https://www.wort.lu/pt/vida/aprender-a-escolher-620cc947de135b923639453d, 16/02/2022
Aprender a escolher
Será que hoje em dia se pode falar numa profissão certa? E qual é o papel do psicólogo e dos testes vocacionais neste processo de escolha de uma futura profissão?
Ana Cristina Barbosa, psicóloga e Alexandra Brito, professora
Durante o percurso escolar obrigatório espera-se que as e os nossos jovens comecem a escolher o que fazer a seguir, para que áreas de estudo ir ou por que caminho profissional optar. Estes são momentos complicados para eles mas também para as famílias. Por um lado sentimos que são demasiado novos para fazer estas escolhas, por outro lado há a angústia de que uma potencial má escolha lhes possa prejudicar muito o futuro… Por isso frequentemente as escolas e as famílias recorrem a técnicos de orientação vocacional para ajudar na escolha da área certa e da profissão certa. Mas será que hoje em dia se pode falar numa profissão certa? E qual é o papel do psicólogo e dos testes vocacionais neste processo?
Orientação Vocacional…. o nome lembra-nos logo a ideia de vocação e da aparente necessidade de descobrirmos o nosso “chamamento”, a profissão “certa”, aquela que determinará o nosso sucesso e felicidade para a vida toda…
Ora nada podia estar mais errado! Longe vai o tempo da profissão/carreira para o resto da vida. O mundo profissional está em constante mudança: profissões que se extinguem, novas profissões a surgir a todo o momento, um mercado de trabalho dinâmico em que é cada vez maior a probabilidade de se mudar de emprego, perder emprego ou ter de alterar completamente o rumo profissional. Portanto, procurar certezas ou fazer futurologias em torno das profissões são ideias nas quais não podemos embarcar.
Na mesma ordem de ideias, a questão dos testes vocacionais e de um perito que nos “tira a radiografia” e nos dá as respostas que vão garantir a nossa felicidade é completamente fantasiosa. A quantos saiu nos testes que deveriam seguir uma área e depois seguem outra e estão bem e realizados?! Alguns dos testes avaliam interesses, outros avaliam aptidões… mas quem de nós mantém os mesmos interesses e aptidões aos 12, aos 14, aos 18 e ao longo da idade adulta? Quem não reviu expectativas, aprendeu e/ou mudou ao longo das diferentes experiências posteriores, algumas durante formação, outras durante a vida profissional?!
Mas então para que serve a orientação vocacional e como se faz?
De facto, hoje em dia há muitas escolhas a fazer ao longo do percurso académico, e que depois continuam pela frente no percurso profissional… e o ter de escolher gera grande ansiedade, exatamente pelo peso que cada etapa parece assumir e pela ideia de que depois será irreversível ou voltar atrás e fazer diferente será falhar. Portanto o primeiro grande objetivo dos processos formais de orientação vocacional é ajudar a desconstruir estes mitos da “área certa”, de “áreas boas e áreas más”, da “profissão certa”, da “carreira para o resto da vida” e ajudar as e os jovens e adultos a perceber a realidade formativa e a realidade laboral, a necessidade de trabalharmos a flexibilidade, a polivalência, a capacidade de conseguirmos procurar e usar diferentes tipos de experiências em áreas diferentes como sendo a grande mais-valia hoje em dia, diferenciadora e valorizada pelo mercado de trabalho.
Depois o objetivo é ajudar as e os jovens a aprender a decidir a cada etapa do seu percurso, e como se faz isto:
- Procurarem intencionalmente conhecer-se, interesses, aptidões do momento, saber o que valorizam e porquê (aqui os testes podem ajudar, mas não há nada que não se fique a perceber com uma boa entrevista semi-estruturada)
- Procurarem por si próprios explorar as suas alternativas do momento e isto implica não apenas ler folhetos ou procurar e pesquisar sobre as diferentes opções na internet, mas falar com pessoas que tenham experiência nas diferentes opções, visitar, experimentar, sempre que possível e, curiosamente, tentar procurar e saber mais mesmo de áreas que à partida não gostariam…
- Perceber o mais conscientemente possível como tomam decisões, se é por causa dos amigos, da vontade dos pais, para fugir a uma disciplina… ajudar ao estabelecimento de critérios claros que ajudem a pesar a decisão, para posteriormente terem processos mais claros de tomada de decisão.
E não será nunca um psicólogo, como não deverá ser um pai ou uma mãe a dizer vai por ali… mas antes a ajudar a perguntar: Mas porquê? E que outras alternativas tens? E o que é que sabes mesmo sobre isso? E quais são as implicações dessa opção? Fazendo isto e ajudando a que explorem alternativa, facilitando contactos, orientando pesquisas, é o melhor que podemos fazer pela sua autonomia na capacidade de decidir – porque é mesmo disso que se trata, aprender a (re)explorar, aprender a decidir e a (re)construir caminhos formativos e profissionais, agora e depois também no futuro.
Quando finalmente decidirem, é importante assumir e apoiar com a tranquilidade de sabermos todos que nada é definitivo hoje em dia, que eles vão mudar, as suas circunstâncias também e isso poderá implicar mudanças nas escolhas, mas as experiências anteriores serão sempre uma mais valia e nunca uma perda de tempo.
Hoje falámos de ajudar os nossos filhos a aprender a decidir por si, quando naturalmente são considerados nos processos de decisão. Não abordámos ainda as circunstâncias em que são conduzidos precocemente por professores e pais para um percurso formativo em detrimento de outro (clássico versus técnico ou profissional), como acontece em alguns países, ou as vantagens e inconvenientes que isso possa ter. Deixamos para a próxima a conversa sobre preconceitos e realidades em torno do ensino técnico e profissional.
Ana Cristina Barbosa
Mãe de uma pequena contestatária de 10 anos e de uma grande comilona de um ano. Formada em Psicologia na Universidade do Porto. Membro efetivo da Ordem dos Psicólogos Portugueses, especialista em Psicologia Clínica e da Saúde bem como em Psicologia comunitária, trabalha há 18 anos na área da Educação, dos quais os últimos dois no Luxemburgo.
Alexandra Brito
Filha de uma mulher eternamente inspiradora e mãe de uma adolescente brilhantemente complexa, de 14 anos. Professora do 1o ciclo há 12 anos, trabalha com crianças dos 3 aos 16 anos há mais de 20. Paralelamente, é ilustradora tendo participado em diversos projetos. Vive no Porto há 48 anos.