Sanitarista: a profissão com a cara do SUS

Unindo saberes das ciências humanas, gestão e epidemiologia, esse profissional é central para pensar e fortalecer nosso sistema público. Por isso, sua regulamentação é um importante marco para a Saúde Coletiva, defende Marília Louvison

Marília Louvison em entrevista a Gabriel Brito | Outras Palavras*

Em 6 de abril, o presidente Lula assinou o decreto 12.921, que regulamenta a Lei 14.725/23 e reconhece oficialmente a profissão do sanitarista. Outra Saúde entrevistou Marília Louvison, uma das homenageadas pelo ministro da Saúde Alexandre Padilha, em cerimônia de entrega das primeiras carteiras profissionais, que explica porque essa é “a profissão com cara de SUS”.

“Representa suas características e a ideia de saúde aplicada pelo Brasil. O sanitarista não é um profissional da clínica, e sim do espaço coletivo. Sua atuação se dirige ao território, sua função é observar o coletivo, pensar vulnerabilidades (ou processos de vulnerabilização), cuidado, identificação de necessidades, análise de situação de saúde pública”, explicou.

Sua entrevista foi concedida em um dos intervalos do seminário Da Reforma Sanitária ao Futuro do SUS – 40 anos da 8a Conferência Nacional de Saúde, promovido pelo Outra Saúde e o Instituto de Comunicação e Informação Científica e Tecnológica em Saúde (Icict/Fiocruz). Nesta semana, o evento terá seu capítulo em São Paulo, na Faculdade de Saúde Pública da USP [inscreva-se].

Ocasiões como essas permitem uma compreensão palpável do significado social de uma profissão de saúde que não opera um determinado serviço médico ou hospitalar, mas serve para tornar esses serviços mais eficazes.

“Para o SUS é fundamental um profissional que pensa nas ciências sociais humanas, na política e gestão, tenha conhecimento da epidemiologia e ajude a pensar respostas para políticas públicas do SUS de acordo com demandas reais das populações”, sintetizou Marília.

Professora da Faculdade onde se realizará a etapa paulista do seminário, ela vivenciou a construção do SUS desde seus primórdios, dentro de um contexto social onde que exigiu a compreensão mais ampla das condições de existência da população usuária de seus serviços.

É nesse cenário que surge a figura profissional do sanitarista, uma construção teórica e prática da medicina social latino-americana. Neste sentido, Marília acrescenta que a regulamentação desta profissão traz em seu bojo o reconhecimento de todo um campo científico: a Saúde Coletiva.

“É um reconhecimento de um campo científico e de preparação técnica, de pesquisadores, gente que sai todos os dias de casa para trabalhar no SUS ou em organismos não governamentais, junto às comunidades, para produzir saúde coletivamente”, celebrou.

Como contou na entrevista, trata-se de um campo em expansão, tanto em graduação como pós-graduação. Sua história está diretamente relacionada à redemocratização do país e à construção de um projeto que vislumbra o bem estar social. Agora, atinge o reconhecimento de uma profissão de saúde, em sentido ampliado, como explica Marília.

“São profissionais de grande potência para contribuir com a sociedade, alcançar produções coletivas de saúde, para além da clínica e da doença. Estamos falando mais de saúde do que de doença. Enfim, qu­e seja um profissional capaz de tensionar e provocar todos os profissionais para olhar o cidadão-usuário e as demandas societárias para além do ciclo saúde-doença-cuidado”, concluiu.

Leia a entrevista completa com Marília Louvison.

Como você recebeu o Decreto 12.921, que reconhece a profissão de sanitarista no âmbito das profissões de saúde, de acordo com projeto de lei 14.725, criado pelo então deputado e hoje ministro da Saúde, Alexandre Padilha, em 2023?

O decreto de regulamentação é de extrema importância, porque instrumentaliza a legislação da profissão de sanitarista. Entendíamos que profissional de saúde pública e coletiva, isto é, um sanitarista, somos todos nós formados pela graduação ou pós-graduação, especialização e também os que têm uma atuação no SUS.

