Solidão, home office e doenças mentais

O trabalho remoto, e seu consequente isolamento, eleva a incidência de doenças psiquiátricas

Fernando Reinach fernando@reinach.com | OESP*

0 trabalho remoto vem aumentando. Nos Estados Unidos, a fração de pessoas trabalhando remotamente aumentou de 7% em 2019 para 28% em 2023. Parte dessa mudança foi provocada pela covid-19.

Trabalhar remotamente sempre foi um desejo da humanidade. As vantagens incluem um melhor equilíbrio entre trabalho e lazer e a redução do atrito no ambiente de trabalho. Pessoas aceitam ganhar de 4% a 10% menos para trabalhar remotamente. O trabalho híbrido é o ideal para 55%, enquanto 24% preferem o trabalho completamente remoto. Apesar de haver muitos estudos a respeito do efeito do trabalho remoto sobre a produtividade dos trabalhadores, pouco se sabe sobre o efeito dessa prática nas doenças mentais.

Em um novo estudo foram determinados os hábitos de trabalho, o isolamento social e a frequência de distúrbios psicológicos e psiquiátricos em 588.322 pessoas entre os anos de 2011 e 2024. Foram excluídos os dados de 2020 e 2021 por serem o pico da pandemia de covid-19. Os indivíduos estudados se encaixavam em dois grandes grupos: os trabalhadores que não podem trabalhar remotamente (por exemplo, enfermeiros) e os trabalhadores que podem trabalhar remotamente (entre eles, programadores). Cada um desses dois grupos foi subdividido entre as pessoas que moram sozinhas e as que moram em família. Os pesquisadores estudaram esses quatro grupos durante o período de 13 anos para responder a duas perguntas: Os indivíduos desses quatro grupos tiveram um aumento do tempo que passaram sozinhos durante a semana? Como evoluiu a frequência de estresse psicológico e doenças mentais nesses quatro grupos?

Os resultados mostram que, antes da pandemia, entre as pessoas cujo trabalho pode ser feito de forma remota, só 10% faziam trabalho totalmente remoto. Esse número passou a 30% após a pandemia. E nesse grupo as horas que as pessoas estavam sozinhas passaram de cinco para oito por dia. Já entre os que precisam ir ao escritório, o trabalho totalmente remoto era de 2% e passou para 6%. E o número de horas de solidão passou de quatro para cinco. Ou seja, após a pandemia, aumentou a quantidade de horas remotas e de solidão para toda a população, mesmo nas profissões que não eram classificadas como passíveis de serem executadas em casa (é o caso de enfermeiros levando o trabalho burocrático para fazer em casa).

Mas veja que esses dados incluem pessoas que moram sozinhas ou em família. E foi nas pessoas que moram sozinhas que a diferença foi marcante. Dos que podem trabalhar remotamente e moram sozinhos, 25% passam o dia todo isolados. Entre os que não podem trabalhar remotamente e moram sozinhos, somente 6% passam o dia isolados.

Quando esses dados foram correlacionados com diversas medidas objetivas de estresse psicológico, como o teste K9, visitas a psiquiatras e prescrição de ansiolíticos e antidepressivos, ficou claro que o aumento das horas de isolamento está correlacionado com sintomas psicológicos e psiquiátricos. E esse efeito é mais evidente em pessoas que moram sozinhas e trabalham remotamente. Um controle interessante é que a prescrição de medicamentos para outras doenças, como colesterol alto, não tem correlação com as horas de solidão.

A conclusão desse estudo enorme, com mais de 500 mil pessoas ao longo de 13 anos, demonstra de forma definitiva que o trabalho remoto, e o consequente aumento no tempo de isolamento, aumenta a incidência de doenças psiquiátricas e estresse psicológico. De certa forma, isso era de se esperar, pois o Homo sapiens é essencialmente um animal social que sempre viveu em grupo. No entanto, uma coisa é pressupor, outra é medir.

Mas como explicar que as pessoas afirmam preferir a solidão do trabalho remoto? Não se sabe, talvez seja devido ao caos da vida corrida nas cidades. Ou talvez os efeitos malignos da solidão apareçam lentamente, enquanto o alívio da pressão do trabalho presencial desaparece imediatamente quando começamos a trabalhar remotamente. •

INFORMAÇÕES: HOME ALONE: REMOTE WORK, ISOLATION, AND MENTAL HEALTH. SCIENCE

HTTPS://WWW.SCIENCE.ORG/DOI/10.1126/SCIEN CE.AEC7671 2026

É BIÓLOGO, PHD EM BIOLOGIA CELULAR E MOLECULAR PELA CORNELL UNIVERSITY E AUTOR DE A CHEGADA DO NOVO CORONAVÍRUS NO BRASIL; FOLHA DE LÓTUS, ESCORREGADOR DE MOSQUITO; E A LONGA MARCHA DOS GRILOS CANIBAIS

*Estado de São Paulo, https://digital.estadao.com.br/o-estado-de-s-paulo, 20/06/2026, pg. A17

Categorias: Home Office

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