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Estado de São Paulo, https://pme.estadao.com.br/noticias/geral,nao-olhe-para-sua-vida-como-se-fosse-uma-empresa-diz-psicanalista,70003589562, 22/01/2021

Não olhe para sua vida como se fosse uma empresa’, diz psicanalista

Christian Dunker, professor do Instituto de Psicologia da USP, fala sobre fatores que levam a sintomas e doenças mentais entre empreendedores e dá dicas para manter os estados emocional e psicológico estáveis

Entrevista com Christian Dunker, psicanalista e professor do Instituto de Psicologia da USP

Ludimila Honorato, O Estado de S.Paulo

A saúde mental e emocional das pessoas deve ser tema prioritário de discussão em todos os ambientes. No mundo dos negócios, o assunto torna-se relevante pela quantidade de empreendedores que são afetados por sintomas ou doenças da mente. Em 2020, devido à pressão que a pandemia exerceu sobre os donos de negócios, o nível médio de estresse, ansiedade e depressão deles foi similar ao de profissionais de saúde. Dos 653 entrevistados, 15% relataram ter iniciado o uso de antidepressivo, ansiolítico ou ambos.

Mas antes da crise sanitária, a responsabilidade de estar no comando de uma empresa, lidar com fornecedores e funcionários, cumprir prazos e atingir metas já contribuíam para o desenvolvimento de transtornos mentais nesse público. Uma pesquisa realizada nos Estados Unidos e publicada em 2018 na revista Small Business Economics mostrou que 72% dos 242 empreendedores entrevistados eram direta ou indiretamente afetados por questões de saúde mental. Em comparação, 48% dos não empreendedores (93) relataram o mesmo.

O levantamento mostrou, também, que os donos de negócio relataram ter mais depressão (30%), TDAH (29%), fazer uso de substâncias (12%) e transtorno bipolar (11%) do que os participantes do grupo comparativo. Para o psicanalista Christian Dunker, professor do Instituto de Psicologia da USP, transformações no modo de trabalho, a digitalização e as relações pessoais e coletivas contribuem para esse cenário.

“Há formas de transtornos considerados totalmente normais, mas são patológicos e como estão de acordo com ideais da época, a gente não consegue perceber que é prejudicial”, afirma o especialista. Ele exemplifica com o quadro de mania, que promove um perfil adequado a muitos ambientes de trabalho, mas causa o adoecimento da mente. Uma das dicas que ele dá ao empreendedor é não encarar a própria vida como uma empresa.

O Estadão PME entrevistou o psicólogo para falar mais sobre a saúde mental do empreendedor, com dicas para manter o emocional e psicológico estáveis. Confira a seguir:

Antes mesmo da pandemia, pesquisas já indicavam a maior prevalência de sintomas ou doenças mentais entre empreendedores em relação a não empreendedores. Que fatores levam a esse cenário?

O primeiro fator genérico é a transformação no nosso modo de trabalho, intermitente, a vida nas corporações muito regrada pelo ‘avalicionismo’, produtivismo, contratos de trabalho mais instáveis. Para os trabalhadores liberais, no ramo de serviços, acarretou jornadas extensas. É o neoliberalismo, bastante baseado na administração de sofrimento nas pessoas. A concorrência, distribuição de bônus, microgestão, isso no pacote é um fator muito importante de transtornos no ambiente de trabalho.

O segundo fator é a linguagem digital, de impessoalizar relações e agilizar processos, que diminui a fronteira entre vida pública e privada. Sendo mais sujeita a opiniões alheias, a pessoa pensa em como está sendo reconhecida. O terceiro fator são as transformações no modo de relação entre comunidade e instituições. A gente vai colocar uma transformação muito importante que é o uso de substâncias, legais e ilegais, que criam estados que não estavam presentes, como potência de atenção, vigília, ligação com o trabalho. A pessoa começa a perder a fronteira entre doping e dedicação.

De que maneira a saúde mental da pessoa que empreende afeta o negócio dela e os colaboradores?

Aqui, a gente tem um novo agrupamento de determinantes. Vamos considerar um percurso bastante recorrente de pessoa que tem experiência em grande corporação e sai dela porque não consegue aplicar o que aprendeu, não tem muita autonomia para decisão e acredita que, fazendo seu próprio negócio, pode rapidamente se colocar no azul e não terá esses problemas. Ela está pressionada por um certo tempo para que as coisas aconteçam e pela ilusão de que, uma vez proprietário, aquilo que encontrou na corporação não vai acontecer. Esses problemas voltam criando um sentimento de decepção dupla.

