O GLOBO – 17/02/2021 – SÃO PAULO, SP
Na pandemia, vestibulares realizados em casa viram realidade em universidades privadas
BRUNO ALFANO
Ao menos 1.300 instituições de ensino superior realizaram vestibulares remotos em 2020 para cerca de meio milhão de estudantes
Enquanto alunos pediam o adiamento do Enem — em vão, o que causou uma taxa recorde de abstenção —, as universidades privadas buscaram maneiras de realizar processos seletivos à distância. Mais de 1.300 instituições organizaram vestibulares nos quais os estudantes faziam a prova de casa para o primeiro semestre de 2021. Entre elas, nomes importantes do setor como a Fundação Getúlio Vargas (FGV) e a Pontifícia Universidade Católica (PUC) de alguns estados.
Facilidade de correção, maior alcance geográfico (já que alunos de qualquer local do mundo podem fazer a prova) e fim de todo o processo de impressão e distribuição de provas físicas são alguns benefícios que pesam para que o modelo ganhe força mesmo após o fim da pandemia.
— Ainda não dá para definir se continuaremos utilizando esse modelo quando a Covid-19 passar, mas posso dizer que a tendência é de manter — afirma Vidal Martins, vice-reitor da PUC-PR.
A instituição decidiu usar o mecanismo para poder realizar o vestibular sem riscos, nem prejuízos ao calendário acadêmico. Assim, quase oito mil estudantes participaram de dois processos seletivos, um para Medicina e outro para os diversos outros cursos.
Para Antonio Freitas, pró-reitor da FGV, outra vantagem é a possibilidade de selecionar talentos que estão longe dos grandes centros urbanos.
— Deixa de ser um exame da Zona Sul do Rio para ser um exame nacional — diz.
Recursos pedagógicos
A prova é realizada com dia e hora marcados. O aluno, no computador de casa, precisa usar um software específico para fazer o download do exame. A partir daí, não pode mais sair da cadeira, acessar outros dispositivos ou materiais, nem ter contato com outras pessoas (veja mais medidas de segurança ao lado).
No caso da PUC-PR, as questões e alternativas eram randômicas: ou seja, nenhum candidato teve uma prova igual a outra, o que dificulta a tentativa de um candidato tentar colar de outro participante.
— Avaliações digitais apresentam características positivas ou negativas — afirma Wagner Rezende, conselheiro da Associação Brasileira de Avaliação Educacional (Abave) e pesquisador do Centro de Políticas Públicas e Avaliação da Educação da Universidade Federal de Juiz de Fora (CAEd/UFJF). — Por um lado, elas precisam de adaptação. Nem todo mundo sabe fazer prova por meio digital. Pessoas com acesso a internet têm maior familiaridade em relação a isso, o que significa um viés de classe claro na hora da seleção.
Porém, o especialista aponta que há vantagens pedagógicas nesse formato.
–—Ela permite desenvolver itens interativos. Por exemplo, um gráfico de matemática que se altera enquanto o aluno interage. Isso dá muitas possibilidades. Também pode haver provas adaptativas que vão mudando de dificuldade de acordo com o desempenho do aluno.
Desde a pandemia, mais de meio milhão de estudantes realizaram provas remotas. Em janeiro, o Amigo Edu, uma startup que organiza esse tipo de vestibular para universidades, realizou um exame que servia como vestibular para 47 mil participantes — o dobro do que o Enem digital, realizado em centros presenciais.
A Associação Nacional das Universidades Privadas (Anup) também realizou uma seleção online e gratuita, com ofertas de bolsa de 100% ou bônus no pagamento da matrícula de acordo com a nota.
— Essa também é uma forma de captar alunos neste momento de dificuldades econômicas das universidades privadas que gera economia — afirma Elizabeth Guedes, vice-presidente da Anup.
Futuro do Enem
Na avaliação de Wagner Rezende, conselheiro da Abave, a ideia de transformar o vestibular remoto em política pública está no horizonte, ainda que distante.
— Num primeiro momento, por questões de segurança, penso que ir a um local específico para fazer uma prova digital seja uma saída mais imediata. Mas acho que o vestibular remoto é um caminho para um momento posterior — diz.
Beto Dantas, CEO do Amigo Edu, afirma que o Enem pode existir num modelo híbrido, em que parte dos alunos façam de casa e outra parte – especialmente aqueles com dificuldade de acesso à internet – em locais de aplicação.
— Se o governo liberar a correção por inteligência artificial, é possível entregar a nota do Enem em cinco minutos. Hoje o aluno clica o botão de entregar a prova e nesse tempo a universidade já recebe a correção c afirma o CEO.
A Índia vai realizar a seleção para os cursos de Direito no país, um dos processos seletivos mais importantes do país de 1,3 bilhões de pessoas, através de um vestibular remoto.
O modelo também foi cogitado pelo College Board, empresa responsável pelo SAT, teste padronizado que é aplicado nos EUA e aceito até 2020 nas principais universidades do país. Os organizadores , após meses de desenvolvimento, desistiram do projeto. As instituições de ensino americadas decidiram não usar essas notas para seleção neste ano, por conta da pandemia.
— No mundo, esse modelo é muito usado em países com dimensões continentais, como o Canadá, para atender alunos que vivem em locais remotos — diz Jane Reolo, especialista de Desenvolvimento de Soluções do Instituto Unibanco. — Mas tecnologia só é boa se for inclusiva. Só serve para o Brasil se mais pessoas puderem fazer o Enem por ele ser remoto.