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O Tempo, https://www.otempo.com.br/interessa/coaching-fuleragem-picaretagem-em-forma-de-orientacao-1.2651488, 11/04/2022

Coaching fuleragem: picaretagem em forma de orientação

Mídias sociais aumentaram oferta de cursos de ajuda realizados por pessoas leigas e aproveitadoras

Por ALEX BESSAS

Aumento da oferta e demanda de cursos virtuais colocou em evidência práticas enganosas

Para uma adolescente com diagnóstico de depressão, que sentia não se encaixar e sofria com estigmas sociais diversos, a promessa de cura trouxe esperança. “Eu já estava em tratamento psiquiátrico quando um médico, amigo da minha mãe, recomendou a ela que eu fizesse um curso de aperfeiçoamento pessoal, baseado em uma metodologia de programação neurolinguística (PNL, uma abordagem pseudocientífica que visa aproximar comunicação, desenvolvimento pessoal e psicoterapia, criada por Richard Bandler e John Grinder na Califórnia, nos Estados Unidos, na década de 1970). Ele dizia que seria bom para mim, que em um fim de semana eu teria melhora, que esse tipo de programa era como uma versão melhorada e acelerada da psicoterapia. Minha mãe estava desesperada e me convenceu a ir”, relembra a dentista Ignes Prokop, hoje com 28 anos. “Uma pessoa que está em depressão não pode ser a única responsável por se medicar. É importante que tenha alguém por perto. E essa responsabilidade foi conferida às pessoas que organizavam o curso, que aconteceu em um resort e teve duração de três dias. Eles haviam se comprometido a ser responsáveis por isso. Mas, chegando lá, os remédios foram retirados. Me disseram que eu não precisava mais deles. E eu, que estava vulnerável, acreditei”, comenta, situando que, na época, tinha 18 anos. 

Durante o curso – que prometia a superação de medos, melhor desempenho profissional e comunicacional, mudanças de comportamentos que impedem a conquista de objetivos e o melhor entendimento do ponto de vista alheio –, Ignes conta ter sido exposta a eventos impactantes. “Eles recorriam a alguns truques para nos impressionar. Por exemplo, nos estimulavam a andar sobre as brasas e usavam isso para dizer que, se somos capazes de caminhar sobre o fogo, somos capazes de tudo – logo, era como se tudo dependesse exclusivamente da nossa vontade. Saí de lá acreditando nisso, com a sensação de ter minha autoestima potencializada. Mas, com o tempo, quando precisava lidar com coisas que não estavam sob meu controle, toda aquela convicção foi desmoronando. Felizmente, minha mãe entendeu a cilada que era aquilo, eu entendi e logo voltei a me tratar”, comenta. 

Dez anos depois dessa experiência, Ignes conta que o instituto que ofereceu o curso não existe mais. Contudo, ela pontua que essas iniciativas se pulverizaram e popularizaram. “Vejo colegas que se formaram nesse mesmo fim de semana, mas que não têm nenhuma formação em saúde mental, oferecendo consultoria para as pessoas, reproduzindo essa mesma lógica – isto é, usando o marketing do espetáculo para vender ilusões por meio de fórmulas mágicas”, critica. 

O infoprodutor Luiz Lana concorda. Para ele, uma série de fatores corrobora a profusão de bizarros cursos, mentorias e outras formas de orientação que vêm ganhando as redes sociais. “Principalmente depois da pandemia, mais pessoas passaram a se sentir mais confortáveis em fazer cursos online. E, se a busca aumentou, a demanda também se ampliou”, elabora.

Para se ter ideia, já no segundo semestre de 2020 era sensível o crescimento das buscas por atividades formativas na internet – tendência confirmada pelo relatório “A educação online avança: O que o mundo está aprendendo (em casa)”, da Udemy. Segundo a empresa, que funciona como um marketplace dedicado ao ensino na web, foi registrado um aumento de 425% nas inscrições de alunos e de 55% na criação de conteúdos de formação. 