A isso se acrescenta a relação entre saúde mental e individualização. Quem está mais sujeito a sofrer mais é aquele que acha que o sintoma só pertence a ele, é culpa dele e tem vergonha de compartilhar. Quem vai para startups, geralmente, faz uma suposição de hiper individualização, pensando que tem o negócio nas mãos. Na prática, percebe que depende do sócio, do contador, do investidor, vê que depende mais dos outros e isso o expõe a sofrer.

Como a pandemia agravou esse cenário?

Aí tem outro percurso, que é o de milhares de falências. A falência não é só um fracasso financeiro, que implica perdas muitas vezes dramáticas, mas é a pessoa, a família e a comunidade em que está inserida. A falência é tomada como um fracasso moral, como algo que teve erro e não soube conduzir, e isso tem consequências devastadoras: a pessoa tende a se culpar, se afastar das outras, se recriminar excessivamente. Isso cria um passivo que facilmente evolui para alcoolismo, uso de substâncias, desorganização da família. E muitas vezes recai no que se chama de erro sequencial: a pessoa pensa ‘agora sei o que fiz de errado, vou pegar nome da filha, esposa, e abrir outra empresa porque já tenho meu autodiagnóstico’. Isso é tolo, mostra falta de entendimento, e as pessoas aprendem muito pouco com seus erros na vida econômica.

Quais habilidades de que o empreendedor precisa podem ser afetadas por condições mentais a ponto de prejudicar a empresa e o desempenho dele?

Há formas de transtornos considerados totalmente normais, mas são patológicos, e outros que se acham altamente patológicos e não é tanto assim. Uma pessoa que sempre está bem disposta, alegre, otimista, que trabalha muito e vê que o trabalho é a situação em que se sente completamente realizada pode ser o candidato que você quer como seu orientando, o seu gerente de marketing ou vendas, ou um quadro maníaco. Todos são possíveis, mas é um quadro clínico chamado mania e é quase uma condição para perfis de trabalho, mas são patológicos. Como estão de acordo com ideais da época, a gente não consegue perceber que é prejudicial.

Há habilidades como criatividade que são muito contextuais e específicas, porque ser criativo na empresa é diferente de ser no jardim de casa. Grandes categorias como criatividade, inteligência, são muito pouco preditivas. Inovação tem a ver com o que as escolas chamam hoje de habilidades socioemocionais: trabalho em grupo, capacidade de planejamento, solidariedade, abertura para experiências. Mas a tendência é individualizar o sofrimento, fracassos e dificuldades, típico de pessoa que precisa resolver os problemas dela mesma. Em regra, generalizando, são pessoas que vão entender os sintomas psicológicos como defeito, não como sinal de que algo precisa ser dito de outra maneira.

Como identificar que esses comportamentos considerados positivos no trabalho são, na verdade, transtornos mentais?

Primeiro, não olhe para sua vida como se fosse uma empresa, como se estivesse o tempo todo em sistema de trocas. Quem faz isso está em zona de maior risco. Tem de prestar atenção nos sintomas, não se enganar com falsas explicações de que isso é fase, cansaço, sendo que é desde sempre. Sintomas são coisas que se repetem e não são tratados por educação, porque outro erro comum é achar que vai estudar, entender o que é e tudo bem. Outro elemento é perceber se transformou a família em parte do trabalho, ver o tempo que dedica à família. Também, faça terapia, algum tipo de tratamento. Diante de uma insônia, não tome sonífero por anos a fio, não tome antidepressivo porque isso é um doping. Em geral, bons empreendedores sabem traduzir, perceber detalhes, ambientes da situação econômica, então é escutar a si mesmo.

Após quase um ano de pandemia, como o empreendedor pode se manter emocional e mentalmente estável para lidar com os desafios que as readaptações ainda vão exigir?

Uma orientação indireta, mas importante para o empresariado em geral é: estude. Hoje, a quantidade de discursos de pós-verdade, de enganação que tem entre os motivadores e coaching de empresa é muito grande. Estudar te coloca numa zona de trabalho regrado, disciplinado, que não está ligado à mera gestão da empresa. Isso é importante para a sobrevivência psíquica, porque também te coloca em contato com outras pessoas de maneiras diferentes. O estudo promove integração entre áreas de conhecimento e essa capacidade funciona como exemplo de compartilhamento, que é a base para se abrir para experiências novas. Olhar para a literatura, poesia, teatro e cinema não só como entretenimento, mas um repertório de soluções para conflitos, impasses e sofrimentos humanos.

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