ESTADÃO CONTEÚDO – 27/07/2021 – SÃO PAULO, SP
Autoconhecimento é chave para estudar no exterior
ANDREA TISSENBAUM
Imagine que você acaba de chegar em uma cidade onde nunca esteve. Tudo é novo e você perdeu todas as suas referências. Sua família não está ali e ainda não tem amigos. Para dificultar um pouco mais a situação, você não domina o idioma local, o que compromete bastante sua comunicação com as pessoas…
Se você é alguém que se conhece bem, esses desafios podem ser mais facilmente encarados. É que se sentirá seguro, confiante das suas escolhas e da decisão de interromper a vida que tinha para dar lugar ao novo. Também saberá lidar com seus desejos, limitações, ansiedade e capacidade de superação. No entanto, se esse não é o seu caso, a altamente desejada experiência de estudar no exterior pode se tornar uma aventura bastante inquietante. Sim, o tema é delicado, mas altamente necessário.
A experiência internacional, tão desejada por todos, pode ser mais difícil para algumas pessoas. Não se trata simplesmente de ir para outro país a qualquer custo. Se você não estiver atento e “antenado” a quem você é, o que busca com essa jornada e o esforço que precisará fazer para realizar isso, seu sonho pode se transformar em um pesadelo.
Mariana é de Recife. Queria estudar fora porque todos os seus amigos estavam fazendo isso. Escolheu um intercâmbio de seis meses em Londres, sem pensar em suas características pessoais. Quando chegou lá se assustou com a cidade. Um mês depois, sem me conhecer, escreveu um e-mail pedindo ajuda. “Todo mundo fala que Londres é incrível, mas estou detestando tudo aqui. É muito frio, o céu está sempre cinza e eu, me sinto muito sozinha. Estou ansiosa, triste e decepcionada – quero voltar para o Brasil”.
João é de São Paulo e foi aceito para um mestrado em uma prestigiada universidade na cidade de Los Angeles. Também não avaliou como seu perfil pessoal era importante no processo de planejar seus estudos no exterior. Cuidou de sua candidatura sozinho, sem pedir ajuda ou trocar uma ideia com alguém que pudesse ajudá-lo. Passados alguns meses, entrou em contato comigo. Estava triste, se sentia isolado. “Los Angeles é muito grande, tudo é difícil aqui. Não tenho carro e o transporte público não funciona bem, tenho uma enorme dificuldade de ir aos lugares. Me sinto preso. Além disso, está difícil fazer amigos, mesmo no meu curso. E agora, o que devo fazer?”
Estes são dois exemplos de várias histórias que conheço de pessoas que saíram do Brasil sem se preparar adequadamente. Na pressa de sair do país não conversam com ninguém nem levam em conta seus porquês de estudar fora. Não estudam cuidadosamente as características de seus destinos e das instituições de ensino onde pretendem estudar. O resultado? Jornadas interrompidas prematuramente ou inícios desnecessariamente disruptivos.
Estudar fora exige autoconhecimento, em qualquer idade. É um projeto que demanda dedicação, capacidade de lidar com frustrações e disposição para chegar a lugar novo e começar do zero. Nem sempre o que se deseja ou se planejou acontece como previsto. A experiência é extraordinária e enriquecedora, verdade. No entanto, a correlação entre estudar fora, felicidade e sucesso não é obrigatória.
Se você quer ter uma experiência internacional gratificante, comece por entender quem você é e como se relaciona com o ambiente à sua volta. Consegue ficar só por um tempo prolongado? Fica assustado quando não conhece bem o terreno onde está pisando? Gosta de viver em uma cidade grande ou prefere um lugar menor, mais acolhedor? Topa desafios destemidamente ou tem os seus limites bem claros? Porque quer estudar fora?
Há muitos anos atrás fui estudar em Champaign-Urbana, uma cidadezinha universitária no estado de Illinois, Estados Unidos. Eu tinha 23 anos, muitas viagens nas costas, mas nunca havia morado em uma cidade pequena com um inverno tão rigoroso e exageradamente prolongado. Foi uma experiência difícil e bastante penosa para mim. Sabia que estava em um campus universitário maravilhoso e que tinha tudo para ser feliz, inclusive uma bolsa de estudos. No entanto, não consegui aproveitar a experiência e precisei refazer minha candidatura para uma instituição de ensino em outro estado do país.
Fato é que parti sem saber para onde estava indo, sem pesquisar ou conversar com pessoas que tinham passado por essa experiência ou estudado naquela universidade. Fui sem saber do que eu não gostava e do quanto seria custoso para mim tentar transformar sal em açúcar. Não tinha maturidade para fazer o que estava fazendo: autoconhecimento zero.
Pois é, aprendi que aprender na marra é desnecessário, especialmente se as escolhas podem ser feitas com calma e bastante informação. Mas dar tempo ao processo e se envolver com ele são fatores fundamentais para entender qual experiência será boa para você.
Não tenho nenhuma intenção de desestimular seus planos, ao contrário. Quero apenas sugerir que, antes de mais nada, você entenda se esta é uma boa escolha, no detalhe. Prepare sua jornada de estudos no exterior com muito cuidado e atenção, não importa o curso que vai fazer ou a idade que tem. Não se jogue em um novo destino sem pensar.
Afinal, você quer que sua experiência seja inesquecível, não é mesmo?