UOL EDUCAÇÃO, https://educacao.uol.com.br/noticias/2021/08/30/enem-quais-os-erros-da-edicao-passada-e-como-melhorar-em-2021.htm, 30/08/2021 – SÃO PAULO, SP
Enem: Quais os erros da edição passada e como melhorar em 2021?
MANUEL MARÇAL – COLABORAÇÃO PARA O UOL, EM BELO HORIZONTE
A não renovação da isenção da taxa de inscrição a candidatos que faltaram no último Enem (Exame Nacional do Ensino Médio) foi apontada como um dos principais fatores para o baixo número de inscritos na edição de 2021 da prova.
Especialistas ouvidos pelo UOL criticaram a atitude do Inep (Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira), responsável pela aplicação.
Ao todo, são cerca de 4 milhões de alunos inscritos, o menor registro desde 2009, quando o Enem adotou o atual formato. O exame será realizado nos dias 21 e 28 de novembro deste ano.
Mas, já que não veem possibilidade de voltar atrás na decisão, os entrevistados defendem a adoção de políticas e campanhas que incentivem o comparecimento ao Enem como forma de tentar amenizar o fosso de desigualdade social e educacional no Brasil.
Eles enxergam a medida como um jeito de minimizar as consequências da disparidade com o ensino remoto na pandemia, quando muitos estudantes resolverem não fazer o exame por não se sentirem capacitados.
Histórico sobre a taxa
O benefício da gratuidade da taxa de inscrição passou a não ser automático em 2017 para aqueles que não compareceram ao exame. Então presidente do Inep, Maria Inês Fini queria diminuir o número de candidatos que faltavam sucessivamente. Havia casos, por exemplo, de pessoas que não compareceram por cinco anos seguidos.
O grande número de faltas aumenta os custos logísticos aos cofres públicos, porque é necessário imprimir mais provas, que, ao final, não serão aproveitadas. Por isso, para ter direito à gratuidade novamente, foi exigido que o candidato apresentasse uma justificativa para a ausência.
Mas a educadora diz que o contexto, durante a pandemia, é completamente diferente. Ela defende a renovação automática como um direito, independentemente dos motivos de quem não foi fazer a prova. `Isso seria um gesto de política pública consciente`, diz.
Não há atestado médico para o medo, não há atestado para a insegurança. E é um direito que essas pessoas têm de se sentirem seguras.
Maria Inês Fini, educadora e uma das criadoras do Enem
Não dar a gratuidade é visto por ela como uma política que gera exclusão. `O aprendizado com uma crise só pode ser positivo se aprendermos com o que erramos. Lamentavelmente, parece que a gestão do Ministério da Educação não aprende com os próprios erros`, afirma Fini.
Ela aponta três erros principais do MEC em 2020:
• não estender a gratuidade;
• não prorrogar por mais uma semana as inscrições;
• não mobilizar os jovens a fazerem a prova.
Campanha nacional
A educadora Maria Inês Fini diz que o MEC precisa se mobilizar a favor dos jovens no Brasil de modo a encorajá-los a fazer o Enem.
`[Precisa] Mobilizar os atores sociais, como secretários estaduais de educação, e convocar os professores para que todos chamem os jovens.`
Para a diretora do Centro de Excelência e Inovação em Políticas Educacionais Claudia Costin, da FGV (Fundação Getúlio Vargas), a última edição foi uma das mais excludentes, porque escancarou as desigualdades da educação básica.
Costin chamou de `falta de empatia muito grande` a medida do governo de não conceder a isenção automática.
`Falta eles entenderem a dimensão da crise que estamos vivendo. Ela não é só sanitária, é uma crise econômica. A situação das famílias hoje está pior que do que estava no Enem passado. Muitas pessoas perderam emprego`, diz.
Fazer com que pessoas que não podiam pagar em 2020 tenham de pagar a inscrição está jogando o peso nos mais vulneráveis e nos mais atingidos pelas circunstâncias econômicas da pandemia.
Claudia Costin, da FGV
Vacinação avança
Os especialistas também estão otimistas com o avanço da vacinação, com muitos estados querendo completar a vacinação da população adulta antes do final do ano, o que talvez permita fazer um Enem mais seguro, sem o medo de se contaminar que havia em janeiro, quando aconteceu a edição de 2020.
Mas, para evitar a repetição dos erros da prova passada, eles pedem mais distanciamento físico entre as carteiras como forma de não gerar aglomeração nas salas.
O infectologista Unaí Tupinambás, que também é professor da UFMG (Universidade Federal de Minas Gerais), defende que é preciso ter um controle muito mais rigoroso na entrada e na saída do exame.
`Quanto maior o número de pessoas vacinadas no Brasil, maior é a chance de proteção e de diminuir a transmissão do vírus`, afirma.
Entre as ações de segurança sanitária, Tupinambás sugere:
• aplicadores de prova sem comorbidades e que já estejam vacinados;
• dispositivos de higienização das mãos em fácil acesso;
• janelas e portas abertas nos locais de aplicação;
• distanciamento entre carteiras de dois metros.
Em relação ao uso de máscara, o infectologista sinaliza que o ideal é que cada estudante tenha consigo, no mínimo, quatro máscaras e que elas sejam trocadas a cada duas horas de prova.
Também sugere a expansão dos locais de prova para diminuir o número de alunos concentrados em um único ambiente. Para ele, locais abertos, como quadras poliesportivas e pátios escolares, pode ser uma opção.
`Nós temos que diminuir o número de alunos por sala. Isso é básico para evitar aglomeração em espaços fechados`, diz.
Costin concorda: `Vai precisar fazer distanciamento social, vai precisar calcular direito quantos cabem em cada sala, tendo a metragem`.
Tupinambás afirma ainda que é impossível prever o cenário com a expansão da variante delta pelo país. Mas que, se houver um agravamento dos casos, será preciso repensar os protocolos.
Aplicativo para organizar salas de prova
Calcular o distanciamento entre as carteiras para o Enem dá trabalho. Por isso uma parceria entre a Unifesp (Universidade Federal de São Paulo) e o Inep vai ser primordial.
No aplicativo `Sala Planejada`, os responsáveis preenchem os campos com as dimensões da sala e da cadeira, a quantidade de cadeiras desejadas, bem como a distância necessária entre elas. Com base nesses parâmetros, o programa gera de forma imediata opções de layouts.
Fini avalia como positiva a iniciativa e defendeu dobrar o número de salas de aplicação como forma de evitar aglomeração. Por fim, questionou preocupada se o Inep terá recursos para arcar com os custos.
Para Tupinambás, porém, a medida não representa um gasto, mas um investimento. `Se estamos evitando um surto ou aumento de casos, estamos na verdade economizando dinheiro.`
Professor titular de economia da USP Ribeirão Preto, Reynaldo Fernandes diz que a realização do exame em plena pandemia envolve questões logísticas e sanitárias que são difíceis de serem analisadas e que não há uma solução fácil.
O ex-presidente do Inep alerta sobre a segurança do exame: à medida que se dispersam os locais de aplicação e se aumenta o número de salas, corre-se o risco de vazamento da prova. `Não é um problema trivial`, diz.
Mas vê com maior preocupação a fala do ministro Milton Ribeiro de censurar questões. `É um absurdo isso. Nunca vi um tema de redação. Fui presidente do Inep por cinco anos [de 2005 a 2009] e só conhecia o tema da redação com a sociedade.`
`A ideia de um grupo que olha se as questões são adequadas ou não, se isso ou aquilo tem ideologia de gênero. Isso é um comitê de censura.`