O decreto reconhece o papel deste profissional no país, que já é muito antigo e de grande importância, particularmente para os bacharéis, que têm uma formação em nível de graduação para esta profissão que é mais nova no Brasil.

A regulamentação concretiza a possibilidade de se ter um registro, foi pensada com a participação da Abrasco (Associação Brasileira de Saúde Coletiva) e contou com comissão no Ministério da Saúde pela regulamentação da profissão, que agora terá sua própria carteira profissional, tanto para quem concluir graduação como para aqueles que se especializarem em outros níveis ou tiverem experiência no SUS.

O que é ser sanitarista?

É uma das poucas profissões com cara de SUS. E é o Ministério da Saúde que regula e dá o registro. É importante o reconhecimento, por ser uma profissão muito antiga. Remete à criação das vacinas, de figuras como Pasteur, de Emílio Ribas, Walter Leser, de vários profissionais da saúde pública que criaram vacinas, medicamentos, estratégias de ação pública. São várias pessoas de grande importância, algumas responsáveis por feitos históricos no campo da saúde pública, de várias ordens, seja no campo das doenças infecciosas, seja no campo da gestão ou em outros.

Sanitarista, em suma, é o profissional da saúde pública. E isto era uma profissão de reconhecimento por alguns, mas havia reconhecimento público, do ponto de vista de uma legislação que indique e direcione a formação e os campos de trabalho.

Para a sociedade, é importante saber que existem profissionais que trabalham com saúde pública e saúde coletiva. Eles foram importantes, por exemplo, na época da covid, quando trabalharam no registro de casos, análise de dados e riscos e estratégias para lidar com a pandemia. Tal profissional contribui com processos de gestão do SUS e vários outros olhares da pertinência e das competências de um sanitarista, isto é, gestão, política, vigilância, educação em saúde.

O campo da saúde coletiva ganha muito com isso. É uma profissão que tem, digamos assim, a cara do SUS, pois representa suas características e a ideia de saúde aplicada pelo Brasil. Não é um profissional da clínica, e sim do espaço coletivo. Sua atuação se dirige ao território, sua função é observar o coletivo, pensar vulnerabilidades (ou processos de vulnerabilização), cuidado, identificação de necessidades, análise de situação de saúde pública.

Seu trabalho se concentra, portanto, em analisar as necessidades, demandas e ofertas das políticas públicas e dos sistemas de saúde. Tal figura é importante para uma construção interdisciplinar, em uma atuação multiprofissional, com um olhar muito centrado no usuário.

Por que é uma profissão que tem “cara de SUS”? Quais as particularidades que explicariam a definição?

Expressa a aposta que ficou sintetizada no lema da 8ª Conferência Nacional de Saúde, em 1986: saúde é democracia, democracia é saúde. Isto é, a saúde não é uma condição individual, mas uma construção coletiva que deve passar pelas políticas públicas. Dessa forma, exige-se um sistema de saúde que nasce da sociedade e suas lutas, capaz de responder de uma maneira mais global e mais geral em cada território.

Para o SUS é fundamental um profissional que pensa nas ciências sociais humanas, na política e gestão, tenha conhecimento da epidemiologia e ajude a pensar respostas para políticas públicas do SUS de acordo com demandas reais das populações.

O SUS já teve o seu auge de crescimento, passou por vários reveses por conta dos governos que tivemos e retoma um momento de crescimento. Para que seja cada vez mais um sistema de saúde para a população brasileira, precisa de muitos profissionais bem formados com este pensar.

Tal reconhecimento joga luz sobre o campo científico denominado Saúde Coletiva? O que isso significa em termos práticos?

