Os desafios de viver em Cingapura
Custo de vida assusta imigrantes brasileiros
JAYANNE RODRIGUES | OESP*
O que leva tantos brasileiros a se mudarem para um dos países mais caros do mundo? Para o publicitário Marcos Becker, 46, a resposta veio após uma proposta de emprego. Em meados de 2019, ele deixou o Brasil rumo a Cingapura, metrópole asiática com quase 5 milhões de habitantes. Ele ficou lá por cinco anos, até o ano passado. O alto custo de vida da ilha surpreendeu o profissional. Ele desembolsava cerca de 2.500 dólares cingapurianos (aproximadamente R$ 10 mil) por mês por um apartamento de um quarto.
O publicitário faz parte dos 2 mil brasileiros que vivem no país, conforme dados do Ministério das Relações Exteriores do Brasil. A adaptação em um novo país foi mais desafiadora do que imaginava, relata Marcos Becker, que confessa não ter se acostumado com a culinária local e chegou a passar meses comendo em hotéis.
O idioma também foi um obstáculo inicial. “O sotaque quando falam inglês é forte, e no começo não dava para entender direito”, diz. Cingapura é um país multilíngue, com quatro línguas oficiais: inglês, malaio, mandarim e tâmil.
Apesar dos desafios, o brasileiro decidiu permanecer, principalmente por causa da organização, segurança e limpeza da cidade-estado. Além de ser o país mais caro do mundo, Cingapura é conhecida como a “cidade-jardim” por reunir áreas verdes e ter leis rígidas de limpeza.
Em 2023, a ilha registrou o maior PIB per capita do mundo, de US$ 141.553, de acordo com o Banco Mundial. Como comparação, no mesmo período, o PIB per capita do Brasil atingiu US$ 21.107, enquanto os EUA alcançaram US$ 82.769.
Cingapura também se destaca como a única localidade da Ásia no top 50 de qualidade de vida, segundo panorama global da consultoria Mercer.
Na ilha, os contratos de trabalho para estrangeiros geralmente têm duração de dois anos, com possibilidade de renovação, e o visto costuma ser patrocinado pela empresa antes mesmo da chegada ao país.
VISTO.“Você tem que ter uma empresa que queira te contratar para conseguir o visto”, explica o brasileiro.
Marcos Becker trabalhou em duas empresas em Cingapura: uma multinacional americana e outra empresa local que foi adquirida por uma multinacional francesa, ambas no setor de publicidade.
Durante essas experiências, o brasileiro notou que a cultura organizacional de multinacionais sediadas em Cingapura tinham forte influência britânica.
O período de férias é outro ponto distinto. Em Cingapura, o padrão é de 10 dias, e qualquer tempo adicional precisa ser negociado diretamente com o gestor. No caso de Becker, ele tinha, em média, 18 dias úteis de folga por ano.
“Por causa do sotaque, no começo, não dava para entender o inglês”
“Para obter o visto, uma empresa tem de te contratar” – Marcos Becker
Apesar de serem menos dias do que no Brasil, o modelo oferece mais flexibilidade, afirma o publicitário, que costumava dividir suas folgas ao longo do ano. Nessas ocasiões, aproveitava para viajar por países vizinhos, como Tailândia e Malásia, onde os custos eram mais acessíveis.
O brasileiro não quis revelar seu salário, mas afirma que era considerável para ter uma vida confortável na cidade-estado. Mas ele admite que a qualidade de vida também era proporcional ao custo de vida.
Cingapura não tem um salário mínimo estabelecido. As remunerações são negociadas conforme a oferta e procura de mão de obra e pela experiência do funcionário. No entanto, para trabalhadores estrangeiros, o governo estabelece valores mínimos conforme a categoria do visto.
Profissionais altamente qualificados que obtêm o visto Employment Pass (EP) devem receber, no mínimo, 5 mil dólares cingapurianos (cerca de R$ 21 mil). Já aqueles que ingressam com o S Pass, voltado para trabalhadores com perfil técnico de nível intermediário, precisam ter um salário de, no mínimo, 3.150 dólares cingapurianos (aproximadamente R$ 13,4 mil) por mês.
Há um ano, o brasileiro Marcos Becker se mudou para Dubai após receber uma nova proposta de emprego. Ele destaca que, além do custo de vida mais baixo em comparação com Cingapura, Dubai oferece mais flexibilidade na obtenção do visto de trabalho.
Em comparação com a cidade de São Paulo, o custo de vida na metrópole asiática é 59,7% maior. Os preços de aluguel na capital paulista são 80,4% mais baixos que em Cingapura. Em contrapartida, o poder de compra local da cidade brasileira é 53,6% menor que na ilha. Os dados são do site Numbeo, especializado em custo de vida.
NAS REDES. Assim como o publicitário Marcos Becker, a criadora de conteúdo Débora Dionísio também lamenta o alto custo dos aluguéis em Cingapura. Ela cita como exemplo um imóvel que, em determinado ano, custava 2 mil dólares cingapurianos e, agora, não sai por menos de 4 mil (cerca de R$ 17 mil).
Ela e o marido moram em Cingapura desde março de 2019. A mudança foi motivada por uma proposta de emprego que o companheiro recebeu de uma recrutadora pelo LinkedIn enquanto ainda moravam no Brasil.
“Na época, quando viemos, nem tinha muito conteúdo na internet sobre brasileiros em Cingapura”, diz. Ela começou a estudar inglês após a chegada ao país e, durante a pandemia, criou o canal no YouTube para compartilhar sua experiência. Depois do lockdown, foi contratada por uma escola com um contrato temporário. Débora possui o visto de Dependant’s Pass, que permite que cônjuges e filhos de portadores do Employment Pass possam ingressar legalmente.
Sobre o mercado de trabalho na cidade-estado, Débora considera difícil conseguir emprego, mas ressalta que a fluência em inglês e uma boa qualificação – a depender da demanda do setor – podem fazer a diferença. No entanto, não recomenda se mudar para o país sem uma proposta de trabalho.
Como turista, um brasileiro pode permanecer no país por apenas 30 dias. Quem tem passaporte europeu pode ficar até 90 dias.
*Estado de São Paulo, https://digital.estadao.com.br/o-estado-de-s-paulo, 01/03/2025, pg. B14