Cursos de Direito e Medicina são perda de tempo, segundo ex-executivo do Google: isso faz sentido?
Fala traz visão reducionista do papel da universidade de promover desenvolvimento integral do estudante, dizem especialistas e professores da área
Por Vanessa Fajardo | OESP*
‘É uma questão de vender nossa humanidade para as máquinas’, diz Marcelo Gleiser sobre avanço da IA
Ex-executivo do Google, Jad Tarifi sugeriu que a geração Z repense o investimento no ensino superior por causa da inteligência artificial. Para ele, cursos como Direito e Medicina – que tem duração mínima entre cinco e seis anos – podem até não “valer mais a pena”, já que são longos demais para a rapidez do avanço da IA. A tecnologia vai nos fazer, de fato, abrir mão do diploma?
Especialistas e professores dessas áreas ouvidos pelo Estadão reconhecem a necessidade de atualizar currículos diante das inovações tecnológicas, mas defendem o papel da universidade na formação dos profissionais.
Segundo eles, esse é o espaço que permite troca entre pares, escuta e debate além de conteúdo técnico e convivência com a diversidade. Tudo isso, destacam, contribui para a formação integral do estudante.
Além disso, ainda que os recrutadores não se orientem apenas na formação universitária para oferecer um emprego, ela ainda é uma referência na escolha de profissionais, sobretudo os mais jovens.
Marina Feferbaum, coordenadora de Metodologia e Novas Tecnologias de Ensino da FGV Direito SP, reforça que o papel da universidade não é simplesmente atender ao mercado. “(É de) Criar cidadãos éticos, responsáveis, que pensam em desenhar todo esse panorama digital, dominado por big techs, de modo mais justo. Nosso papel também é combater injustiças e trabalhar com ética”, diz.
Para Rodrigo Capelato, diretor-executivo do Semesp, entidade que representa as faculdades, aponta para a necessidade de separar o que são atividades para nós e quais atividades podem ficar sob responsabilidade das máquinas.
“A inteligência artificial é importante para fazer tarefas que não deveriam ser dos humanos, mas há toda uma camada de pensamento crítico, análises e pesquisas para elaborar mais conhecimento que a IA não faz. A capacidade de atender o ser humano na área da saúde, do direito ou todas as outras, é humana.”
O retorno aos bancos universitários
Ao mesmo tempo que as tecnologias digitais e a IA generativa colocam em xeque o futuro do ensino universitário, exigindo novo padrão de formação, Marina Feferbaum acredita que este seja justamente um momento propício para reinvenção.
“A universidade tem papel central de criar pessoas com visões críticas a essas ferramentas de tecnologia, não simplesmente para usá-las como solução ou substituição aos profissionais. Precisamos ver se tem ou não vieses, se não é discriminatória, tudo isso”, diz Marina.
Segundo ela, quando se pensa em curso de ensino superior, há de se esclarecer se o objetivo está no desempenho ou aprendizagem, assim como sugere o artigo Learning and Performance in the World of Generative AI publicado pelo MIT Open Learning. Ele é resultado da experiência entre duas turmas de alunos que deveriam resolver exercícios matemáticos: uma delas usava o ChatGPT e a outra, não.
A primeira, que usou a ferramenta, finalizou a missão em duas horas e a outra, em dez. Ambas acertaram as respostas, mas ao retornar para a sala de aula, a turma que recorreu à IA generativa não soube explicar os caminhos e justificativas que os levaram às respostas, indicando, por exemplo, que não houve compreensão e aprendizagem.
Já a outra metade dos alunos, que não teve a ajuda tecnológica, demonstrou maior assimilação do conhecimento.
‘Nenhum algoritmo é capaz de oferecer empatia’
Para a diretora da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (USP), Eloisa Bonfá, a Medicina sempre foi e seguirá uma das áreas que mais exigem dedicação intensa, disciplina e atualização contínua. O avanço tecnológico, longe de tornar o estudo obsoleto, reforça ainda mais a necessidade de formação sólida, segundo ela.
“Nenhum algoritmo é capaz de oferecer empatia, acolhimento, sensibilidade, julgamento ético e responsabilidade social. O que está em jogo não é apenas técnica, mas vidas humanas. Na Faculdade de Medicina da USP, formamos médicos para cuidar de pessoas, e a conexão profundamente humana é insubstituível”, diz Eloisa.