É um campo que cresceu muito no Brasil, tanto em cursos de graduação como pós-graduação. E todo esse movimento de formação de profissionais capacitados é uma vitória do campo da saúde coletiva. É um reconhecimento de um campo científico e de preparação técnica, de pesquisadores, gente que sai todos os dias de casa para trabalhar no SUS ou em organismos não governamentais, junto às comunidades, para produzir saúde coletivamente. Existe um aprendizado no meio.

Portanto, trazer o campo da saúde coletiva para a formação de uma profissão e compreender sua função social é de uma potência muito grande. A população brasileira reconhece o profissional que ajuda a monitorar e conhecer o território, identifica necessidades, faz comunicação e se relaciona diretamente com as comunidades e populações, inclusive as mais vulnerabilizadas, até se organizarem para produzir saúde, encontrar caminhos mais saudáveis e até disputar as políticas públicas, a fim de se alcançar respostas mais coletivas e democráticas de garantia de seu direito à saúde.

Existe profissional similar em outros países?

A maioria dos lugares forma o profissional na pós-graduação, como o Brasil. O campo da saúde coletiva é uma construção muito forte na América Latina, mas existe no mundo inteiro. Na Europa, denomina-se saúde pública e a atuação deste profissional se fortaleceu na pandemia.

Aqui, nossos alunos da Saúde Pública falavam “agora eu já não preciso explicar para os meus pais o que é ser sanitarista”. Isso porque na pandemia todo mundo se familiarizou com debates de média móvel de casos, pesquisas para produção de vacina, prazos de liberação… Foi um movimento onde as pessoas pensavam no coletivo, no adoecimento alheio, formas de prevenção, quem é o profissional que cuida disso, pensa junto com os governos sobre condições de saúde das populações e formas de proteção.

Tal profissional começou a ser mais demandado. Por exemplo, Portugal está criando uma licenciatura específica para formar profissionais graduados em saúde pública. É uma tendência crescente no mundo inteiro. E vários países têm cursos tanto de graduação quanto de pós-graduação de saúde pública ou saúde coletiva.

Quais as maiores contribuições que este tipo de profissional pode dar à saúde pública diante da conjuntura histórica? Acredita que o sanitarista traz uma visão de totalidade que lhe permite ter protagonismo em dilemas sociais de maior envergadura, como vemos no Brasil e no mundo hoje?

Não tenho a menor dúvida, porque hoje essa transformação faz uma disputa que gira em torno de podermos viver como nós somos, do direito universal à vida, à diversidade, às diferenças, com respeito aos modos de produção da vida de cada território.

Para a construção deste tipo de mundo, há lugar para profissionais que consigam compreender, do ponto de vista das ciências sociais, pensar toda a transversalidade, a interseccionalidade de raça, de gênero, das condições socioeconômicas, de como se produz coletivos, se apoia a população, como é que se contribui com a produção de saúde, como se amplia conhecimentos, na possibilidade de tomada de decisões, seja no âmbito do sistema, dos movimentos, dos territórios, das organizações não governamentais e governamentais…

São profissionais de grande potência para contribuir com a sociedade, alcançar produções coletivas de saúde, para além da clínica e da doença. Estamos falando mais de saúde do que de doença. Enfim, que seja um profissional capaz de tensionar e provocar todos os profissionais de saúde para olhar o cidadão-usuário, as demandas societárias e pensar a produção de saúde, para além do ciclo saúde-doença-cuidado.

O sanitarista deve contribuir com conhecimentos de gestão e administração, no bojo de um escopo maior de saúde coletiva. Muitos gestores que contratam egressos deste campo, particularmente da graduação, já percebem os impactos e diferenças trazidos pela sua formação na garantia de direitos de usuários, dentro de um conjunto maior de direitos democráticos, humanos e sociais, que na saúde significa um sistema público universal.

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Gabriel Brito é jornalista do site Outra Saúde. – Contato: gabriel@outraspalavras.net

*Outras Palavras, https://outraspalavras.net/outrasaude/sanitarista-a-profissao-com-a-cara-do-sus/, 20/05/2026

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