“Esse mercado está aquecido, atraindo profissionais para o virtual – sobretudo neste momento, em que passamos por uma crise financeira”, contextualiza. “Então esbarramos em alguns problemas. Temos, de um lado, especialistas que são experts de suas áreas, mas que não estão habituados ao digital e, por isso, não conseguem oferecer bons produtos. E temos também as pessoas que, embora praticamente leigas, sabem usar as mídias sociais para se promover e conseguem vender cursos – às vezes de conteúdo antiético ou até criminoso”, pontua. 

Lana vem catalogando os principais tipos de picaretagem em termos de orientação pessoal e profissional com que esbarra nas redes sociais. “Eu trabalho com pessoas que montam e vendem cursos na internet, portanto lido com essa pauta diariamente. Sendo profissional da educação antenado com esse universo, me sinto autorizado a falar sobre esse fenômeno e, por isso, estou fazendo uma série em que busco cursos bizarros e os comento”, diz. 

Neocurandeiros 

“Um dos tipos de golpismo são os cursos com verniz neocurandeiro. Eu não tenho nada contra o misticismo, mas não é só disso que se trata. Nesses casos, as pessoas argumentam, por exemplo, que todas as mazelas da vida de alguém são provenientes de crenças limitantes. A partir dessa constatação, fazem orientações que são nocivas. Já vi profissionais, sem nenhuma formação na área da saúde, orientarem pacientes oncológicos a deixar de usar medicamentos”, detalha o infoprodutor. 

Oráculo financeiro 

Outro gênero comum de fraude tem relação com educação financeira. “Tem um perfil que diz que o segredo do enriquecimento é fazer a maratona da gratidão. Essa pessoa se diz doutora em gratidão, seja lá o que isso signifique, e diz que o agradecimento é o maior conhecimento científico do século XXI. É tudo hiperbólico, exagerado. E não estou falando que ter uma perspectiva positiva para as coisas seja ruim, mas prometer que, depois de fazer o curso e de ser grato, você vai conquistar tudo é, no mínimo, enganação”, sinaliza, pontuando que o esquema é especialmente cruel por convencer as pessoas de que tudo depende de elas serem gratas. “E, se nada der certo, o sujeito ainda vai se sentir constrangido de reclamar, porque estaria justificando o argumento do curso – ou seja, não deu certo porque ela não ficou agradecida por aqueles ensinamentos”, comenta. 

Coach piramideiro 

“Também um ramo que atrai muitos golpistas são as pirâmides financeiras. Tem muitas pessoas que se dizem coaches da vida, que se utilizam da falta de regulamentação dessa profissão para se aproveitar de quem está em busca de algum tipo de aperfeiçoamento e de conseguir melhorar a gestão da própria renda. Eu chamo essas pessoas de ‘coaches piramideiros’, que abusam de metodologias financeiras que são ilegais escondidas por um verniz de autoajuda”, sinaliza Lana. O especialista em design informacional detalha que há ainda problemáticos cursos de propagação do machismo. “Alguns chegam a argumentar que um menino não deve ser criado pela mãe, porque, se isso ocorresse, ele não desenvolveria a masculinidade e se tornaria emasculado. Essas figuras são um desabono”, lamenta. 

Fugindo das ciladas 

Para fugir de tanta picaretagem, Luiz Lana lembra que o melhor caminho é pesquisar. “Antes de começar o curso, é importante ter mais detalhes sobre o programa, a metodologia, saber como outras pessoas saíram dali”, observa. 

O infoprodutor reconhece que nem sempre é fácil diferenciar bons e maus profissionais. Mas algumas dicas ajudam nesse processo. Para começar, vale ficar com o pé atrás diante de promessas exageradas, que prometem soluções fáceis, rápidas e excepcionalmente eficazes. Além disso, ajuda que, ao procurar um curso, a pessoa tenha em mente quais são seus objetivos, assim poderá escolher um curso ou orientação de maneira mais adequada.

Categorias: Coaching

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