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Estado de São Paulo, https://sustentabilidade.estadao.com.br/noticias/geral,eu-fiz-uma-reconexao-com-a-natureza,70003444876, 20/09/2020

Neorrurais trocam cidade pelo campo em busca de novo estilo de vida

Movimento de êxodo urbano ganha força entre adultos jovens que procuram por um novo meio de vida e trabalho aliado à natureza

Juliana Pio, O Estado de S.Paulo

Nascida e criada em Belo Horizonte, Nathalia Muguet, de 30 anos, vive em um sítio em Sobradinho, rodeada por mais de 700 mil plantas em sete hectares, o equivalente a sete campos de futebol. Há cinco anos, seu horizonte era um apartamento convencional, onde morou com os pais até decidir ir embora para seguir a carreira de agroflorestora. 

Cada vez mais comum no País, esse movimento de êxodo urbano, segundo especialistas ouvidos pelo Estadão, vem ganhando força entre adultos jovens que buscam um novo meio de vida e trabalho que combine bem-estar, cuidados com a natureza e, eventualmente, novas formas de ação coletiva. São os chamados neorrurais

Originado na França entre 1970 e 1980, o conceito é relativamente recente no Brasil. Cresceu na década de 1990 e ficou mais evidente a partir dos anos 2000, associado ao crescimento do ambientalismo e de alternativas sustentáveis na agricultura. “Foi um desafio contar para minha família que queria fazer faculdade para virar agricultora. Vi que nessa profissão é possível ajudar as pessoas com alimento e auxiliar o meio ambiente. Decidi fazer um curso superior para estudar mais cientificamente e, aos 25 anos, mudei de vez para o campo”, conta Nathalia. 

De acordo com Sérgio Schneider, professor do Programa de Pós-graduação em Desenvolvimento Rural da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, essa revalorização do rural e do meio ambiente se dá em um cenário em que a qualidade da vida urbana tem se deteriorado. “A cidade se tornou cara, caótica e violenta.”

Ativo econômico

Há também uma maior preocupação com a saúde física e mental, que não combina com o estresse, a competição e o individualismo típicos do urbano. Essa opção por um novo modo de vida, segundo o sociólogo, envolve uma prática de consumo e de engajamento político dentro do contexto de sustentabilidade. “A questão ambiental deixou de ser meramente protesto e passou a ser um ativo econômico.” 

Se no passado as migrações aconteciam de forma isolada, hoje, os neorrurais têm ajudado a encurtar essa distância entre a cidade e o campo. Com o avanço da tecnologia comunicacional, como a internet, a dimensão do espaço físico não é mais um elemento impeditivo para o indivíduo se conectar com o mundo. “Os neorrurais deixam uma empresa, mas não perdem o contato com ela e muitas vezes fazem consultorias ou trabalhos que mantêm os fluxos de renda em dois espaços”, exemplifica Sérgio. “É a ideia do pense globalmente, aja localmente.” 

Embora ainda não existam estatísticas sobre o assunto, o movimento já é observado em diferentes regiões do Brasil, como explica Ivan André Alvarez, pesquisador da Embrapa Territorial. “É comum em áreas conhecidas como periurbanas, próximas dos centros urbanos. São pessoas na faixa de 30 a 40 anos, que conseguem aliar o agronegócio com a preservação do meio ambiente. Elas conhecem o mercado, porque eram consumidores na cidade.” André destaca que os neorrurais são mais abertos ao associativismo. “Eles criam soluções em conjunto. É mais fácil e rentável vender um produto de maneira associativa.” 

Para Ademir de Lucas, professor da Escola Superior de Agricultura (Esalq/USP), os neorrurais levam para o campo a vivência no urbano, oriunda dos trabalhos que faziam na cidade – o que contribui para a diversificação para além da agricultura, como serviços de turismo ecológico. O que na visão de Paulo Eduardo Moruzzi Marques, professor da Esalq/USP, “é um reconhecimento de que o campo pode oferecer alternativas interessantes às famílias”. 

