Deixe médicos serem médicos

Thomaz Srougi* | OESP**

Vivo entre médicos desde que nasci. Em casa e no trabalho, aprendi que o bom médico não é o que sabe mais; é o que melhor entende o paciente e o seu entorno.

Medicina é, em essência, uma atividade de julgamento. O bom médico ouve, interpreta, decide. Seu valor está em identificar o que está errado com o paciente e propor um curso de ação levando em conta contexto emocional e familiar, o ser humano que está à sua frente. Função que exige presença, sensibilidade e raciocínio clínico, impossíveis quando a mente está dividida entre o paciente e processos administrativos.

O problema é que grande parte da rotina médica não é medicina. Segundo a American Medical Association (AMA), médicos trabalham em média 58 horas por semana, das quais apenas 27 são dedicadas ao atendimento direto. As demais 31 horas de tarefas administrativas se distribuem entre documentação, entrada de pedidos, interpretação de resultados, cobrança e autorizações de planos de saúde. De cada hora de trabalho, menos da metade chega ao paciente.

A consequência é previsível. Segundo o Medscape Physician Burnout & Depression Report 2024, intitulado We Have Much Work to Do, 62% dos médicos citam burocracia como principal fator de esgotamento, à frente da carga horária e falta de reconhecimento. Mais de um terço dos médicos em burnout planeja parar de atender em até três anos, segundo o estudo A Poor Prognosis do Commonwealth Fund, 2024.

O sistema está perdendo médicos não por falta de vocação, mas por excesso de carga operacional, justamente quando a população envelhece e a demanda por atendimento só cresce. Como lembrou o dr. Atul Gawande, cirurgião e professor de Harvard em seu livro Being Mortal: “Nosso objetivo final, afinal, não é uma boa morte, mas uma boa vida até o fim.” Mais do que antes, a sociedade precisa de médicos presentes, focados e com tempo para ouvir.

A carga administrativa não é só ineficiência operacional; é custo clínico direto. A fadiga decisória gerada por tarefas repetitivas reduz a capacidade de julgamento médico, aumenta o risco de erros e deteriora a relação com o paciente. Todos saem perdendo, e os custos médicos aumentam desnecessariamente.

A raiz desse problema está no desenho da tecnologia disponível. A infraestrutura digital da saúde foi construída há décadas para registrar, não para agir. Prontuários, agendas e formulários organizam informação, mas exigem que alguém os opere, um humano.

A equipe de atendimento (recepcionistas, secretárias, assistentes administrativos) não escala. Não consegue atender várias pessoas ao mesmo tempo, trabalhar 24 horas sem fadiga ou executar tarefas simultâneas sem perda de qualidade. Do ponto de vista operacional, é o gargalo.

Sobre essa base de sistemas desconectados e operacionalmente exigentes, o sistema ainda empilhou burocracia: médicos gastam em média 13 horas semanais apenas em autorizações de planos e 93% reportam que esse processo atrasa o cuidado ao paciente (AMA, 2024).

Enquanto isso, o paciente mudou de comportamento: quer da saúde o que outros serviços já oferecem. Quer atendimento imediato no celular e 80% preferem canais digitais para se comunicar com clínicas (dados da Redpoint Global/Dynata). Além disso, 40% dos agendamentos acontecem à noite (segundo as plataformas de IA generativa Carecode e da Prospyrmed), mas a clínica continua operando no ritmo de uma secretaria dos anos 80, sem responder fora do horário comercial ou nos finais de semana. O resultado: acesso restringido, consultas perdidas, cuidado médico adiado, equipe sobrecarregada e médico preso entre atendimento e operação.

O gargalo não é o médico, é o que está ao redor dele. Para que o médico volte a ser feliz, a resposta não é contratar mais recepcionistas, é parar de alocar pessoas para tarefas que não precisam de pessoas, e requalificá-las para funções menos processuais dentro da clínica. Tirar dúvidas, agendar, confirmar, gerir faltas, cobrar e comunicar pós-atendimentos, tarefas de alta frequência e com regras definidas, hoje são plenamente realizadas por IA generativa, sem necessidade de ação humana.

Não é teoria. Clínicas nos Estados Unidos e no Brasil que substituíram a recepção tradicional por IA generativa reportaram redução de até 30% em faltas e aumento de 17% no volume de atendimentos, sem ampliar equipe nem investir em marketing, segundo a Carecode, Prospyrmed e a SPRY. Recepcionistas não desaparecem, evoluem. Passam a cuidar dos casos que fogem do padrão e a gerir as próprias ferramentas de IA, com mais atenção para quem realmente precisa e situações mais complexas.

A maioria dos médicos ainda ama o que faz. O que os adoece não é cuidar de pacientes, é tudo que está ao redor disso. Assim como o bom médico considera o entorno do paciente para chegar ao diagnóstico, a boa tecnologia considera o entorno do médico para liberá-lo. Deixar os médicos serem médicos não é uma ideia abstrata. É uma escolha que já está sendo feita. •

O que adoece os médicos não é cuidar de pacientes, é tudo que está ao redor disso.

*Thomaz Srougi – FUNDADOR E CEO DA CARECODE, E FUNDADOR E CHAIRMAN DO DR.CONSULTA; COM MBA PELA UNIVERSITY OF CHICAGO BOOTH E MESTRADO EM POLÍTICAS PÚBLICAS PELA UNIVERSITY OF CHICAGO HARRIS SCHOOL OF PUBLIC POLICY, É KAUFFMAN FELLOW

**Estado de São Paulo, Esthttps://www.estadao.com.br/opiniao/espaco-aberto/deixe-medicos-serem-medicos/?srsltid=AfmBOoqs2okU8gZ7h_j1ZFtHxMTORoKyGunYZLq5e0NtqhHJgQNNQqVd, 10/06/2026

Categorias: Medicina

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