado em uma universidade pública, foi convidado a dar aulas. Foi ali, diante de salas cheias de jovens que se pareciam com ele, que começou a imaginar a docência como destino definitivo.
*Estado de São Paulo, https://www.estadao.com.br/educacao/engenheiro-negro-da-aulas-na-poli-da-usp-demoram-um-pouco-a-entender-que-sou-professor/, 20/11/2025