‘Medicina do amanhã’ começa ao trazer ferramentas digitais para as universidades

Diretrizes do Brasil e estudo internacional apontam saúde digital como competência necessária para exercício da profissão

PRISCILA MENGUE | OESP*

Uma declaração de consenso assinada por 211 especialistas na renomada revista científica JAMA apontou que todo médico em formação deveria desenvolver 19 competências distintas em saúde digital. O artigo, de 2025, confirma uma necessidade que, aos poucos, é percebida por instituições de ensino, com a introdução de inteligência artificial, bioestatística, wearables, internet das coisas e outras ferramentas e plataformas nas graduações.

No Brasil, em setembro de 2025, as Diretrizes Curriculares Nacionais do Curso de Graduação em Medicina passaram a incluir as tecnologias digitais como competências essenciais. Os futuros médicos devem, por exemplo, “promover inovações tecnológicas relacionadas à assistência e à gestão em saúde de forma crítica, ética e eficiente”. Pela primeira vez, diversas ferramentas e plataformas digitais foram citadas nas diretrizes. Entre elas, estão telemedicina, aprendizado de máquina, big data (análise de dados em larga escala) e redes neurais artificiais (modelos computacionais que identificam padrões a partir de grande volume de dados).

Além disso, fala-se no uso desses recursos “na otimização do cuidado, integralidade da atenção e ampliação do acesso aos serviços”. As novas normativas foram homologadas pelos Ministérios da Educação e da Saúde e, portanto, devem orientar os cursos de graduação da área no Brasil.

O artigo da JAMA aponta que, em geral, ainda há escassez de saúde digital na formação de médicos em todo o mundo. Por outro lado, um levantamento da Associação de Escolas Americanas de Medicina (AAMC) identificou um aumento de 59% no número de instituições nos Estados Unidos e Canadá que incluíram IA no currículo, de 2023 para 2024, saltando de 88 para 140 instituições. Da mesma forma, apontou crescimento de 75% entre aquelas que estão com o tema no currículo obrigatório, não apenas no optativo.

No Brasil, aos poucos, o ensino de saúde digital também tem ganhado espaço. O tema é tratado em partes das instituições privadas e públicas, em disciplinas específicas (como Informática Médica e Saúde Digital), transversalmente ao longo das aulas e, também, em atividades eletivas. Na Faculdade Israelita de Ciências da Saúde Albert Einstein, por exemplo, esse tema é incorporado em disciplinas variadas.

A principal preocupação é dar a base de como melhor utilizar uma plataforma ou ferramenta, considerando a segurança do paciente e a ética profissional, diz Danielle Godoi, professora na graduação e responsável pelo eixo de formação digital. “Não é só a tecnologia pela tecnologia.”

Para ela, é necessário que os alunos passem por letramento digital, como, por exemplo, ao tomar decisões baseadas em tecnologia de forma ética. “Já entram ( na graduação) usando IA, mas isso não significa que têm a competência para usar. Uma coisa é usar no dia a dia, outra é olhar para aquilo, perceber os desafios, os vieses.”

Segundo a médica, parte das atividades envolve professores com outras formações, “mas sem perder o protagonismo clínico”. “Quando se fala em ‘digital health’, é um conceito interdisciplinar por natureza”, argumenta. “E não é algo para um ‘médico do futuro’, é para o ‘médico do agora’.”

Ela destaca, contudo, que o foco seguirá sendo o paciente, não a tecnologia. “A tecnologia é útil de fato para o cuidado, para auxiliar na tomada de decisão”, avalia. “É trazer um pouco de como funciona a ciência de dados com aplicação clínica, não é que vai fazer o médico virar um cientista de dados ou um programador.”

ALTERNATIVA. Já a Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) trata do tema transversalmente na formação dos médicos. Também tem uma disciplina opcional de Informática na Medicina, que aborda conceitos e aplicações sobre inovação na saúde digital, como big data, IA e telemedicina, e é voltada a graduandos de saúde e tecnologia.

A disciplina opcional foi criada há 30 anos, quando a professora e cientista da computação Magdala de Araújo Novaes voltou do doutorado em bioinformática na França. “Não percebia muita movimentação nesse sentido nos cursos de Medicina, que têm grade curricular muito fechada.”

Na avaliação dela, o desenvolvimento dessas habilidades envolve tanto uma parte conceitual quanto de aplicação. “O curso aborda como consumir adequadamente as tecnologias digitais”, explica. “Se não produzir e armazenar os dados de maneira adequada, não vai ter confiabilidade nas bases que serão analisadas.”

Também coordenadora do Núcleo de Telessaúde da UFPE, a professora classifica a pandemia como uma “divisora de águas” na saúde digital. Para ela, há uma maior incorporação da tecnologia nos cursos de Medicina e com transformação mais profunda após as novas diretrizes curriculares, mas considera ainda “incipiente” no geral. “O perfil desse médico que vai chegar no mercado de trabalho é totalmente de alguns anos atrás”, avalia. Nesse cenário, aponta também a necessidade de uma formação digital forte dos próprios docentes, visto que muitos não viveram essa transformação da saúde. “É um desafio grande”, resume.

Ela aponta que os médicos precisam passar a olhar softwares como dispositivos aplicados a seu campo de atuação, seja na reabilitação, seja no prognóstico, seja em hospitais, seja em consultórios, seja para cirurgias, seja para exames. “Pode usar uma ferramenta de IA que vai correlacionar os sintomas com o estado clínico do paciente, e ter uma hipótese diagnóstica formada”, exemplifica.

Outra aplicação que menciona é na prescrição de medicamentos. “Pode utilizar ferramentas que vão apoiar melhor na seleção do tipo de droga, até com informações de interações medicamentosas”, conta. Há ainda, na UFPE, a possibilidade de fazer uma parte do internato dos últimos anos de curso em saúde digital.

Nos últimos anos, a professora percebe uma procura muito maior no curso eletivo da UFPE. Além disso, as aulas, inicialmente mais básicas, hoje envolvem discussões mais profundas de terapias digitais.

Ela conta que há estudantes que veem a área até como uma oportunidade de empreender, alguns depois envolvidos na criação de startups ou inseridos em empresas de desenvolvimento de tecnologias médicas. “Os alunos mudaram muito de perfil. Tem aluno que entra Medicina hoje com nível muito mais elevado no uso das tecnologias.” •

Conceito Falar em digital health é criar algo interdisciplinar ‘por natureza’, afirma coordenadora

*Estado de São Paulo, https://digital.estadao.com.br/o-estado-de-s-paulo, pag 26/02/2026, pg. D2

 

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