Mestrado profissional avança como opção pública e de mercado

Propostas permitem qualificar o profissional como um agente capaz de transformar seu ambiente de trabalho

HELOÍSA SCOGNAMIGLIO | OESP*

O mestrado profissional, uma pós-graduação que tem como foco a solução prática de problemas do mercado de trabalho, se consolidou no Brasil. “Oferece uma formação que permite estruturar problemas reais e desenvolver soluções efetivas com base no pensamento crítico e em métodos científicos”, afirma Claudia Vianna Maurer-Morelli, próreitora de pós-graduação da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). “Isso qualifica o profissional como um agente capaz de transformar seu ambiente de trabalho. Para as organizações, isso se traduz em maior eficiência, otimização de processos, melhor gestão de recursos, desenvolvimento de novas técnicas, protocolos e soluções inovadoras.”

A pós-graduação stricto sensu engloba o mestrado e o doutorado, que podem ser programas acadêmicos ou profissionais: no primeiro tipo, é preciso realizar uma pesquisa mais aprofundada para obter o título de mestre e desenvolver uma tese original para se formar doutor; já a segunda categoria, seja para mestre ou doutor, exigirá o desenvolvimento de um produto técnico, que pode ser um software, uma patente, um manual, entre outros – e, no doutorado, indicado especialmente para executivos, gestores e outros cargos de liderança, é esperado que os estudos gerem inovação de grande impacto.

Otimização Aulas são em horários flexíveis, sobretudo à noite, em sextas e sábados ou em blocos concentrados

O doutorado profissional é mais recente no País e, por isso, ainda não tem tanta adesão quanto o mestrado profissional, que já é mais conhecido e mais procurado. Claudia destaca que o doutorado profissional foi regulamentado pela Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes) em 2017, com cursos efetivamente iniciando de dois a três anos depois. “Ainda precisa consolidar sua identidade com a comunidade acadêmica e o setor produtivo, como foi com o mestrado. O financiamento é outro desafio e depende de parcerias sustentáveis”, explica a pró-reitora da Unicamp.

Como os mestrados profissionais são destinados a pessoas que estão atuando no mercado e podem aplicar as soluções desenvolvidas ali, é comum que os programas ofereçam horários flexíveis, com aulas à noite, sextas e sábados, ou em blocos concentrados, permitindo que o pós-graduando também continue trabalhando normalmente. Outra implicação do foco no mercado de trabalho é que os programas costumam exigir ou recomendar comprovação de atuação na área, o que os especialistas apontam que não deve ser entendido como uma barreira burocrática, mas sim como alinhamento pedagógico e estratégico para o sucesso da modalidade. Isso porque, neste contexto, o perfil adequado favorece que o profissional em formação esteja vivenciando ou vá atuar diretamente nas questões que o curso se propõe a investigar, inclusive validando ou implementando a solução que está desenvolvendo durante os estudos.

REFINAMENTO. Gilberto Sarfati, coordenador do Mestrado Profissional em Gestão para Competitividade da Fundação Getulio Vargas (FGV), afirma que o refinamento de perfil é importante nesses programas porque, nas aulas, não será ensinado o básico. E o pós-graduando precisará conseguir acompanhar as discussões, que muitas vezes vão tratar de temas complexos e práticos, presentes no dia a dia da profissão.

O programa da FGV coordenado por Sarfati se divide em oito linhas de pesquisa: Finanças e Controladoria; Gestão de Marketing, Crescimento e Experiência do Consumidor; Gestão de Pessoas; Gestão de Saúde; Gestão de Supply Chain; Inovação Corporativa; Sustentabilidade; e Tecnologia de Informação. A indicação da universidade é que o mestrado se direcione a profissionais com pelo menos cinco anos de experiência na área da linha de pesquisa escolhida – ou que ocupam ou busquem ocupar posição de liderança.