Para a professora, a IA pode processar grandes volumes de dados e seguir protocolos, mas só o ser humano consegue interpretar nuances, lidar com incertezas, compreender contextos culturais e tomar decisões éticas complexas.
Por outro lado, ela salienta que é um grande desafio integrar de forma ágil as inovações tecnológicas, atualizando currículos e metodologias sem reduzir a densidade da formação dos futuros médicos. Além da graduação, os profissionais precisam passar pela residência médica.
Para se alinhar a essas tendências digitais e demandas, a USP construiu um centro de treinamento em cirurgia, com simuladores, cirurgia robótica e novos espaços de simulação realística, além da sala de ensino virtual, com tecnologia de ponta, com estações de realidade aumentada e mesa de ensino virtual de anatomia que se alia ao ensino realizado tradicionalmente.
Revisando os currículos
Nos Estados Unidos, pesquisa de 2024 pela Inside Higher Ed, organização de notícias do ensino superior, em parceria com a Hanover Research, uma empresa de pesquisa, ouviu 2.693 reitores de universidades públicas e privadas. O resultado foi que 14% das instituições já fizeram alguma revisão do currículo levando em conta o impacto da IA.
Outras 73% declararam planejar uma atualização. Os dados também mostram que só 20% das instituições publicaram uma política que institucionaliza o uso da inteligência artificial.
No Brasil, Capelato, do Semesp, diz que as instituições tentam entender os caminhos para a implementação, já que o uso de IA exige um modelo de governança. “Precisa ser implementada junto com regimentos internos de como os professores, gestores administrativos e alunos podem usá-la como ferramenta de apoio, mas não em substituição ao processo de aprendizagem”, afirma.
Nina Ranieri, professora da Faculdade de Direito da USP, diz que a IA facilita o acesso ao conhecimento, mas não substituirá, por exemplo, a capacidade de pesquisar. “Pode até ajudar a traçar as fronteiras da pesquisa de determinado tema, aponta até onde chegou, os pontos mais avançados.”
Entretanto, para a acadêmica a chegada da tecnologia, aponta uma necessidade de adaptação do ensino superior, tendo em vista a mudança também dos estudantes. “A demanda da leitura é mais custosa, porque tudo é mais curto, imediato e rápido. A preparação mais longa se torna cansativa”, diz ela, coordenadora da Cátedra Unesco Direito à Educação USP.
Para Nina, a IA pode e deve ser utilizada para a criar atividades mais estimulantes. “É diferente ensinar para a geração que cresce já impactada pela tecnologia do que se ensinava antes. É preciso enorme trabalho de adaptação para o aluno não perder o interesse na aula. Mas estou mais preocupada em entender o que estimula sua criatividade, e menos preocupada com os avanços da IA.”
Professor precisa entender novo papel
Neste ano, pela primeira vez, o curso com a maior nota de corte da Universidade Federal de Goiás (UFG) não foi o de Medicina. O bacharelado em Inteligência Artificial, criado em 2019, ganhou o status de graduação mais concorrida.
O coordenador, Anderson Soares, atribui a procura ao protagonismo do tema, mas também ao projeto pedagógico da formação, focada em empreendedorismo, aprendizado baseado em experiência, além de alinhada às demandas do mundo do trabalho.
A UFG mantém parceria com 70 empresas que contratam a universidade para desenvolver soluções inovadoras. Nesses projetos, estudantes de IA, em diferentes estágios de formação, trabalham lado a lado com professores, em uma experiência próxima à realidade do mercado.
Para Soares, as críticas de Jad Tarifi estão ao modelo tradicional que ainda vigora em grande parte das instituições de ensino. “A educação é um setor conservador e, ao longo desses ciclos de evolução tecnológica, a internet causou muito impacto. Mas, com a IA será ainda maior porque ela não só produz novos elementos, mas a soma dos anteriores.”
Neste cenário, ele diz que o docente precisa entender seu novo papel de mediar a construção do conhecimento, e não apenas transmiti-lo. “O professor que era detentor exclusivo do saber não se sustenta mais. Se eu me apegar ao modelo de aulas que dava, não vejo futuro. Mas se falar de experiências que vivi e vivo e promover pontes, meu papel continua ativo.”
*Estado de São Paulo, https://www.estadao.com.br/educacao/cursos-de-direito-e-medicina-sao-perda-de-tempo-segundo-ex-executivo-do-google-isso-faz-sentido/, 23/08/2025