Já não querem ser astronautas ou médicos: 60% das crianças sonham ser estrelas do TikTok e do YouTube, revela estudo
Investigação recente indica que crianças tão novas como sete anos já apontam as redes sociais como inspiração direta para o futuro profissional
Francisco Laranjeira | Executive Digest*
Durante décadas, a resposta vinha quase automática: quando crescessem, muitas crianças queriam ser astronautas, médicos, professores, futebolistas ou cientistas. Hoje, há uma nova profissão a entrar cedo no imaginário infantil: influencer.
Segundo o ‘Daily Mail’, uma investigação recente indica que crianças tão novas como sete anos já apontam as redes sociais como inspiração direta para o futuro profissional. Em alguns casos, quando os investigadores perguntaram o que queriam ser quando crescessem, os alunos limitaram-se a desenhar o logótipo do TikTok ou do YouTube.
O estudo, conduzido por investigadores que entrevistaram alunos nos Estados Unidos e na Noruega, mostra que 60% dos estudantes do ensino básico e secundário dizem querer ser influencers ou admitem ter escolhido a futura carreira com base no que veem nas redes sociais.
“São famosos” e “ganham muito dinheiro”
As razões dadas pelas crianças são reveladoras. Muitas associam os criadores de conteúdo à fama, ao dinheiro e à visibilidade. Para uma geração que cresceu rodeada de vídeos curtos, rotinas filmadas, desafios virais e vidas aparentemente perfeitas no ecrã, ser influencer surge como uma carreira tão concreta como ser jogador de futebol ou cantor.
O fenómeno não se limita a crianças muito pequenas. Entre os alunos mais velhos continuam a surgir profissões tradicionais, como eletricista, engenheiro, professor ou soldador, mas a influência das redes sociais aparece de forma transversal. Mesmo quando não querem ser famosos, muitos estudantes dizem ter descoberto uma profissão através de conteúdos online.
Quando o YouTube substitui a orientação vocacional
Desde 2021, os investigadores têm entrevistado alunos do ensino básico, médio e secundário nos Estados Unidos, e desde 2024 alargaram o trabalho à Noruega. No estudo mais recente, ouviram 80 crianças entre os sete e os 11 anos, 140 alunos do ensino médio e secundário no Wisconsin e mais de 60 crianças de idades semelhantes na Noruega.
As respostas mostraram semelhanças entre os dois países. Matthew Simoneau, professor da Universidade do Wisconsin e autor principal do artigo, contou no ‘The Conversation’ que uma criança do segundo ano na Noruega desenhou um logótipo do YouTube quando lhe perguntaram o que queria ser. Quando a mesma pergunta foi feita a crianças no Wisconsin, as respostas foram muitas vezes parecidas.
Influencer, mesmo sem saber influenciar o quê
O detalhe mais curioso é que algumas crianças escreviam simplesmente “influencer”, sem explicar quem queriam influenciar ou sobre que tema. Para os investigadores, isso mostra que o apelo da profissão está muitas vezes menos ligado ao conteúdo e mais à imagem pública: ser visto, ser seguido, ser reconhecido.
Ainda assim, o contacto com redes sociais nem sempre teve efeitos negativos. Um aluno de uma zona rural, por exemplo, disse que queria ser biólogo marinho depois de ver conteúdos online, apesar de viver a mais de 2.000 quilómetros do oceano. Neste caso, a internet abriu uma janela para uma profissão que dificilmente faria parte do seu quotidiano.
O risco de vender fama como carreira
O problema, alertam os investigadores, é que a maioria das crianças não vê o lado menos glamoroso da profissão. A vida de influencer é apresentada como uma mistura de fama, dinheiro fácil, viagens e produtos gratuitos, mas a realidade é muito mais instável.
Mesmo entre os criadores de conteúdo que conseguem construir uma audiência, mais de metade dos produtores nos Estados Unidos ganha menos de 15 mil dólares por ano, cerca de 13.900 euros. Ou seja, a profissão existe, mas está longe de ser uma promessa segura de rendimento, estabilidade ou sucesso.
As escolas estão a ficar para trás
Para Simoneau, o estudo revela também um problema nas escolas: muitos programas de orientação vocacional continuam presos a modelos antigos. No Wisconsin, por exemplo, os estabelecimentos de ensino são obrigados a fornecer planeamento de carreira a alunos entre o sexto e o nono ano, com questionários online anuais.
Mas os estudantes dizem que esses programas são repetitivos, pouco úteis e desligados da realidade. Uma aluna que já tinha sido aceite num curso de enfermagem contou que o teste lhe sugeriu ser camionista. Para os investigadores, este desfasamento abre espaço para que as redes sociais preencham o vazio deixado pela escola.
Redes sociais competem com a educação formal
A conclusão é clara: se a escola não consegue falar de futuro numa linguagem próxima dos alunos, as redes sociais acabam por fazê-lo. TikTok, YouTube e Instagram não são apenas entretenimento; estão a moldar expectativas, referências e ambições profissionais.
Isso não significa que todas as crianças que querem ser influencers devam ser desencorajadas. A criação de conteúdo envolve comunicação, criatividade, edição, marketing, escrita, imagem e capacidade empresarial. Mas, para os investigadores, é essencial que os jovens compreendam também os riscos: precariedade, exposição pública, pressão psicológica, instabilidade financeira e dependência de algoritmos.
O que os pais podem fazer
O ‘Daily Mail’ recorda ainda que crianças muito pequenas já usam redes sociais, o que reforça a importância do acompanhamento parental. Especialistas recomendam o uso de controlos parentais, limites de tempo de ecrã e, sobretudo, conversas abertas sobre o que os filhos veem online.
A recomendação mais importante talvez seja não tratar a internet apenas como ameaça ou distração. Para muitas crianças, é já o lugar onde descobrem profissões, pessoas, estilos de vida e possibilidades. O desafio é ajudá-las a separar inspiração de ilusão.
No fundo, a pergunta “o que queres ser quando cresceres?” continua a ser a mesma. O que mudou foi o espelho. Antes, muitas crianças olhavam para livros, televisão, família ou professores. Agora, olham para ecrãs onde pessoas aparentemente comuns parecem transformar a própria vida em profissão. E é aí que a escola e os pais terão de voltar a entrar na conversa.
*Executive Digest, https://executivedigest.sapo.pt/ja-nao-querem-ser-astronautas-ou-medicos-60-das-criancas-sonham-ser-estrelas-do-tiktok-e-do-youtube-revela-estudo/, 04/07/2026