Por que o novo código de ética da Nutrição gerou tanta confusão?

Desire Coelho | OESP*

No fim de abril, foi publicado o novo Código de Ética e Conduta dos Nutricionistas. Por ser o documento que regulamenta uma profissão que lida diretamente com a saúde física e mental das pessoas, é esperado que ele contemple regras, limites e valores compartilhados. Mas, dessa vez, a repercussão foi maior do que o habitual e gerou revolta em uma parcela dos profissionais – tanto que o Conselho Federal de Nutrição (CFN) suspendeu o lançamento oficial da normativa.

Após uma leitura cuidadosa, considero que o documento tem alguns pontos de conflito, mas também suspeito que muita gente não o leu com atenção e não parou para refletir sobre o que está defendendo. Em resumo: não concordo com todos os pontos do documento, mas é preciso reconhecer os acertos.

O QUE FOI POSITIVO

Um desses acertos é a tentativa de conter o uso indiscriminado de títulos e especializações que não existem e que confundem o público. Segundo o documento, o nutricionista não pode se identificar “com titulação que não possua ou que não esteja prevista no rol das especialidades reconhecidas pelo CFN.”

Outro acerto é a restrição ao uso de fotos de “antes e depois” como propaganda. “Não é permitido, mesmo com autorização concedida, a apresentação dos resultados de si ou de terceiros, tais como imagens, composição corporal, dados laboratoriais, exames e gráficos, inclusive aqueles gerados por IA”, diz o documento.

Muitos nutricionistas ficaram revoltados especificamente com esse último item, mas essa regra não é nova. A divulgação de “antes e depois” já era proibida. Mesmo assim, continua comum nas redes sociais. Essa restrição não vale apenas para o corpo do paciente, mas também para o do próprio nutricionista, que muitas vezes utiliza seu físico como cartão de visitas.

No mundo em que vivemos, o corpo virou símbolo de status e a divulgação dessas imagens carrega promessas implícitas. Elas sugerem que aquele corpo é alcançável somente pela expertise daquele profissional.

Agora, vamos imaginar um paciente que perdeu mais de 20 quilos, melhorou disposição, saiu do sedentarismo e, hoje, apresenta um abdômen definido. Por que esse caso não deve virar propaganda do nutricionista? Ora, porque forma corporal e saúde não são a mesma coisa. Não sabemos exatamente o que levou àquele resultado. Não sabemos o quanto veio de genética, treino, rotina, sono, contexto social, medicações e procedimentos estéticos. A forma corporal pode ter sido alcançada inclusive às custas de comportamentos contestáveis, como privação alimentar extrema, compulsão por exercícios, uso inadequado de medicamentos e esteroides anabolizantes ou comportamentos alimentares transtornados.

A verdade é que muitos dos corpos exibidos nas redes abriram mão da própria saúde para atingir metas estéticas. Não à toa a exigência da magreza está em alta – e a incidência de transtornos alimentares só aumenta.

Existe ainda outra questão importante: o consentimento. Quando um profissional pede autorização para postar fotos, vídeos ou depoimentos, existe uma relação de confiança, hierarquia e vulnerabilidade envolvida. Muitas pessoas têm dificuldade em dizer “não”. O paciente pode sentir desconforto, medo de parecer ingrato ou até receio de prejudicar a relação terapêutica.

O QUE MERECE REVISÃO

Um dos problemas é quando ele coloca exames laboratoriais, gráficos clínicos e marcadores metabólicos no mesmo pacote das imagens corporais.

Existe uma diferença entre transformar um corpo em vitrine e apresentar, de maneira responsável, técnica, contextualizada e anônima, um dado clínico. Uma barriga definida não é o mesmo que o resultado de um exame de colesterol. Um gráfico mostrando a melhora do controle glicêmico não é equivalente a uma montagem de “antes e depois”. O próprio documento contextualiza que essas informações podem ser usadas dentro de contextos técnico-científicos, desde que não haja conotação de propaganda ou publicidade.

Contudo, hoje, a principal vitrine de muitos profissionais não é mais o antigo boca a boca. Mesmo quando recebemos indicação de alguém, é comum procurar o profissional no Instagram para entender sua abordagem e forma de trabalhar. A nutrição trata de muitos conceitos abstratos e, por mais que possamos falar de estudos, mostrar algumas provas sociais mantendo o completo anonimato do paciente é valioso.

Nesse novo cenário, o nutricionista não poderia sequer mostrar, com autorização e anonimização, a evolução, por exemplo, do controle glicêmico de um paciente homem de 48 anos. Não poderia apresentar a melhora de perfil lipídico ou a evolução de parâmetros metabólicos como exemplos de acompanhamento clínico.

Regular com responsabilidade exige capacidade de diferenciar exploração corporal de comunicação técnica. Exige que a fiscalização autue e discipline quem promete caminhos fáceis e certeiros, manipula imagem e transforma o paciente em estratégia de venda. Exige também orientar melhor os profissionais sobre o que pode (e o que não pode) ser feito.

Outro ponto é que, em vários momentos, o Código fica amplo demais e gera insegurança justamente nos profissionais que se preocupam em comunicar as atualizações e pesquisas científicas com ética.

Enquanto isso, coaches, influenciadores e outros seguirão falando de nutrição de maneira simplificada e agressiva, levando a população à desinformação e ao erro e ocupando o espaço que deveria ser dos profissionais responsáveis.

A Academia Brasileira de Nutrição Oncológica publicou uma nota interessante, dizendo que comunicação ética não deve ser confundida com silêncio técnico. Concordo.

Mais um aspecto que gera insegurança é o artigo 43: “É vedado à(ao) nutricionista manifestar publicamente posições depreciativas ou difamatórias sobre a conduta na prática e no exercício de nutricionistas, de técnicas(os) em nutrição e dietética, de outros profissionais, de entidades e da nutrição.” Atacar pessoas é antiético, e isso não deveria sequer ser discutido. Mas questionar condutas faz parte da prática científica. Em uma época marcada por pseudociência, dieta carnívora, biorressonância quântica e promessas sem embasamento, profissionais precisam ter segurança para discutir práticas clínicas utilizando evidência científica de qualidade e debatendo evidências.

Gostemos ou não, as redes sociais fazem parte da prática profissional atual. O CFN já sinalizou disposição para ouvir os profissionais. Espero que esse diálogo permita reavaliar os pontos de conflito e aconteça de forma a fortalecer a nutrição, orientar a comunicação responsável e permitir que ciência de qualidade consiga chegar até às pessoas com clareza e segurança – isso, sim, fortalece a nossa classe.

NUTRICIONISTA E BACHAREL EM ESPORTE, DOUTORA E MESTRE EM CIÊNCIAS PELA USP, ESPECIALISTA EM TRANSTORNOS ALIMENTARES E EM ANÁLISE DO COMPORTAMENTO. É AUTORA DO LIVRO POR QUE NÃO CONSIGO EMAGRECER? E COAUTORA DO LIVRO A DIETA IDEAL

A divulgação do ‘antes e depois’ já era proibida; a prática pode constranger o paciente
*Estado de São Paulo, https://digital.estadao.com.br/o-estado-de-s-paulo, 16/05/2026, pg. D2

Categorias: Nutrição

AN
× clique aqui e fale conosco pelo whatsapp