A dificuldade em quantificar os neorrurais reside na incipiência e na pluralidade do movimento. Como adverte Gabriel Siqueira, mestre pela Universidade Federal de Santa Catarina, muitos vivem em assentamentos sustentáveis. O Conselho dos Assentamentos Sustentáveis da América Latina, do qual Gabriel é representante, tem mapeado essas áreas desde 2018. “Está ocorrendo um aumento dessa migração para o campo. E com a crise da pandemia o movimento está ainda mais forte, com a viabilidade do home office.”

  • Começo com pouco vira inspiração

Nathalia Muguet, que decidiu aos 25 anos mudar para o campo, fala sobre a experiência

Sempre me chamou a atenção a felicidade que as pessoas têm na simplicidade. Na adolescência, fiz intercâmbio nos EUA e fui morar em uma cidade do interior, onde percebi que muitas das relações se pautavam com a natureza. Fiz um curso de permacultura e conheci a agrofloresta e a minha vida fez todo o sentido. Foi nesse momento que percebi que o ser humano, dentro dessa tecnologia agrária, não precisa ser um vilão e sim um agente potencializador dos processos de vida. 

Foi uma longa jornada até sair de Belo Horizonte e ir morar no Sítio Semente, em Sobradinho (DF). Fiz quase três graduações e pude estudar em outros países, como Moçambique e Índia. O meu primeiro contato com a região foi aos 20 anos. Mas passei por vários processos até dizer que era agricultora de fato e decidir, aos 25 anos, me mudar para o campo.

Esse processo de me aceitar e me compreender como agricultora foi uma libertação. A sociedade não compreende o papel e a importância dessa profissão, que é desvalorizada. Foi um desafio contar para a minha família da cidade que queria fazer faculdade para virar agricultora. E, hoje, isso é o que me dá alegria e prazer interno, os quais acredito ser o maior objetivo de qualquer pessoa na profissão. A lógica da sociedade está invertida. Estamos vivendo um momento de perceber outros potenciais e ser agricultor é interessante e rentável. É um trabalho digno e a gente pode ajudar as pessoas com alimento, mas também pode auxiliar o meio ambiente com os nossos processos agrícolas. 

O Sítio Semente está localizado em um ambiente de Cerrado, que já passou por devastação e foi pasto. Começamos com 3 hectares de produção e hoje estamos com mais de 600 espécies e 700 mil plantas em 7 hectares. Vizinhos se inspiraram e a região se transformou em uma área de desenvolvimento de sistemas agroflorestais, e Brasília em uma grande capital desse contexto de recuperação ambiental. 

Muito do que aprendemos compartilhamos com outras pessoas. Realizamos mais de dez cursos e, ao longo desses dez anos, já passaram mais de 10 mil alunos, do Brasil e de outras partes do mundo. São pessoas da cidade que querem fazer essa transição para a vida rural de forma sustentável e economicamente viável. Quando elas chegam ao sítio e se deparam com a produção e como a gente se relaciona e somos felizes, saem inspirados para fazerem o mesmo.

‘Sem dúvida nenhuma, valeu a mudança’

Uma série de fatores me motivou a sair do Rio e vir para a zona rural de Miguel Pereira no interior do estado, há pouco mais de dois anos. Comecei e me ver rodeada de pessoas doentes e, com isso, a questionar o estilo de vida que a cidade impõe, assim como meus padrões de consumo, hábitos, relação com a natureza e os impactos de tudo isso. 

Trabalhei por cinco anos como consultora da ONU-Habitat em um programa de desenvolvimento social e urbano de favelas pacificadas, em parceria com a prefeitura do Rio. Eu amava o que fazia e, por isso, iniciei uma pós-graduação em políticas públicas. Mas passei por várias decepções. Ao mesmo tempo, crescia o interesse em cuidar da propriedade rural dos meus pais. Foi então que, em 2018, decidi me mudar com meu companheiro. 

Sem dúvida nenhuma, valeu a mudança. Os centros urbanos têm inúmeros benefícios, mas, da forma como se encontram, não trazem qualidade de vida para a maioria. O custo de vida no Rio é muito alto, o dinheiro serve para pagar as contas. Depois do consumo, você não se satisfaz e quer sempre algo novo. Não por acaso, o público dos nossos cursos vem da cidade grande, de ocupações urbanas. Gente que vive para esperar a chegada do fim de semana, para, enfim, ter um respiro, porque está exausto.

