‘Pertences têm história’: como é trabalho de um personal organizer do luto

Heloísa Barrense Do UOL*, em São Paulo

Amanda dos Santos, 38, vai às casas de pessoas que morreram para ajudar a família enlutada a organizar os pertences de quem partiu. A função, ainda pouco comum, tem o nome de “personal organizer” no luto. Uma tarefa cheia de delicadezas e emoções envolvidas. Ao UOL, ela, que tem formação em organização e é estudante de psicologia, conta como é o trabalho.

‘Temos de lidar com o ritmo emocional’

“Comecei a trabalhar há alguns anos com organização e um projeto de organizar objetos de quem está passando pelo luto me chamou bastante atenção. É um assunto não muito falado.

O que me despertou o interesse foi olhar para todo o ecossistema de temáticas com as quais o luto está envolvido, como relacionamento e aposentadoria.

No primeiro atendimento, compreendemos a situação e orientamos para as próximas etapas. Temos de ter bastante empatia para recolher algumas informações.

Fazemos um levantamento das necessidades da família e depois vamos para uma segunda etapa: uma orientação documental dos pertences e dos cuidados para o imóvel.

Nessa etapa, a família está lidando com alguns procedimentos administrativos e nós fazemos orientações para isso. E é nesse momento que vem a organização e a separação dos pertences.

Para conduzir essa parte mais sensível do processo, vou até a residência do falecido acompanhado de um ente querido maior de 18 anos e vamos catalogando todos os itens da casa, separando ainda o que será mantido, o que será doado e o que será descartado.

“É um trabalho minucioso porque temos que fazer com respeito e privacidade.”

Temos de lidar também com o ritmo emocional desses familiares. Aquela roupa ou joia que estamos mexendo têm um valor significativo aquele familiar. Então, temos de ter cuidado.

É um processo bastante delicado: tem gente que prefere fazer o levantamento com a gente, outras pessoas que preferem que a gente faça isso e depois só repasse as informações. Depende de cada um.

‘Depende da cultura de cada um’

A primeira questão é entender que a pessoa enlutada está reintegrando a vida dela, se readaptando ao dia a dia. O luto não tem cura.

Nesse processo tem pessoas que ficam em silêncio e aí, ficamos em silêncio junto com a pessoa. É uma forma de acolhimento. E tem aquelas que preferem que a gente converse, que gostam de falar, então a gente faz uma escuta acolhedora nesse momento.

Além disso, tem a questão da privacidade que deve ser respeitada —você começa a ter acesso a tudo daquela pessoa querida que faleceu e temos de respeitar o limite de cada um.

Quando separamos os itens, algumas peças são doadas, outras guardadas e outras vão para descarte ecológico. A doação pode ser tanto para instituições parceiras nossas, quanto para alguma que a família prefira.

A maior parte de doação e descarte é de roupa e, normalmente, o que fica para os familiares são as joias, que sempre têm um significado para eles. Também fazemos muito descarte de móveis, como cama e sofá.

Tudo isso depende muito da cultura e religião de cada um. Tem quem realmente prefira as doações e quem prefira descartar, por exemplo. É muito sobre como a pessoa vai enfrentar esse luto.

“E o tempo para fazer essas organizações também é relativo: há quem demora dois dias, outros que são quatro… vamos trabalhando conforme o familiar vai abrindo a situação para a gente. Tem familiares que às vezes pedem para parar o serviço, para voltar só no outro dia.”

Certa vez, me chamou a atenção o caso de uma cliente: a tia dela faleceu em janeiro e o atendimento aconteceu só entre maio e junho. O que percebi é que a família dela passou esse tempo todo provavelmente se reintegrando àquela nova vida

Eles estavam tentando entender sobre o luto para só então a gente poder ir até a residência e fazer todos os trâmites.

O que mais pensamos quando fazemos esse trabalho é em como aquela pessoa está se sentindo e em acolher. Os familiares precisam de tempo para processar: são entes queridos que estavam ali no convívio e que muitas vezes as pessoas acabaram perdendo de forma repentina.

‘Os pertences têm história’

Há um ano, tive de fazer esse trabalho com o meu próprio pai, que faleceu. Foi muito difícil: a gente pega um sapato e se lembra de uma história. Os pertences têm história.

Tive de me preparar para trabalhar com isso. O conhecimento é necessário e, claro, o amor. Quando a gente realmente gosta daquilo que a gente faz, conseguimos conduzir de uma maneira mais leve.

Serviço é recente

O trabalho de Amanda faz parte da assistência Amparo Sustentável, idealizada pela Ecoassist. Quando uma pessoa tem seguro de vida, o familiar pode acionar a assistência, que apoia as famílias a encontrar destinos sustentáveis para móveis, roupas, sapatos e outros itens. O serviço começou depois da pandemia.

“Muitas vezes, os familiares não sabem o que fazer com determinados itens ou não se sentem emocionalmente preparados para tomar decisões sobre os pertences. Nosso papel é apoiar com acolhimento e responsabilidade, inclusive ambiental.” Eber Souza, diretor da Ecoassist

Entenda o luto

O luto provoca sentimentos complexos, como tristeza profunda, dor, raiva, negação, culpa e sensação de vazio, após a perda de algo ou alguém significativo em nossas vidas. A intensidade da dor e a forma como cada um vivenciará essa perda são bastante individuais e devem sempre ser respeitadas.

Ajudar uma pessoa enlutada é uma tarefa complexa, pois envolve empatia e compreensão de sentimentos diversos. O primeiro passo é oferecer apoio e escutar ativamente.

  • Outras formas de apoiar são:
    Reconhecer a dor alheia e não minimizar a perda.
  • Ajudar nas tarefas do dia a dia, como cozinhar ou fazer compras.
  • Respeitar o ritmo e o tempo do enlutado. É fundamental não pressionar a pessoa para superar a perda rapidamente.
  • Escutar o que a pessoa deseja fazer: ficar sozinha ou ter companhia.
  • Incentivar o autocuidado. De forma gentil, confira se o enlutado está conseguindo realizar hábitos de higiene, como tomar banho ou escovar os dentes.
  • Reforçar a importância do apoio profissional
  • Manter sempre contato e mostrar que se importa.
  • Evitar julgamentos e frases clichês, como “ele está em um lugar melhor agora” ou “foi melhor assim”.
  • Não comparar a dor de uma pessoa com a outra.

Quando procurar ajuda especializada

Geralmente, procurar ajuda especializada é indicado quando os sintomas de tristeza intensa ou raiva persistem e não diminuem com o passar do tempo. Além disso, o enlutado pode ter dificuldade em retomar a vida diária e as responsabilidades. Também é importante avaliar se a pessoa se afastou dos amigos e familiares e não quer contato social.

Outro indício é quando ela começa a ter comportamentos autodestrutivos, como abusar de álcool e drogas, colocar-se em situações de perigo, praticar a automutilação ou pensar em suicídio.

*Portal Uol, https://noticias.uol.com.br/cotidiano/ultimas-noticias/2025/11/09/personal-organizer-de-luto.htm, 09/11/2025

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