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UOL EDUCAÇÃO – 13/08/2021 – SÃO PAULO, SP

Jovem surpreende mãe faxineira ao passar em medicina no AC

CAIO SANTANA / DO UOL, EM SÃO PAULO

André Ramon Arruda Maciel, de 26 anos, conseguiu a tão sonhada aprovação no curso de medicina depois de 14 tentativas e sete provas do Enem (Exame Nacional do Ensino Médio), justamente no dia do seu aniversário, 10 de agosto. De origem humilde e criado sem o pai, ele surpreendeu sua mãe ao contar que foi aprovado em medicina.

`Mãe, eu vim lhe avisar que não era uma ilusão, era só um sonho difícil e eu passei em medicina na Universidade Federal do Acre`, disse o rapaz em vídeo gravado por amigos.

Em entrevista ao UOL, ele deu detalhes da sua trajetória, as barreiras que teve de superar em busca da aprovação e os entraves do ensino público do interior do Brasil para uma família de origem pobre.

Nascido em Rio Branco, André foi rejeitado pelo pai e aos dois anos foi morar com a avó na zona rural de Acrelândia (AC). `Minha mãe conta que meu pai não queria que eu viesse ao mundo. Então ela se separou, ele sumiu. E ela teve que me criar sozinha. Justamente por isso, por faltas de condições na época, ela teve que me enviar para morar com minha avó`.

Ele ficou sem estudar até os seis anos, quando entrou no ensino fundamental. A falta de alfabetização na pré-escola o fez reprovar logo na primeira série e também no ano escolar seguinte. Devido ao atraso no ensino, quando ele foi para a quinta série, entrou para o Projeto Poranga, um programa de aceleração de ensino, conseguindo voltar à série conforme sua idade.

Contudo, o ensino público acreano tinha os mesmos problemas de boa parte dos demais estados: escolas com falta de professores e salas superlotadas. `Quando terminei o terceiro ano do ensino médio eu não conseguia nem fazer `multiplicação com vírgula`, ou ler um texto de cinco linhas sem eu esquecer o que tinha lido na primeira linha`. Sem nem saber o que era Enem direito, ele não tinha sequer perspectiva de faculdade.

Sete anos de luta

Como sua mãe Vilenilde Arruda Maciel, de 48 anos, estudou até o ensino fundamental, ela impulsiona seus filhos para um futuro melhor. `Como ela nunca teve chance de estudar, ela sempre quis proporcionar isso para a gente, ela sempre se sacrificou para termos condições mínimas de estudar`, disse André.

Outro alicerce que ele teve no apoio dos estudos foi com o economista Pablo Marques, professor do Instituto Federal do Amazonas, que o orientou a cursar uma faculdade e financiou seus estudos, já que o salário da sua mãe como diarista e auxiliar de serviços gerais era insuficiente. Foi com esses incentivos que ele seguiu o sonho de fazer medicina.

`A gente sabe que no Brasil, aqui no Acre, a cultura é de que quando o jovem completa 18 ou 19 anos, ele tem que ir embora da casa da mãe para trabalhar. Isso o jovem pobre, diferente do jovem rico [que quando] está estudando é chamado de estudante. Já o jovem pobre, da minha realidade, quando eu estava estudando eu era chamado de vagabundo e me chamaram até de inútil`, desabafa.

De 2014 até 2019, ano em que conseguiu vaga em cursinho renomado de Rio Branco, André não conseguiu ser aprovado. Em 2020 veio a pandemia e tudo fechou. Sua mãe a essa altura, já estava sustentando sozinha após se separar do padrasto de André uma casa inteira com sete filhos, quatro deles menores de idade.

A situação da família cuja renda per capita não passa de 250 reais piorou na pandemia: `Nesse anos todos nunca chegamos a passar fome. Mas passamos por `muito baixo` mesmo. Ainda hoje às vezes só tem arroz e salsicha para comer. No tempo de pandemia as coisas ficaram bem feias`, afirma André. `Minha mãe segura `as pontas` sozinha, é uma guerreira`, diz o filho.

Mesmo com as coisas mais complicadas, André conseguiu, com ajuda de outro amigo do bairro, continuar seus estudos de cerca de oito horas por dia e finalmente alcançar a aprovação. E ele ainda conseguia tempo para trabalhar em intervalos curtos: `Sempre limpei quintal, piscina, fiz serviço de pintura, todos os bicos que apareciam [no período] eu fiz`.

Sonho alcançado

Sua trajetória difícil até a aprovação `não era uma ilusão`, veio após conversas delicadas que ele tinha com a mãe e até mesmo depois de pressões do seu então padrasto para que ele trabalhasse em emprego formal.

`Tinha certos momentos que ela até ficava um pouco desacreditava. Era um curso muito concorrido, e ela chegava para mim [e perguntava] se eu queria realmente medicina, se eu não poderia fazer outro curso. […] Mas a gente esfriava a cabeça e sentava para conversar e ela voltava a me apoiar incondicionalmente`, conta o jovem.

Vilenilde, mais conhecida como Nilde, relembra esses momentos ao falar sobre a aprovação do filho. `Estou muito feliz sim e ainda estamos digerindo tudo o que está acontecendo. Sei que meu filho é muito dedicado e perseverante, porque por algumas vezes eu mesmo cheguei a pedir para ele fazer outro curso por ver durante todos esses anos ele não ter aprovação no curso de medicina. Mas graças à Deus ele continuou tentando`, disse ao UOL.

Cotista de escola pública e baixa renda, além de autodeclaração racial, André Ramon passou em medicina no dia do seu aniversário. `Feliz aniversário esse é o melhor presente para mamãe, viu?! Parabéns mesmo`, falou a mãe emocionada no vídeo que ele revela sua aprovação.

Hoje, André conta com orgulho seu caminho e diz ainda estar digerindo sua aprovação: `Estou me sentindo muito feliz, realizado e meio anestesiado ainda. Para mim, é uma grande oportunidade de mudar de vida, construir a casa da minha mãe que ainda é de madeira. É um segundo grande sonho que eu tenho, de um dia fazer uma casa para a minha mãe`, deseja.

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