‘Não faz mais diferença estar em grande capital para se desenvolver profissionalmente’

Gabriel Siqueira, paulistano de 39 anos que vive na Bahia, conta que expansão do trabalho remoto tem facilitado muito a migração de pessoas da cidade para o campo

Nasci na zona sul de São Paulo, onde vivi até os 24 anos, quando comecei a me afastar cada vez mais dos grande centros urbanos. Fazia administração na Universidade de São Paulo (USP) e me via muito insatisfeito. O que me motivava era a questão social das relações humanas e coletivas e via enorme dificuldade para articular grupos na capital, pelo excesso de atividades concorrentes, distância física e tempo perdido no trânsito.

Mesmo em busca qualidade de vida, notei que havia um limite até onde conseguiria chegar. Por isso decidi, num primeiro movimento, ir para Florianópolis. Uma ruptura grande, porque larguei a faculdade e passei a morar em locais perto da zona rural, de forma coletiva. Voltei para a graduação, casei, tive filhos e inicie  pesquisa de mestrado sobre ecovilas no Brasil.

O objetivo era buscar maneiras de se fazer um outro tipo de administração que não fosse a tradicional, aprendida na faculdade, muito centrada em hierarquias e em métodos de manufatura empresariais. Esse modelo não satisfaz as necessidades de muitos grupos coletivos, como ONGs, que não trabalham em função do lucro e precisam cuidar de áreas além de produtividade, como a dimensão ética e as relações humanas.

Em 2012, aos 31 anos, junto com coletivos de amigos, criei uma ecovila na zona rural de Itacaré, no sul da Bahia, onde moramos por cinco anos. Depois, mudamos para uma comunidade tradicional, com forte vocação para a sustentabilidade, em Uruçuca (BA), onde estamos há quatro anos. Vivemos em um terreno com cinco famílias, cada uma em sua casa.

A vila tem cerca de quatro mil habitantes, sendo que a maioria, veio de cidades grandes e não necessariamente largaram suas carreiras. Essa é uma característica que nos diferencia bastante do movimento hippie da década de 1960. Antes, ao mudar, as pessoas rompiam todos os laços. Hoje, com a internet, isso não é mais necessário.

Trabalho remotamente desde 2006, sou diretor de Comunicação e Tecnologia da Global Ecovillage Network e representante brasileiro no Conselho dos Assentamentos Sustentáveis da América Latina (CASA Latina). Mas, no início, encontrei muitos desafios. Era uma luta convencer as pessoas de que era possível atuar dessa forma. E hoje, por conta da pandemia, as empresas estão sendo obrigadas a viabilizar o home office.

O cenário mudou completamente e não é preciso conseguir emprego presencial para fazer a transição para o online. Portanto, não faz mais diferença estar em uma grande capital para se desenvolver profissionalmente, dependendo da área de atuação.

A expansão do trabalho remoto tem facilitado muito a migração de pessoas da cidade para o campo. E com a pandemia , ficou ainda mais evidente esse movimento de romper a distinção entre rural e urbano e compreender que existe uma interdependência total entre as áreas. Muitos que pensavam em mudar, mas aguardavam a condição perfeita, perceberam que não há mais o que adiar.

A qualidade de vida na cidade se degrada de forma absurda e rapidamente. Ficar dependendo desse mundo que produziu a pandemia não é  bom negócio. Viver numa situação apocalíptica como essa torna ainda mais urgente esse projeto de transição de vida, de uma nova cultura e maneira de estarmos presentes no mundo. É um momento de oportunidades.

Engenheiro se muda para a Amazônia e ajuda a combater madeireiras ilegais

Eric Brosler é engenheiro florestal e agricultor em Maués, no Amazonas

Sou de Guaratinguetá, interior de São Paulo, e vim para o Amazonas aos 23 anos. Atualmente, com 33, moro em um sítio que fica a quatro horas de barco de Maués. Trabalho em conjunto com mais de 150 famílias de comunidades ribeirinhas e indígenas, auxiliando tecnicamente na promoção da agricultura sustentável, que leva em consideração não só o aspecto ambiental, como também o econômico e social.