Claudia Fegadolli, docente do Instituto de Ciências Ambientais, Químicas e Farmacêuticas da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), aponta mais uma vantagem dos mestrados profissionais em geral no mundo acadêmico. “O profissional enfrenta os desafios e traz para a universidade essas pautas – e a universidade se retroalimenta dessas pautas. A academia passa a acessar os desafios do mundo do trabalho, seja na saúde ou em outras áreas, com pessoas que estão nesses locais, o que também areja a universidade.”

POLÍTICAS E PAPEL SOCIAL.

Além de questões específicas do mercado de trabalho, alguns programas de mestrado foram criados para atender demandas de políticas públicas. Nesse sentido, há exemplos como o Mestrado Profissional em Saúde da Família (ProfSaúde),

“O mestrado profissional quer trazer um aprofundamento. Não vamos ensinar o básico de administração, de finanças. Buscamos identificar no perfil do candidato essas características de liderança e de já ter tido a formação básica, para que de fato ele alcance outro patamar de desenvolvimento. E o candidato também vai encontrar ali pessoas que têm perfis similares de maturidade profissional e acadêmico” Gilberto Sarfati Coordenador do Mestrado Profissional em Gestão para Competitividade da FGV

coordenado pela Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), em parceria com a Associação Brasileira de Saúde Coletiva (Abrasco), um programa voltado para a qualificação de profissionais de saúde que atuam na Atenção Básica e no Sistema Único de Saúde (SUS). O objetivo é formar trabalhadores e melhorar a prática, a gestão e o atendimento à população. O curso é em rede nacional, associado a instituições públicas que atuam como polos de ensino regionais. O processo seletivo é unificado, mas a concorrência é pela instituição escolhida – uma delas é a Unifesp.

“É um programa voltado para o SUS, foi feito para isso, que é para qualificar aquele segmento do serviço público”, explica Claudia Fegadolli. “O SUS é um sistema que tem muitos desafios, seja pelo financiamento, seja pela complexidade. Um programa com esse olhar para desenvolver soluções é fundamental. O ProfSaúde entra para realmente qualificar a força de trabalho, para enfrentar os desafios que se impõem para a gestão, com profissionais que sejam capazes de analisar criticamente a realidade, identificar oportunidades de melhoria, implementar soluções, mudanças que sejam sustentáveis”, diz.

O ProfSaúde é destinado exclusivamente a quem tem vínculo com o SUS ou com redes públicas, mas a Unifesp tem vários outros mestrados profissionais, tanto em saúde quanto em outras áreas, como destaca Cláudia. “E, da perspectiva de quem ingressa, é uma oportunidade de avançar na sua formação e crescer profissionalmente sem abandonar sua atuação. Assim, o mestrado profissional alavanca a sua carreira”, afirma.

ENSINO. Outro exemplo, na área do ensino, é o Programa de Pós-Graduação em Educação Profissional e Tecnológica (ProfEPT), liderado pelo Instituto Federal do Espírito Santo (Ifes) – também um mestrado profissional em rede nacional, em parceria com instituições de ensino pelo País. O objetivo é capacitar profissionais para atuar, fazer pesquisas e criar soluções práticas para o ensino técnico e tecnológico no Brasil.

Neste caso, porém, metade das vagas é reservada exclusivamente para servidores da rede federal de educação profissional, científica e tecnológica e a outra metade é destinada à ampla concorrência, que são os demais profissionais que atuam nesses espaços de educação. “Você acaba trazendo para o escopo desses mestrados questões que são muito importantes para a melhoria de processos de ensino-aprendizagem, de formação de professores, de organização curricular, da própria organização pedagógica das instituições de ensino”, afirma Pollyana dos Santos, coordenadora-geral do ProfEPT.

