Odontologia digital já acelera os tratamentos e reduz os desconfortos
Recursos tecnológicos que permitem realizar em poucos minutos o que antes levava horas e aumentar a precisão no cuidado com os dentes se popularizam no Brasil
MÔNICA MANIR | OESP*
“O que, em 1992, levou a 14 vindas ao consultório, agora exigiu apenas duas.” Assim o cirurgião-dentista Mauro Giuzio, de São Paulo, exemplifica o que entende ser a maior vantagem da odontologia digital: o ganho de tempo.
O exemplo que o fez voltar 34 anos vem de Ivette Forte Osso, de 84 anos. Em 1992, Giuzio agendou mais de uma dezena de consultas com a professora aposentada para fazer o mesmo trabalho de hoje: três coroas provisórias e três de cerâmica fresadas. Ivette usa prótese. “Menos horas na cadeira do dentista foram fundamentais para o seu conforto”, diz Carlos Osso, marido de Ivette.
Odontologia digital é o campo da odontologia que utiliza tecnologias computacionais e sistemas digitais para aquisição de dados, processamento, planejamento, fabricação e gerenciamento de dados clínicos e laboratoriais relacionados ao diagnóstico, à reabilitação oral e aos procedimentos odontológicos. Traduzindo a definição da inteligência artificial, odontologia digital é usar recursos que acelerem o tratamento dentário sob a promessa, cada vez mais real, de manter ou acrescentar qualidade e precisão ao processo.
Em vez daquela massinha de alginato ou silicone que invariavelmente causa ânsia e desconforto na moldagem, por exemplo, muitos dentistas já usam o escaneamento feito em poucos minutos com uma câmera pequena. O arquivo 3D vai direto para o computador.
Antigamente, quando fazia uma tomografia de um dente, Giuzio a colocava em um aparelho chamado negatoscópio, um painel de LED com alta luminosidade, para conferir se a imagem batia com o que ele identificava no paciente. “Hoje, eu tenho um software que interpreta as tomografias para mim, me dando espessura, densidade, presença de cistos, doenças gengivais, perdas ósseas”, diz. “O digital faz com que eu perceba melhor o problema porque o evidencia.”
OS PASSOS DA REVOLUÇÃO. O marco inicial da odontologia digital foi a descrição do primeiro sistema CAD/CAM dentário em 1973 pelo dentista e bioquímico francês François Dupret. Cerne da odontologia restauradora, os softwares CAD (Computer-Aided Design) permitem que o profissional desenhe, em um computador e com perfeição milimétrica, a peça protética. Em seguida, a tecnologia CAM (Computer-Aided Manufacturing) utiliza uma fresadora que esculpe a restauração em questão de minutos.
Em 1985, durante um congresso em Paris da Associação
Dentária Francesa, Dupret levou a teoria à prática, esculpindo a primeira coroa do mundo por impressão óptica e sistema CAD/CAM na boca de sua mulher, Elisabeth. Sem falsa modéstia, o francês declarou: “Não me envergonho de dizer que inventei essa tecnologia, pois, depois de tê-la descrito nos anos 1970, demonstrei-a hoje, e em público”.
A revolução foi se popularizando nas décadas seguintes, com os scanners intraorais, a tomografia computadorizada de feixe cônico, a impressão 3D e softwares que projetam o sorriso. Mas o “boom” veio mesmo no período pós-pandemia, quando a necessidade de reduzir o tempo de exposição do paciente nos consultórios se juntou à busca por processos seguros e eficientes.
O cirurgião-dentista José Quinto Júnior, de São Paulo, lembra que o alinhador “invisível” é um dos protagonistas desse fenômeno.
“Os alinhadores transparentes foram os grandes propulsores da propagação do escaneamento no Brasil”, diz.
Um scanner intermediário custa entre R$ 15 mil e R$ 35 mil. Um premium, até R$ 90 mil. É possível encontrar impressoras 3D numa faixa larga de preço, entre R$ 1,5 mil e R$ 30 mil, enquanto uma fresadora CAD/CAM básica pode sair por até R$ 120 mil.
Segundo Giuzio, cerca de 3 mil consultórios no País têm o sistema completo. Há cerca de 470 mil cirurgiões-dentistas no Brasil – 20% de todos os dentistas no mundo.
ENGAJAMENTO. “Tiramos fotos, escaneamos, mostramos casos semelhantes, fazemos simulação com IA, tudo para que o paciente entenda seu quadro e sinta mais tranquilo”, diz Luciana Giuzio, mulher de Mauro e parceira na clínica.
Essa previsibilidade ajudou o geólogo Helio Lazarim a optar pela reabilitação de seus 28 dentes por meio de lentes de contato. Foram 20 horas divididas em três dias. “Houve todo um planejamento digital com escaneamento e isso me deixou tranquilo.”
Com 35 anos na função, o protético Fernando de Oliveira Correa, do Laboratório Ero Prótese, conta que clareamento e lentes de contato estão no topo das preferências.
Para Giuzio, um dos segredos para satisfazer é investir no atendimento humano. Ele fez questão de estar presente às palestras sobre inteligência emocional oferecidas no São Paulo Innovation Week, festival de tecnologia e inovação realizado pelo Estadão em parceria com a Base Eventos. “A parte boa de eu ainda pensar certas coisas analogicamente é que sempre questiono as respostas que o digital me dá, pois 2 mais 2, em saúde, muitas vezes não dá 4”, diz. “É preciso saber juntar os dois mundos para interpretar o paciente, porque casa pessoa tem uma expectativa e um tempo para absorver as informações e também porque, acima de tudo, saúde não é mercado.”
*Estado de São Paulo, https://digital.estadao.com.br/o-estado-de-s-paulo, 14/06/2026, pg.A16