Começo com pouco vira inspiração

A primeira vez que estive na região foi em 2011, quando ainda cursava Engenharia Florestal. Realizei um trabalho de agrofloresta na Reserva Biológica de Uatumã. Foi quando me apaixonei pela Amazônia, ao vivenciar a tradição do trabalho em comunidades, de forma coletiva, nos chamados ‘puxiruns’ ou mutirões. Fiquei impressionado com essa dinâmica, em que os processos são rápidos e tudo é abundante. 

Mesmo com o trabalho comunitário, os moradores locais não tinham o costume de se articularem em associações e cooperativas. Por isso, a nossa função, além de auxiliar na prática agrícola, é buscar fortalecer esses grupos e viabilizar mercados, inclusive no exterior, para que o produto dos ribeirinhos e indígenas se torne mais valorizado. Ou seja, se antes eles necessitavam tratar com atravessadores, hoje, com as associações organizadas, comercializam diretamente com as empresas e ainda garantem o dobro de rendimento.

Além da questão econômica, as articulações fortalecidas também dificultam a atuação de madeireiras ilegais na região. Organizando os produtores, eles conseguem vender mais e ter um bom retorno financeiro, não permitindo esse tipo de atividade em suas terras. Nosso trabalho se pauta na troca de conhecimento e, juntos, vamos construindo uma nova forma de se fazer agricultura. Aprendo muito com eles e não tenho vontade de voltar para a cidade de jeito nenhum.

Eu fiz uma reconexão com a natureza, diz designer que aproveitou pandemia para mudar

“As pessoas estão percebendo que não vale mais a pena trabalhar com algo que não gostam para ter dinheiro’, afirma ele

Sou formado em Design Gráfico e trabalhei por nove anos como editor de Arte em uma editora de livros didáticos em Londrina, no Paraná. Em 2014, minha mulher, que é bióloga, iniciou a produção de orgânicos na propriedade da família em Sabáudia, a cerca de 40 km de Londrina. Comecei a trabalhar meio período para ajudá-la no campo, mas não tinha muito conhecimento. 

O agricultor Eduardo Carriça, que também é designer gráfico de formação, com a família em sua propriedade em Sabáudia, interior do Paraná Foto: Adriano Sarmento

Desde que me graduei, sempre trabalhei em lugares legais, mas nunca estava completamente feliz. Até que em 2016 decidi fazer um curso de agrofloresta e acabei me apaixonando. É uma reconexão com a natureza. Não me imaginava mais trabalhando no escritório, em uma sala sem janela, com ar-condicionado e oito pessoas. Quando um ficava doente, todos adoeciam juntos. 

Eu e minha mulher decidimos adotar a técnica na fazenda. Íamos todos os dias para Sabáudia e sempre com a ideia de morar. O que nos segurava em Londrina era a escola dos filhos. Até que a pandemia chegou e facilitou esse processo, com as aulas online.

Concluímos que era melhor eles estudarem em uma escola comum e terem a vivência no sítio, que eles adoram. De lá pra cá, além da produção agrícola, construímos alojamento, desenvolvemos cursos e um projeto educacional com escolas. Mais de 90% do nosso público não é agricultor. São dentistas, engenheiros, advogados, pessoas que querem deixar os empregos e a vida agitada na cidade e ir morar no campo. Inclusive, depois do nosso trabalho, muitos produtores em Londrina ingressaram na agrofloresta. 

Hoje, conseguimos passar mais tempo com as crianças. Eles trocam o desenho para cuidar da terra. Temos orgulho em ser chamados de agricultores, estamos cuidando do solo e colhendo o que dá. Nosso trabalho é a produção, conscientização e profissionalização. A gente produz o alimento e quer ensinar as pessoas a produzirem, mas também queremos conscientizar a população, e isso passa pela educação infantil.

As pessoas estão percebendo que não vale mais a pena trabalhar com algo que não gostam para ter dinheiro e comprar pequenos prazeres. Elas não estão sendo felizes dessa forma. A agrofloresta, antes de ser um grande sistema de produção e mudar totalmente a forma de produzir e a qualidade do alimento, muda as pessoas e a forma como interagem com o planeta. Estamos percebendo qual o nosso papel aqui. A vida é uma só, a gente não come dinheiro.

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