Para ela, um dos maiores destaques dos programas de pósgraduação em rede nacional é dar suporte e subsídio para a interiorização da pós-graduação, para ajudar na diminuição das disparidades regionais. “Esses programas em rede têm essa força de consolidar a pós-graduação stricto sensu em locais onde não há a fixação de mestres e doutores, algo que ainda não está muito bem consolidado no País. Há uma necessidade dessa colaboração para que a gente avance com a pós-graduação fora do eixo Sul-Sudeste.” •

Os programas de pós-graduação stricto sensu do Insper oferecem rigor acadêmico e conteúdos de fronteira para profissionais que buscam a resolução de problemas de alta complexidade. A excelência dessa proposta pedagógica é refletida nas avaliações da Capes, que atribuiu nota 5 ao Mestrado Profissional em Administração (MPA), ao Mestrado Profissional em Economia (MPE) e ao Doutorado Acadêmico em Economia dos Negócios (DAEN). O Mestrado Profissional em Políticas Públicas (MPP) obteve nota 4.

Além desse desempenho, a instituição integra o seleto grupo de menos de 1% das escolas de negócios do mundo com a acreditação Triple Crown (AMBA, AACSB e EQUIS).

Embora cada programa possua objetivos específicos, todos compartilham a mesma base de excelência acadêmica, rigor mee compromisso com o desenvolvimento do aluno.

Currículo e internacionalização

O MPA, que completa 20 anos em 2026, é um dos alicerces do Programa de Pós-Graduação Stricto Sensu em Administração do Insper. Atualmente, a grade tem um modelo de currículo integrado, no qual os estudantes frequentam um tronco comum de disciplinas focado em métodos de pesquisa e identificação de causalidade. Depois, o aluno pode optar por concluir a dissertação de mestrado ou progredir para os dez trimestres exclusivos do doutorado.

A combinação de excelência acadêmica estende-se aos outros programas como o DAEN, que forma pesquisadores e professores de alto nível internacional.

A prova desse padrão se reflete na colocação dos egressos, contratados por instituições de prestígio como a HEC Paris e a Universidade de St. Gallen, na Suíça. O curso diferencia-se ainda por ter aulas e seminários ministrados integralmente em inglês e prever a realização de um estágio no exterior durante o quarto ano.

Pluralidade em sala de aula

O ambiente de ensino é marcado pela diversidade de trajetórias profissionais. Para Sérgio Giovanetti Lazzarini, vice-presidente acadêmico, essa heterogeneidade é essencial para a profundidade das discussões. “É enriquecedor participar de discussões em que advogados trazem a perspectiva do compliance, economistas analisam os impactos macroeconômicos e entodológico genheiros ou médicos contribuem com a experiência de suas áreas de atuação. Quanto mais plural é a troca de perspectivas, mais rico se torna o debate e mais sólido fica o entendimento dos conceitos”, afirma.

Aplicação prática e impacto

A gestão das disciplinas é realizada por um corpo docente em dedicação exclusiva, conectando a produção científica a problemas reais do mercado e da sociedade. Essa ponte entre o rigor metodológico e os desafios contemporâneos permite que o conhecimento acadêmico seja convertido em ferramentas de decisão.

Já o Mestrado Profissional em Políticas Públicas aplica o modelo de análise baseada em evidências ao campo das políticas públicas em sentido amplo. O programa capacita profissionais para propor e avaliar soluções, atuando no Estado, no setor privado ou no terceiro setor para contribuir com o desenvolvimento sustentável.

Quanto mais plural é a troca de perspectivas, mais rico se torna o debate e mais sólido fica o entendimento dos conceitos” Sérgio Lazzarini, vice-presidente acadêmico do Insper

 

Perfil de cursos, formação e EAD criam um novo cenário

Ensino a distância já reúne 28,4% dos mestrandos e 17,6% dos doutorandos no País; e destaque fica a rede particular

  • O Estado de S. Paulo., pg. D4
  • 30 Jul 2026
  • ADRIANA VICTORINO

A pós-graduação brasileira passa por um momento de transformação. Mudanças no perfil da oferta de cursos, na formação de pesquisadores e na organização da carreira acadêmica apontam para um sistema que busca reduzir o tempo de qualificação, ampliar o acesso ao doutorado e incorporar novas modalidades de ensino, ao mesmo tempo em que enfrenta desafios relacionados à expansão da pesquisa e à qualidade da formação.

Os dados mais recentes do 16.º Mapa do Ensino Superior no Brasil, publicado pelo Instituto Semesp em 2026, ilustram esse cenário. Enquanto o doutorado registrou expansão de quase 16%, impulsionado principalmente pela abertura de vagas na rede privada (+34,6%) e também pelo crescimento na rede pública (+11,6%), o mestrado sofreu retração de 15,6% nas universidades públicas, apesar do avanço no setor privado. O levantamento também mostra o crescimento do ensino a distância na pós-graduação stricto sensu, modalidade que já reúne 28,4% dos mestrandos e 17,6% dos doutorandos no País.

Para o vice-presidente acadêmico do Insper, Sergio Lazzarini, o avanço pode estar relacionado ao estímulo crescente ao doutorado direto. “Há algum tempo se discute que quem deseja seguir uma carreira acadêmica, e não necessariamente trajetória técnica ou profissional em empresas, pode ingressar diretamente no doutorado. Esse é, inclusive, um modelo internacional.” Segundo ele, há estudantes que concluem a graduação após uma trajetória consistente de iniciação científica e já seguem diretamente para essa etapa.

A presidente da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes), Denise Pires de Carvalho, afirma que esse caminho faz sentido para estudantes que chegam ao fim da graduação já preparados para desenvolver pesquisa. A Capes passou, nos últimos cinco anos, a conceder proporcionalmente mais bolsas de doutorado do que de mestrado.

PARTICULAR. O crescimento do doutorado foi puxado principalmente pela rede privada, que ampliou em 34,6% a oferta de vagas. Para Lazzarini, esse avanço acompanha uma mudança histórica na distribuição da pós-graduação brasileira. “O crescimento tende a ser maior na rede privada porque, tradicionalmente, os doutorados estavam muito concentrados nas universidades públicas.” Segundo ele, universidades privadas de qualidade passaram a oferecer cursos de doutorado, ampliando a oferta.

Para a presidente da Capes, as mudanças vão além do doutorado direto e exigem uma revisão mais ampla da formação superior brasileira. “O Brasil precisa rever a educação superior desde o início da graduação até o doutoramento”, afirma. “Somar quatro anos de doutorado a dois anos de mestrado não é comum na maior parte dos países.”

Para o futuro Possibilidade de ainda mais cursos nessa modalidade se encontra em discussão no CNE

Na avaliação do pró-reitor de Pós-Graduação da PUC-SP, Celso Capilongo, a pós-graduação brasileira passou por um período de grande crescimento, com uma demanda muito intensa pelos cursos. “Minha impressão é que, da pandemia para cá, essa procura diminuiu um pouco. Isso se deve a diversos fatores, e a pandemia não é o único deles. Muitos cursos continuaram funcionando de forma híbrida ou virtual, e acredito que isso pode atuar como desestímulo à pós-graduação. Outro fator é o nível de aquecimento da economia. Quando a economia está muito aquecida, as pessoas tendem a trabalhar, conseguir emprego e deixar de fazer pós. Curiosamente, a demanda por esses cursos pode diminuir”, afirma.

AVANÇO DO EAD.

Outra tendência apontada pelo Mapa do Ensino Superior é o crescimento do ensino a distância na pósgraduação stricto sensu. O formato híbrido ou totalmente digital já reúne 28,4% dos alunos de mestrado e 17,6% dos doutorandos. Segundo Denise, o avanço da modalidade não significa flexibilização dos critérios de qualidade.

Ela explica que o ensino a distância é permitido na pósgraduação desde 2017, mas que a aprovação dos cursos continua submetida à avaliação. “O crivo da Capes é importante para garantir a qualidade dos programas de pós-graduação. Não importa se o curso é presencial ou a distância. Sem um corpo docente qualificado, ele não será aprovado.”

Denise afirma que o Conselho Nacional de Educação (CNE) está revisando as normas que tratam da pós-graduação a distância e que o edital de Apresentação de Proposta de Curso Novo (APCN) já prevê a possibilidade de apresentação de propostas de cursos nessa modalidade.

*Estado de São Paulo, https://digital.estadao.com.br/o-estado-de-s-paulo, 30/07/2026, pg. D2

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